Um girassol para José

23/11/2023

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Ilustração de Priscila Barbosa

Por Leandro Noronha da Fonseca

Do claro pano despontou uma agulha. A vida inteira naquela agulha. Solícita e resignada, coloria com seu deslizar suave algo que José não sabia explicar. Era pouco dizer que aquele instrumento, tão pequenino, dava cor apenas às toalhas floridas em ponto cruz ou às estampas simétricas em estilo vagonite. O vai e vem da agulha, a arrastar consigo uma linha amarela, igualmente coloria José. Mas não era de amarelo.

A casa de José era pura profusão de tecidos, tesouras, agulhas, alfinetes, lápis, linhas e fitas. Mas ele nunca se perdia, pois sabia de cabeça onde achar cada objeto. A vida inteira naqueles objetos. Também tinha uma overloque, quase parada, pouco usada: gostava mesmo era de costurar com as próprias mãos.

Aprendeu a arte das linhas com a mãe, pequeno e sempre filho único. Desde que José era José, havia na frente de sua casa a placa: Costura-se: consertos – ajustes – serviços de costura em geral – bordado – crochê – troca de zíper – barra sob medida. A mãe partiu e a placa ficou, marcada de sol e de chuva por tantos e tantos anos.

Naquele dia, José preparava um bordado. Era encomenda de uma conhecida do bairro, como eram todas as demais encomendas. Não havia quem não lhe pedisse um ajuste aqui, um ponto ali. Ganhava a vida costurando, criando peças, disfarçando buracos com remendos sofisticados e cultivando flores bordadas em tecidos variados – e muito, muito mais.

O deslizar suave da agulha e da linha coloria algo que José não entendia. Sim, coloria de amarelo o claro pano, formando no tecido os primeiros sinais de um girassol. José desenhava um girassol porque gostava de girassóis e porque lhe deram liberdade para isso. “Faz uma coisa bem bonita, confio em você”, lhe disse a conhecida do bairro, porta-voz da encomenda. Mas coloria também José de uma cor inexplicável, que não era transparência, tampouco opacidade, mas era apenas uma cor sem cor.

Pensando bem, talvez a cor sem cor já tivesse colorido José há mais tempo do que o deslizar suave da agulha e da linha. Antes mesmo de lhe solicitarem aquela encomenda, antes mesmo de pensar em girassóis, José tinha algo de inexplicável pulsando dentro de si, algo que, feito semente, queria romper as profundezas e tocar a superfície da vida.

O alarme tocou. Nuvens se dispersaram para dar lugar a um céu de brigadeiro na cabeça de José. Deixou de lado o claro pano, a agulha e sua linha amarela e o girassol em vias de iluminação. Desligou o alarme intermitente para dar espaço ao silêncio da casa. Olhou para o celular e constatou que era hora de tomar os remédios. Aqueles remédios em frasco branco, de etiqueta verde e branca, que lhe faziam companhia desde que José era José. A vida inteira naqueles frascos.

No início eram muitos. De tamanhos e cores distintas, os comprimidos fizeram companhia a José desde pequeno e sempre filho único. A mãe dizia que eram balinhas, mas José menino nunca acreditou. Apesar disso, não encarava os remédios com maus olhos. A convivência era pacífica. Cresceu com aquele mistério apaziguado até que ele se transformasse, anos mais tarde, em verdade. A mãe, pouco antes de partir por causa de um derrame, contou ao pé do ouvido do filho que ele havia nascido com vírus incurável. E que incurável não era sinônimo de rua sem saída. E que incurável não era a mesma coisa que sentença de morte. E que incurável não era, em nada, o fim dos sonhos.

O alarme tocou, José abriu os frascos e ingeriu dois comprimidos. Não era como era antigamente, pensou José a depositar o copo d’água sobre a mesa, antigamente quando eram tantos e tantos comprimidos. Havia ficado mais fácil, sim, tomar cada vez menos comprimidos. O que nunca foi fácil para José era contar sobre o vírus para as pessoas amadas. Aprendeu a viver com aquela condição com a leveza de uma pluma, mais pluma que suas mãos diante de um tecido. Mas alguns outros costumavam olhar José como uma rua sem saída, uma sentença de morte, um fim dos sonhos. E por isso adotou o silêncio e o embalou nos braços.

Mas daquela vez foi diferente. Com Marcinha, mil vezes Marcinha. Marcinha que morava no bairro, segurança de agência bancária e que às vezes fazia bico de vigilante na fábrica de sapatos. Marcinha que, em dias de folga e descanso, iluminava os botecos com seu sorriso e o seu balançar. Foi em um desses dias que José conheceu Marcinha. A contemplava entre um gole e outro de cerveja, percebendo nascer ali, em um algum cantinho escuro do peito, a paixão das paixões.

Marcinha não resistiu. Até porque José era homem bonito e que fazia coisas bonitas com as mãos. Ela, tão segura de si, tão vigilante de si, se deixou ser abraçada pelo Desconhecido. Ele, tão rigoroso com suas linhas, não se queixou dos nós embolados que se formavam ao redor do coração. Sempre que possível, encontravam-se naquele boteco para amar e serem amados. A distância entre as mesas ia diminuindo cada vez mais, até que dispensaram as cerimônias para se sentarem juntos como duas pessoas com sede de viver.

O silêncio que José embalava nos braços da alma implorava pelo rompimento, pelo rasgo. O sentimento crescia conforme crescia a relação entre ambos. Como se aquele sentimento nutrido por José fosse um girassol mais forte que o concreto, um sentimento vasto e que alargava a sua compreensão de tudo. Já não havia mais espaço para o silêncio e José decidiu contar.

Há meses o casal costurava aquela relação. Não se tratava de namoro ou casamento, mas uma relação. Nem mesmo eles sabiam que nome dar para aquilo tudo. O fato é que daquela vez foi diferente para José, que sentia sempre e sempre uma vontade doida de dizer à Marcinha sobre o vírus e seus comprimidos. Os encontros se tornaram frequentes, os beijos cada vez mais intensos, os corpos cada vez mais acesos. O silêncio foi rasgado: daquela vez foi diferente para José.

– Então, Marcinha, eu gosto muito de você e preciso contar que. Não, está tudo bem, sim. É que eu gosto muito de você. Acho que nunca senti algo assim por ninguém, antes de você. Antes de você, Marcinha, eu queria mesmo era me cobrir de silêncio, sabe? Mas o caso é que. Calma, Marcinha, deixa eu te dizer. Eu vivo com HIV. Eu nasci assim, na verdade. É mais antigo do que eu. Faço o tratamento, tudo certinho. Tem risco não. O único risco é a gente se gostar ainda mais. Não quero que você se assuste, Marcinha. Eu te amo e acho que você deveria saber disso. Não tenho obrigação com ninguém, obrigação eu tenho com você. Eu sou maior do que isso tudo. Nós somos.

Não foi como José queria que fosse. Nem tudo na vida é do jeito que a gente quer, é claro, mas José esperava algo diferente. Esperava que Marcinha abrisse um sorriso e os abraços e as pernas e a alma toda larga para abrigá-lo em sua inteireza. Contudo, Marcinha emudeceu por alguns segundos. Seus olhos desviados miravam algum ponto que José não sabia qual era. Tão longos os segundos que mais pareciam horas. Marcinha, então, disse que não sabia bem o que dizer, o que pensar. Que tudo aquilo era novidade. Não era bem novidade, até porque Marcinha tinha conhecimento da existência daquele vírus incurável. Mas era novidade, pois aquela informação havia rompido o silêncio, e deixando de ser silêncio tornara-se realidade concreta. A única coisa que Marcinha conseguiu fazer foi tomar o gole de cerveja que restava no copo, levantar-se da mesa e abraçar com braços frouxos o corpo de José. E foi-se Marcinha, dizendo que precisava pensar, que tinha dúvidas, que tinha medo e que o medo parecia, naquele momento, maior do que a paixão das paixões. Marcinha retirou-se para pensar, disse que voltaria, mas que não sabia quando. José ainda aguardava aquele retorno. Agora José entendia que aquela cor sem cor se chamava angústia.

O retorno que não chegava. A encomenda, o girassol rogando a sua finalização. José contemplava o tecido à sua frente como um pintor que não sabe muito bem o que fazer diante do seu quadro. José sempre soube das coisas, sempre soube para onde ir, mas naquele dia havia, em sua garganta, um nó mais apertado do que o que costumava dar nas linhas grossas. Aguardava o retorno inapreensível há pelo menos uma semana. Cadê você, Marcinha? E sua resposta? José precisava tanto dessa resposta. Corre pra perto dele, Marcinha. Deixe de ser boba, mulher!

Palmas no portão. Despertou José daqueles pensamentos incômodos e salpicados de dúvida. Olhou para o claro pano à sua frente, para o girassol desenhado pela metade, levantando-se de sobressalto. A conhecida do bairro talvez tivesse aparecido para reclamar da encomenda. Arrastando os chinelos até o portão de casa, José foi mirabolando mil e uma desculpas para o atraso na entrega do bordado.

Era Marcinha com um embrulho em mãos, banhada de sol e de vida daquela tarde como todas as outras tardes. Mais quente foi o sorriso de Marcinha. José pensou que havia desaprendido de andar, tamanha a dificuldade de chegar até o portão de casa. Marcinha lhe estendeu o embrulho, dizendo que precisava de alguns reparos na sua farda de vigilante. E junto com o embrulho veio também um abraço que demorou para ser desatado. Ficaram ambos ali, iluminados de calor e de silêncio. Um silêncio gostoso, aquele. Até que Marcinha olhou para José e disse que o amava, independentemente de qualquer coisa. A vida toda naquele sim. José viu o girassol pela metade fazer-se por completo, crescendo e crescendo em luz, em paixão das paixões, em cor com cor.


Leandro Noronha da Fonseca é jornalista, pesquisador e escritor. Doutorando em Estudos Literários pela Unesp de Araraquara. Mestre em Letras pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC/ECA/USP). Autor do livro “O verso do vírus: a poesia brasileira contemporânea e o HIV/aids”.


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