
Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra
Antes de pronunciar as primeiras palavras, a boca já experimentou o mundo. Sugou, mordeu, chorou, sorriu. Alimentou-se, desejou, recusou, beijou. É por ela que o corpo estabelece seus primeiros vínculos com o outro e é também por ela que, ao longo da vida, aprendemos a expressar afetos, identidades, conflitos e pertencimentos. Não por acaso, aquilo que parece apenas uma parte da anatomia revela-se um dos lugares mais complexos da experiência humana: um território onde biologia e cultura se encontram, onde prazer e linguagem se confundem e onde também se inscrevem normas, interditos e relações de poder.
Retomando o conceito de bucalidade, o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Botazzo mostra que a boca ultrapassa sua dimensão anatômica para tornar-se um território onde se entrelaçam alimentação, erotismo, linguagem e representação. A partir dessa perspectiva, a boca deixa de ser apenas objeto das ciências da saúde para revelar como os corpos são socialmente produzidos e como o desejo é construído desde os primeiros momentos da vida, quando sucção, fala, alimentação e afeto começam a desenhar o processo de humanização.
Rodrigo Moretti, professor titular do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), parte dessa reflexão para pensar as diversas camadas do desejo: o desejo que vira mercadoria, o desejo que desperta medo, o desejo que se converte em bandeira política, o desejo de vigiar o desejo alheio e o desejo, mais elementar de todos, de simplesmente existir. Ao analisar a mercantilização da diversidade, o autor retoma à boca e à sua dimensão política: “O sorriso é um ato social e um ato de desejo. Por isso importa perguntar quais sorrisos ganham as telas e quais permanecem escondidos, quais bocas beijam em público e quais beijam com medo”.
Neste Em Pauta, Botazzo e Moretti mostram que o desejo não é uma experiência exclusivamente individual. Ele nasce do encontro entre corpos e sociedade, manifesta-se tanto na intimidade quanto no espaço público e se torna objeto de disputa quando determinadas formas de existir são autorizadas, toleradas ou silenciadas. Ao aproximar uma reflexão conceitual sobre a bucalidade e uma análise das tensões em torno da diversidade e dos direitos humanos, os professores convidam leitores e leitoras a olhar para a boca não apenas como um órgão, mas como um território onde se articulam saúde, cultura, afetos e desejos.
A bucalidade em cena
Por Carlos Botazzo
Pensar a construção social do desejo remete a diferentes materialidades, boa parte delas relativas ao corpo. O que não pode ser considerado estranho, se pensarmos que o corpo — nosso corpo — é o suporte privilegiado para um conjunto incrivelmente amplo de ações sociais. Como diz Adauto Novaes, os sentimentos e as condutas humanas são coisas naturais e, no entanto, não raro é produzida a ilusão imagética “de que nossos desejos não são naturais, sendo estranhos ao nosso corpo e à nossa alma”. Podemos falar em construção, mas igualmente em produção, fabricação ou formação: corpo fabricado, corpo socialmente produzido. Basta lembrarmos a famosa frase de Simone de Beauvoir (1908-1986): não se nasce mulher, torna-se mulher!
Aqui, para mais bem compreender essa ideia de formação, vale utilizar uma pitada de sociologia. Em As regras do método sociológico, um dos pilares clássicos da sociologia funcionalista, Émile Durkheim (1858-1917) apresenta um conceito de pedagogia, aliás ainda hoje bastante utilizado no mundo ocidental. Para ele, as crianças devem ser, desde bem pequenas, submetidas à pressão da sociedade, isto é, aos ritmos, tempos e modos de ser (e fazer) do mundo dos adultos. Explicitamente, ele afirma que as crianças devem ser forçadas a comer, beber, dormir em horas regulares; constrangidas a terem hábitos higiênicos, a serem calmas e obedientes; a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências. Devemos forçá-las ao trabalho, dirá ele. Esse é o conceito político de educação do autor: um esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não chegariam espontaneamente. Uma pressão que a criança sofre permanentemente, uma pressão completa do meio social, que buscará moldá-la à sua imagem. Assim é concebida a formação de um novo ser social.
Existem outros modos de conduzir a criança no mundo dos adultos, não há dúvida, e muito certamente a pedagogia dos povos originários hoje nos mostra outras possibilidades. No entanto, no âmbito do positivismo repressivo do século 19, esse era o modo de construir sujeitos aptos à produção econômica e à guerra, aquilo que Michel Foucault (1926-1984) acertadamente denominou de produção de corpos dóceis, os corpos necessários ao capitalismo: formados, conformados, deformados. Esse seria o caminho da “super adaptação ao meio”, que Maria Rita Kehl vê como super adaptação às exigências da realidade que, neuroticamente (dirá ela), inibe a curiosidade, a capacidade de investigação e de insubordinação. Este é o caminho aplainado para o fascismo.
Bem, não é preciso dizer que bebês são seres não conformados! Ao contrário, são seres dotados de enorme instintividade, são pura biologia! Comem, dormem e choram quando algo não está bem (para eles). E fazem cocô e xixi quando e no momento que desejam fazer: durante o banho, após as mamadas, no momento da troca das fraldas… Vai demorar ainda algum tempo para que tenham outro comportamento, que aprendam a controlar os esfíncteres, por exemplo, e a deixar de babar! Têm o que se poderia chamar de bucalidade em estado puro: levam tudo à boca, como fazem todos os filhotes mammalia. Por enquanto, estamos entre arrotos, regurgitações e balbucios, e arriscamos os primeiros sorrisos. Lenta e inexoravelmente, o caminho da sua hominização está sendo percorrido. Esvaziar-se-á de seio e, todavia, não permanecerá vazia, pois em breve essa boca se encherá de dentes e de palavras, como certa vez apontou Teresa Pinheiro. O desmame e a dentição, a fala, a marcha, o controle dos esfíncteres são como eventos articulados e mais ou menos em sequência, apontando o nítido caminho antes mostrado por Arminda Aberastury (1910–1972): eis a criança se deslocando do solo de sua primeira eroticidade. Aqui está. Se vamos na direção de compreender o nascimento da boca humana, o seu processo de formação é a ideia da sua produção social que se instaura de imediato. É uma ideia de cultura que vem articulada e subjacente a essa produção. Por isso, foi possível dizer ainda mais: A boca é um território, um lugar, um espaço. São vísceras que delimitam essa existência e estas é que são os órgãos desse lugar. São dentes, músculos, mucosas, glândulas, freios, dutos e espículas, que uma embriologia caprichosa cuida em dispor como convém. Se há uma função é porque tudo isto entra em movimento de modo mais ou menos simultâneo, ou mais ou menos em conjunto.
É assim deste modo que a função bucal se expressa por meio dos trabalhos que a boca realiza. A manducação, a erótica, a linguagem. Comer: a função digestiva começa aqui, esta é a parte superior do aparelho digestivo. Manducação: este o nome do movimento que a boca realiza — apreende, tritura, insaliva, deglute. Chupar: ato de sugar alguma coisa. Mammalia, todos vão dizer. É, posso repetir, mamália: a sucção bucal é definidora deste gênero. Víscera com víscera; mucosa com mucosa; saliva com saliva: bocas entrevorazes na manducação do mesmo e do outro. Chupar: sugar, sorver, extrair com a boca o suco de. A gramática nos revela outro tipo de gozo, outro trabalho bucal, outra forma de coordenação entre órgãos, os mesmos que antes. E não poderiam essas funções ser movidas pelo desejo, de sorte que o trabalho do lugar tanto pode gerar prazer quanto ser infértil, o trabalho de sugar sem que lá de dentro saia alguma coisa, a vontade de mastigar sem que haja o quê, as frustrações, as faltas, as carências que então se estabelecem, o desgaste do lugar pelos diferentes trabalhos que realiza, o investimento continuado como condição de possibilidade, condição de existência, propriamente? Não podendo a boca gozar o tempo todo, viria por acaso a adoecer disto?”
Vê-se que esses órgãos — essa boca múltipla, complexa, interseccional — são todos lugares de desejo, lugares socialmente construídos. E se a boca aparece em destaque na face humana, um ícone dela mesma, mesmo com tudo isso ela ainda se mantém em recato. Não gostamos de falar dessas coisas abertamente, nós nos mantemos sempre em recuo, “posto também aparecer, de modo mais ou menos evidente, uma má vontade, um não-à-vontade, melhor dizendo, que se instala entre as pessoas quando se trata dos discursos acerca da cavidade bucal(…).A boca é depositária de um oculto sobre o qual convém pôr-se com alguma discrição.
E, finalmente, o trabalho da representação: o desejo do Outro é sua manducação incompleta, a voracidade da boca extenuando-se pela sucção, obtendo por este ato apenas parte do corpo do outro, apenas os líquidos que podem sair dele. Primeira autonomia de uma boca que se imagina genitália, o sexo dela mesma. Representar: o desejo há de se dar como linguagem, a vontade e o prazer podem agora ser falados: Perde-se nas brumas do tempo o momento em que a boca humana aprendeu a falar, e não deixa de ser estranho que ela o tenha feito — e ainda o faça — pelas suas vísceras. É assim que a anatomia classifica os órgãos bucais, esses mesmos aos quais a ciência da fala atribui a existência da língua dos homens.
Carlos Botazzo é professor associado sênior do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Tem graduação em Odontologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp); especialização em Saúde Pública (Medicina Santa Casa de São Paulo); Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade de Campinas (Unicamp); Livre-Docente pela USP em Teoria Social/Ciências Sociais em Saúde. Autor de uma centena de artigos científicos e ensaios, dez livros publicados, entre os quais Salud Bucal Colectiva y Bucalidad. Ensayos (Remédios de la Escalada: De La UNLA, Lanús, Ar, 2025).
A boca é depositária de um oculto sobre o qual convém pôr-se com alguma discrição
O sorriso das minorias
Por Rodrigo Moretti
Uma travesti sorri em uma propaganda de banco. Um casal de homens brinda em um comercial de cerveja. Uma mulher negra e lésbica estampa a capa de uma revista de circulação nacional. As imagens se multiplicam a cada junho [quando é celebrado o Mês do Orgulho LGBTQIA+] e provocam uma pergunta incômoda. Esses sorrisos anunciam um avanço enquanto exercício dos direitos humanos ou apenas a descoberta de um novo mercado? E a pergunta importa porque o desejo se apresenta em camadas. Proponho percorrer algumas dessas nuances, o desejo que vira mercadoria, o desejo que desperta medo, o desejo que se converte em bandeira política, o desejo de vigiar o desejo alheio e o desejo, mais elementar de todos, de simplesmente existir.
Comecemos pela primeira nuance, o desejo transformado em mercadoria. O chamado pink money revelou às corporações que a diversidade vende. O sorriso que aparece na campanha foi testado, medido e aprovado por departamentos de marketing. Ele costuma pertencer a corpos palatáveis, jovens, magros, brancos ou embranquecidos, ajustados à norma o bastante para vender sem assustar. Marcas globais tingem o logotipo com as cores do arco-íris em São Paulo e o mantêm discretamente cinza em mercados onde a homossexualidade é crime. Há avanço real nessa visibilidade. Uma adolescente lésbica no interior do Piauí que se vê em uma propaganda encontra ali um espelho que gerações inteiras jamais tiveram. A visibilidade, porém, tem data de validade e critérios de seleção. Terminado junho, os logotipos voltam ao cinza. A questão é o preço do espelho. O direito de aparecer, concedido pelo mercado a alguns corpos em algumas datas, vem sendo confundido com o direito de existir, que pertence a todos os corpos em todos os dias.
Convém observar ainda quem fica fora do enquadramento. A vitrine raramente exibe a travesti de cinquenta anos, o homem gay gordo do interior, o corpo com deficiência que também deseja e quer ser desejado. O desejo admitido em cena tem roteiro, figurino e limite de idade. Produz-se assim uma segunda exclusão, silenciosa e sofisticada, dentro da própria política de visibilidade.
A segunda nuance é o desejo alheio vivido como ameaça. Setores reacionários transformaram esses sorrisos em obsessão, alimentando ondas de pânico moral que tratam cada aparição pública de pessoas LGBTI+ como propaganda, cada casal de mãos dadas como doutrinação, cada existência visível como perigo à família e à nação. O paradoxo merece registro. O mesmo sorriso funciona como mercadoria para o mercado e como prova de conspiração para o moralismo. Enquanto isso, os relatórios da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) seguem posicionando o Brasil entre os países que mais assassinam pessoas trans no mundo. A indignação que se mobiliza contra uma propaganda permanece em silêncio diante desses números. O pânico é seletivo, e sua seletividade revela o que está em disputa, o controle sobre quem pode viver plenamente.
Dessa obsessão nasce a nuance propriamente política. O desejo dissidente ocupa lugar permanente na agenda do conservadorismo autoritário, que dele extrai inimigos, votos e engajamento. O mesmo desejo, contudo, opera como ponto de reunião de quem resiste. Foi do levante de corpos indesejados que nasceram as Paradas, e é em torno do afeto compartilhado que se organizam coletivos, casas de acolhida, redes de cuidado e candidaturas. Perseguido, o desejo se politiza. Cada beijo em praça pública, cada nome social respeitado, cada família formada fora do roteiro converte a intimidade em ato político. As pessoas LGBTI+ aprenderam, à força, que a própria existência está em disputa, e cunharam para isso uma grafia precisa, (r)existir, resistir existindo e existir resistindo.
A nuance seguinte é a mais desconfortável, o desejo de vigiar e punir. Michel Foucault (1926-1984), em Vigiar e punir (1987), descreveu sociedades disciplinares que corrigem os corpos desviantes pela vigilância permanente, e a torre central que tudo vê ganhou, em nosso tempo, versão de bolso. Cabe então a pergunta central. As redes sociais produzem essa vigilância ou fazem tanto sucesso justamente porque o ser humano contemporâneo encontra prazer em vigiar e punir quem destoa dos padrões instituídos? Padrões, convém lembrar, definidos por grupos que sequer abarcam todas as possibilidades de ser no mundo de hoje. As plataformas lucram com a indignação, os algoritmos premiam o linchamento e cada usuário vira fiscal voluntário da vida alheia. A tecnologia ofereceu a ferramenta. O apetite parece anterior a ela. Reconhecer que a vigilância do outro é também uma forma de desejo talvez seja a constatação mais incômoda que as redes nos devolvem sobre nós mesmos.
Há ainda a nuance territorial, pois o desejo é negociado com a geografia. O que significa ser LGBTI+ na capital paulista, onde a maior parada do mundo ocupa a Paulista, enquanto travestis seguem sendo assassinadas nas periferias da mesma cidade? O que significa em Florianópolis, ilha que abriga cenas de sociabilidade dissidente e, simultaneamente, elege discursos que as condenam? E nos interiores do país, onde os aplicativos de encontro exibem perfis sem rosto e o desejo se vive no anonimato? Em um lugar o desejo dissidente é nicho de consumo, em outro é segredo, em outro é risco de morte. Nas capitais nordestinas, cenas dissidentes florescem há décadas em convivência tensa com o moralismo local, e nas cidades amazônicas a distância amplia tanto a liberdade do anonimato quanto o desamparo diante da violência. Trata-se do mesmo país e de regimes distintos de desejar.
A boca condensa todas essas camadas. Carlos Botazzo, ao formular o conceito de bucalidade, lembrou que ela ultrapassa os dentes e os procedimentos, pois é órgão de fala, de prazer e de vínculo. O sorriso é um ato social e um ato de desejo. Por isso importa perguntar quais sorrisos ganham as telas e quais permanecem escondidos, quais bocas beijam em público e quais beijam com medo. O desejo encontra na boca seu território mais cotidiano e, por isso mesmo, mais disputado.
Resta a nuance fundamental, o desejo de existir plenamente. Ele ultrapassa a prateleira do mercado e o pesadelo do moralista. Inclui o direito de ser complexo, contraditório e indócil, de envelhecer, de ter dentes imperfeitos, de amar sem servir de propaganda e de viver sem pedir licença. Enquanto a vida do outro seguir sendo tratada como assunto público, permanecerá atual a pergunta que este texto deixa ao leitor. O que a sua indignação vigia, e a quem ela serve?
Rodrigo Moretti é professor titular do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cirurgião-dentista e sociólogo, dedica-se à saúde coletiva, às ciências sociais em saúde, à pesquisa qualitativa e à educação em saúde, com ênfase nas iniquidades que atingem a população LGBTI+. Coordena o braço sociológico do projeto “TransBucal Brasil”, pesquisa multicêntrica nacional sobre a saúde bucal de pessoas transgênero no Sistema Único de Saúde. Desenvolve seu trabalho em articulação permanente com coletivos e movimentos sociais LGBTI+.
[O desejo de existir plenamente] inclui o direito de ser complexo, contraditório e indócil, de envelhecer, de ter dentes imperfeitos, de amar sem servir de propaganda e de viver sem pedir licença.
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