Futebol, vida e guerra

28/08/2026

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POR LUIZ ANTONIO SIMAS
ILUSTRAÇÕES GABRIEL DIOGO

Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra

Ando meio desiludido com o futebol moderno. A lista do que anda me deixando injuriado é vasta. O menino de quinze anos pertence ao empresário e já é chamado pelo nome e sobrenome, pensando no que será mais adequado ao mercado europeu. O apelido nos campos está morrendo: saem Pelé, Garrincha e Zico e entram Wellington Soares, Jeferson Oliveira e Paulo César Alencar. Os celulares tomaram conta das arquibancadas e virou moda o espectador ficar mais preocupado em postar em tempo real não o desempenho do time, mas o dele mesmo, no estádio. 

Por falar em estádios, eles viraram arenas multiusos e alguns passaram a ter, inclusive, camarotes com ambientes instagramáveis propícios a networking (escutei essa expressão bizarra recentemente e me senti uma espécie de múmia de 5 mil anos).

A venda de camisas do Real Madrid supera as camisas de clubes brasileiros. O comentarista insiste em chamar o passe de assistência, o jogador reserva de ‘peça de reposição’ e o craque de ‘atleta diferenciado’. Os canais esportivos, com raras exceções, apostam na idiotização do espectador e transformam as resenhas em programas de humor repletos de piadas do nível das contadas em filmes norte-americanos sobre adolescentes fazendo bobagens em festas de formatura.

Tem mais. As redes de televisão compram os campeonatos e enfiam os jogos em horários quase clandestinos, na calada da noite, incompatíveis com a esmagadora maioria dos trabalhadores que têm, ou tinham, no futebol um raro refresco para abrandar a dureza do dia. As bets patrocinam times e campeonatos e as apostas viraram casos de saúde pública.

Os torcedores passam a ser prioritariamente vistos como, conforme escutei dia desses, consumidores do ‘produto futebol’. Organizações criminosas se infiltram em algumas torcidas organizadas e o ódio pelo torcedor do outro time é digno de transformar os homens pré-históricos da Serra da Capivara em lordes britânicos de cinema. Bandeiras são proibidas, a torcida única parece ser o destino inevitável e o jogo de futebol como um evento da cultura é esmagado pelo jogo de futebol como um espetáculo da cultura do evento: elitizado, higienizado, domesticado, desencantado, ferido de morte pelos donos do negócio. 

O futebol sempre teve, para mim, outros sentidos. Recorro ao escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus, que fora goleiro do Racing de Argel na adolescência. Ele afirmou certa feita que devia ao futebol tudo que sabia sobre moralidade e as obrigações do homem. Para Camus, o sentido da vida, diante do absurdo da existência, não era dado pela mente e seus exercícios lógicos, mas por aquilo que vivenciamos intensamente com nossas entranhas, como o amor pelo futebol. Já o técnico do Liverpool nos anos 1960 e 70, Bill Shankly, foi o autor de uma frase sobre o futebol que gosto de repetir como uma espécie de mantra: O futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito mais do que isso. 

Depois de iniciar esse arrazoado esculhambando o futebol moderno, vou me valer da máxima de Shankly e o diagnóstico de Camus para levar esse texto para o meu campo de atuação: a História. As sentenças do escritor e do técnico são perfeitas para descrever um episódio que ocorreu em 1969, nas eliminatórias para a Copa do Mundo do México, disputada no ano seguinte. Na ocasião, Honduras e El Salvador, países limítrofes que não se bicavam, foram disputar em um confronto direto com jogos de ida e volta uma vaga para o torneio mundial de 1970.

No primeiro jogo, em Tegucigalpa, Honduras fez valer o fator campo e ganhou pelo escore mínimo: 1 × 0. No jogo da volta, El Salvador devolveu o resultado com juros e correção monetária e sapecou um 3 × 0 contundente no adversário; o que gerou a necessidade e um jogo decisivo, disputado em campo neutro, na Cidade do México. Após uma peleja não recomendada para pacientes cardíacos, El Salvador venceu por 3 × 2.

Com acusações de ambos os lados, suspeitas sobre a arbitragem, denúncias de suborno, ameaças de suicídios em praça pública e cenas de pugilato no campo e nas arquibancadas, aconteceu o inusitado: o governo de Honduras achou por bem responder à derrota nos gramados expulsando milhares de imigrantes salvadorenhos de seu território.

O governo de El Salvador, estimulado pela classificação para o Mundial, respondeu ao siricotico hondurenho na bucha e mandou o exército invadir o território inimigo. Começava, no dia 14 de junho de 1969, a Guerra do Futebol; uma senhora pancadaria capaz de fazer as guerras napoleônicas terem a dramaticidade de um piquenique na Quinta da Boa Vista ou de um passeio de pedalinho em Paquetá. 

O confronto durou seis dias, vitimou cerca de 5.000 pessoas, fez o trio de arbitragem do jogo final pedir proteção a organismos internacionais, mobilizou a ONU, a OEA e a Cruz Vermelha, gerou milhares de refugiados e só terminou com um cessar-fogo negociado e a criação de uma zona desmilitarizada na fronteira – onde jogos de futebol foram terminantemente proibidos. Não podia ter nem linha de passe, paredão ou altinha.

O governo salvadorenho comparou o conflito, por sua dimensão histórica e importância geopolítica, à Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, que mudou as fronteiras da Europa e a história do Ocidente. A pancadaria contra Honduras ficou conhecida, inclusive, como a Guerra das Cem Horas.

Depois dessa zorra toda, El Salvador foi disputar o torneio no México. A torcida, estimulada pela épica classificação, sonhava, pelo menos, com um terceiro lugar. Os jogadores, saudados como heróis de guerra, receberam condecorações, desfilaram em carro aberto e o escambau. Enquanto isso, em Honduras, rituais pré-colombianos, que incluíam preces diárias ao sol e outras mumunhas, clamavam pela desgraça do selecionado rival na copa.

A mandinga hondurenha funcionou.

A campanha da seleção salvadorenha no certame foi uma das piores de um selecionado na história das Copas do Mundo: perdeu da Bélgica (3 × 0), do México (4 × 0) e da URSS (2 × 0). Com o pior desempenho do Mundial, sem marcar um mísero gol, o esquadrão centro-americano não passou da primeira fase e voltou mais cedo para a casa. O time de ex-heróis, o futebol é pródigo em produzi-los, foi devidamente recebido por torcedores indignados com uma chuva de hortifrutigranjeiros no aeroporto.

Luiz Antonio Simas é carioca, filho e neto de pernambucanos e alagoanas. Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor, tem mais de trinta livros publicados sobre culturas de rua do Brasil, como Coisas nossas (José Olympio, 2017), O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2019) e Sonetos de birosca e poemas de terreiro (José Olympio, 2022). Venceu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria Livro do Ano de Não Ficção, em 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Também é curador de exposições e compositor, e mantém projetos populares de aulas públicas em ruas, praças, botequins, coretos, quadras de escolas de samba e terreiros.

Gabriel Diogo é um designer que se encontrou na ilustração. Nascido e criado na zona Leste de São Paulo, é formado em Design Gráfico e Digital pelo Istituto Europeo di Design (IED-SP) e vive desde criança fazendo arte. Com diversos trabalhos na publicidade, utiliza suas próprias memórias para desenvolver um estilo pautado na brasilidade. Apaixonado por cores e texturas, utiliza o desenho para se conectar com o seu lado mais fantasioso e introspectivo, tentando influenciar as pessoas por meio da arte.

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