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Pelas marginais, minhocões e corredores: a sonoridade avança e não tem volta

Felipe Cordeiro é uma das atrações do projeto BR em Sampa, no Sesc Consolação
Felipe Cordeiro é uma das atrações do projeto BR em Sampa, no Sesc Consolação

Marcelo Nova, Mona Gadelha, Felipe Cordeiro e Tetê Espíndola participam da segunda edição do projeto BR em Sampa que reúne artistas de outras regiões do País que escolheram São Paulo para viver

Os sotaques de São Paulo denunciam. Cada pedaço do Brasil pode ser encontrado na maior cidade da América Latina. O x que rouba o lugar do s, o r que ganha o destaque, vogais abertas, outras mais fechadas, a falarápida, a beeeem pausaaaada.

Na chegada à capital paulista o fenômeno se repete: em cada mala aberta, um pouquinho da cultura trazida escapa. Espalha-se. Pega marginais, minhocões e corredores. A sonoridade avança e não tem volta. Assim, diferentes ritmos se misturam nas ruas, no rádio do carro passando, na jukebox da Casa do Norte, no som que vaza pelas portas do bar.

BR em Sampa apresenta um pouquinho dessa miscelânea que a metrópole reúne. Nesta edição, desembarcam por aqui migrantes vindos de Bahia, Pará, Ceará e Mato Grosso do Sul. A alta quilometragem acompanha a bagagem desses artistas: Marcelo Nova, Felipe Cordeiro, Mona Gadelha e Tetê Espíndola (que lançou novo álbum pelo Selo Sesc este ano), respectivamente.

A EOnline conversou com Felipe Cordeiro, figura que despontou no cenário musical do Norte do País nos últimos anos e agora adota o CEP paulistano para receber correspondências.

EOnline: Hoje São Paulo ainda é um destino necessário para os artistas que começam a despontar em outras partes do país?
Felipe Cordeiro: Não é um destino necessário, na verdade pode até atrapalhar, a cidade é cheia de oportunidade, mas carregada de contradições. Aliás, são essas contradições que mais me interessam em São Paulo, creio que está nelas o seu maior barato, o seu principal motor.

Pode ser bom se o sujeito gostar de viver aqui, porque se estiver aqui só pensando nas oportunidades de trabalho, pode não ser legal. Tem que amar São Paulo e isso não é tão fácil. Conheço muitos artistas bem sucedidos que não saíram do seu lugar de origem, isso é uma questão existencial. Embora, muito do que pauta o Brasil (sua cultura, suas notícias) ter um caráter etnocêntrico, historicamente focado no eixo sudeste, não há obrigatoriedade de vir pra cá. Isso de ter a obrigatoriedade de vir pra cá pra "ser alguém" é um mito ou um falso sonho.

EOnline: São Paulo é conhecida por receber gente do país todo. No que a cidade te surpreendeu?
F.C.: Uma cidade acolhedora, e, como falei antes, cheia de céu e inferno. Aqui, pude fazer amigos e me surpreendo com a força de vontade das pessoas melhorarem as coisas, da cidade, do país. Isso é muito forte em São Paulo, até porque é uma necessidade.

EOnline: Você já fez turnês pela Europa, é frequentemente citado em listas estrangeiras de novos talentos brasileiros. Qual o tamanho da fronteira? A internet também foi para você uma ferramenta fundamental?
F.C.: O mundo que eu nasci e me criei é muito diferente da época do meu pai por exemplo. Meu pai, Manoel Cordeiro, gravou segundo um recente levantamento feito por um amigo de Fortaleza, só no estado do Ceará, 4.445 músicas, entre 1984 e 1994. Trata-se de parte relevante do imaginário musical popular do norte e nordeste, mas as pessoas só o estão conhecendo agora, porque toca comigo na banda, está na internet e todo mundo pode ver. A internet encurtou muito as distâncias. A mixagem do meu primeiro disco, o Kitsch Pop Cult, foi toda discutida pelo twitter, com o produtor André Abujamra, ele me mandava mensagens diárias (de Curitiba), e assim foi. Tudo mudou e, de repente, Belém já não é tão longe assim. Hoje, não moro em Belém, mas não me sinto desintegrado de lá, nem de Damasco, nem de Recife, nem de Berlin.

EOnline: Quem ouve seu trabalho reconhece o que você chama de pop tropical. Quais foram as influências que te ajudaram a chegar nessa sonoridade e a importância de Kassin e Miranda nesse processo?
F.C.: Escuto a música contemporânea e tradicional da América Latina, mas obviamente formei meu gosto a partir da música brasileira. De uns anos pra cá, escuto "com ouvidos de estudo" tudo que está relacionado à cultura pop mundial, porque vejo aí o movimento do mundo, do comportamento, do pensamento. Kassin e Miranda foram fundamentais na sonoridade do "Se Apaixone Pela Loucura do Seu Amor". Além de que hoje tenho uma banda com Kassin, uma banda que foca no repertório do meu pai, chama-se "Manoel Cordeiro e os Desumanos". Acabamos de começar, ainda vai render frutos, o Liminha também é da banda, estreamos no festival Se Rasgum (Belém) e no Rec Beat (Recife) deste ano. Com Kassin e Miranda eu sou só ouvidos, eles sabem muito, um privilégio poder ouví-los.

EOnline: Do carimbó ao tecnobrega e também a maior proximidade com os ritmos caribenhos. Onde você reconhece o tempero da música paraense no trabalho de artistas de outros lugares?
F.C.:  Já disse o poeta Ruy Barata "Eu sou de um país que se chama Pará / que tem no caribe o seu porto de mar", de fato a relação histórica com o caribe formou muito do imaginário musical do Pará. Mas não só isso, também a influência dos migrantes nordestinos, principalmente do Maranhão e Ceará, meu avô foi um deles que foi bater lá para não ir pra guerra na década de 40. A influência do pensamento europeu no começo do século passado na capital Belém, o período da Belle Époque, período em que Belém foi economicamente rica com a extração da borracha, deixou marcas na arquitetura, música, gosto. É um estado multicultural.

Hoje, eu percebo que, sobretudo a linguagem das guitarradas do Pará, o carimbó, as referências estéticas do "brega pop" e tecnobrega, influenciam todo o país. Acabei de conhecer uma banda de jovens de Belo Horizonte, chamada Magalhães, que dizem que fazem "brea music", isto é, música quente, com clara influencia da música do Pará. Pra ficar em alguns nomes, Caetano Veloso, Céu, Vanessa da Mata, Do Amor, Arnaldo Antunes, Otto, Baiana System, Bixiga 70, Lucas Santtana, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz são artistas que em algum momento já flertaram com a sonoridade do Pará. Sem falar que o "Paralamas do Sucesso" já fazia isso também, lá atrás.

EOnline: "Kitsch pop cult" esteve entre os melhores discos de 2012. Problema Seu (que você pode escutar no final da entrevista), faixa do último disco “Se Apaixone Pela Loucura do Seu Amor", foi eleita a música do ano de 2013 pela revista Rolling Stone. Você acredita que esteja se consolidando como uma referência?
F.C.: Não saberia dizer, talvez eu nem deva saber mesmo. Mas eu faço música pra divertir, pra pensar, pra dançar e pra mexer com a história musical do país também.

EOnline: Alguns o classificam como "cult" outros como "brega". Você acha que esses rótulos têm algum peso para o público, e que podem ajudar ou atrapalhar?
FC: O público que vai aos meus shows, em geral, é um "público ativo", percebe com clareza que eu sou filho da superação entre "cult" e "kitsch" (prefiro esse termo, porque o termo "brega" é em geral mal compreendido quando o assunto é música), essa contradição me favorece, assim como creio que favorece toda a música do Brasil. No Brasil, falar em "tradição" me soa anacrônico, melhor entendermos nossa cultura e nossa música, como expressão legítima e potente da "contradição".

 

CDS
ÁLBUM - TETÊ ESPÍNDOLA


CD DUPLO
Selo Sesc SP
2014
Pássaros na Garganta: 37 min.
Asas do Etéreo: 43 min.

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o que

BR em Sampa

quando

de 16 a 24 de julho

onde

Sesc Consolação

 

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