
No centenário de seu nascimento, Milton Santos segue como referência intelectual que revolucionou a Geografia, unindo diversas áreas do conhecimento para pensar a sociedade (foto: Oswaldo José dos Santos)
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR MARINA VAZ
Em um pedaço de papel, o geógrafo Milton Santos (1926-2001) escrevia, com caneta-tinteiro, uma frase. Depois outra; e outra. Quando julgava ter ideias suficientes para um texto, tratava de unir os fragmentos com fita adesiva, grampos, clipes e até alfinetes. Esse copia-e-cola analógico era feito, muitas vezes, deitado. “No dia a dia, podíamos ter alfinetes pela cama; era uma vida muito perigosa”, diverte-se Marie-Hélène Tiercelin dos Santos, sua companheira por três décadas. Com uma obra que inclui mais de 40 livros em diferentes idiomas, o intelectual baiano revolucionou a Geografia no Brasil e no mundo.
Outro hábito mantido por Santos – cujo centenário de nascimento é celebrado este ano – era catalogar suas “futuras leituras” em pequenas fichas, contendo título, autor e tema, e guardá-las em caixas de acrílico ou madeira, como um “mini acervo transportável”, nas palavras de Marie-Hélène. Tais caixinhas foram doadas ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e integram, hoje, o Fundo Milton Santos. “Conhecimento não é só o que eu já li, o que já vivi, é também o que eu sei que é bom e que preciso conhecer”, disse Santos, nos anos 1980, a um de seus alunos, Jaime Tadeu Oliva, hoje professor e geógrafo do IEB.
O acervo inclui livros, documentos, manuscritos, fotos e recortes de jornal. Para Oliva, os itens revelam como Santos tinha um “projeto intelectual” bem definido, de “pensar o mundo social a partir de sua dimensão espacial”. “Para ele, a Geografia precisa ser uma disciplina que compreende o espaço não apenas como uma estrutura física inerte. O modo como esse espaço foi produzido passa a participar de nossas relações sociais. Milton faz uma crítica poderosa da Geografia existente; é um renovador da área e, depois, influencia outros campos dos saberes”, afirma Oliva, que cogitava abandonar a faculdade, até assistir a uma palestra dele. A Geografia proposta por Milton Santos – esta, sim – lhe interessava.
Bases consolidadas
Nascido no dia 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, Milton Almeida dos Santos foi alfabetizado em casa pelos pais, Adalgisa e Francisco, professores primários que ainda lhe ensinaram francês. Aos 10 anos, mudou-se para um colégio interno de Salvador, onde já demonstrava interesse pela Geografia. Foi na capital baiana, em 1948, que se formou em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Em 1956, assumiu como docente de Geografia Humana na Universidade Católica de Salvador, e ali permaneceu até 1960, quando passou a lecionar na UFBA. Nesse meio-tempo fez doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França, com tese intitulada O Centro da cidade do Salvador – até hoje, um de seus textos mais lidos. A vida acadêmica era conciliada, até então, com outros cargos, como redator do jornal A Tarde (1954-1964), diretor da Imprensa Oficial da Bahia (1959-1961) e presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia (1962-1964).
Por conta de suas ideias e sua atuação na esfera pública, Santos foi preso pela ditadura logo após o Golpe de 1964. Depois de três meses detido, sofreu uma grave isquemia cerebral, que resultou em paralisia facial. Os militares, temendo a repercussão que sua morte poderia gerar, o liberaram para tratamento médico e prisão domiciliar. Com ajuda diplomática do consulado francês, o geógrafo conseguiu viabilizar seu autoexílio, que duraria cerca de 13 anos.

Professor do mundo
Ao chegar à França, Milton Santos atuou, por alguns anos, como professor da Universidade de Toulouse. Depois, transferiu-se para a Universidade de Bordeaux, onde, no efervescente ano de 1968, conheceu uma estudante de Geografia chamada Marie-Hélène. Sua figura chamou a atenção da jovem francesa para aquele professor “vindo de outro mundo, com ideias novas”, ela bem lembra. “A Geografia de Bordeaux era muito tradicional, ligada ao antigo colonialismo. Você estudava África com a cabeça de estudar um mundo subdesenvolvido. E ele trouxe essa maneira absolutamente nova de dizer que a economia dita informal não é um atraso na economia, ela é essencial para as cidades funcionarem”, afirma Marie-Hélène Tiercelin dos Santos, fazendo referência a conceitos que culminariam em O espaço dividido (1975).
No fim dos anos 1960, Milton Santos também conheceu uma futura parceira profissional e amiga, Maria Adélia de Souza. O primeiro contato foi num café parisiense próximo à Universidade Sorbonne. Não foi bem um contato; foi mais um tropeço. Atrasada para uma reunião com seu orientador de mestrado, Celso Furtado (1920-2004), entrou correndo, desequilibrou-se e caiu, espalhando apostilas pelo chão. “Percebi uma mão me ajudando e, quando olho, era Milton Santos. Ele começou a falar francês e eu, atrapalhada, disse ‘pode falar em português que eu sei quem você é’. Celso e Milton me chamaram para sentar e fiquei lá, por duas horas, assistindo a uma das mais importantes conversas que já ouvi, sobre o Brasil, o Golpe Militar e o futuro do país”, relembra Maria Adélia. Em Paris, Santos lecionou, até 1971, no Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (IEDES) e na própria Sorbonne.
Após a temporada francesa, o intelectual iniciou uma itinerância por universidades do mundo, com contratos que duravam, em geral, um ano letivo. O primeiro convite que aceitou foi no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Depois, foi lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá, e, então, seguiu para instituições no Peru, na Venezuela e na Tanzânia. A cada mudança, ele e a esposa transportavam, em baús metálicos, seus pertences essenciais – um ou outro objeto doméstico, livros e muitos, muitos manuscritos. Isso porque, após deixar muita coisa para trás no Brasil, Santos criou o hábito de fazer várias cópias para cada texto que escrevia.
A última parada foi na Universidade de Columbia, em Nova York. Durante essa segunda estadia nos Estados Unidos, Santos recebeu um convite para trabalhar na Nigéria, mas a vida nômade já não animava tanto o casal. “Naquela época, era cada vez mais difícil para ele ficar longe do Brasil. Quando estávamos na Tanzânia, ele tinha tido a oportunidade de dar um pulo aqui [como professor convidado da Unicamp, em 1975]. Teve muito medo, não sabia o que poderia acontecer, mas deu tudo certo. Depois disso, ficou com essa ideia de voltar”, conta Marie-Hélène.

O professor Milton Santos se dedicou, por opção e por sensibilidade, a revolucionar nossa disciplina, teórica e metodologicamente; virou uma obsessão. Sua obra é rigorosamente científica e libertária.
Maria Adélia de Souza, amiga e parceira profissional de Milton Santos
(foto: Jorge Maruta)
Trajetória (inter)nacional
A vontade de retornar ao Brasil foi impulsionada por uma notícia: Marie-Hélène estava grávida. Em meados de 1977, já no oitavo mês de gravidez, eles desembarcaram em Salvador, para o filho Rafael poder nascer “brasileiro e baiano”, como era desejo dos dois. Por ser professor concursado pela UFBA, Santos achou que seria reintegrado à universidade, o que não aconteceu. “Ele voltou do exílio, mas o exílio dele permaneceu, de certa maneira, por aqui”, pondera Jaime Tadeu Oliva, do IEB-USP.
Um dos apoios fundamentais nesse momento foi o de Maria Adélia de Souza, que havia conhecido em Paris. Sabendo das dificuldades do geógrafo em se reinserir no circuito acadêmico brasileiro, ela articulou sua vinda para São Paulo e, com o apoio do arquiteto Carlos Lemos, passou a se revezar com Milton Santos nas aulas de uma disciplina da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde ela já lecionava. Assim, ele passou os primeiros anos de seu retorno como professor convidado na FAU-USP e, também, como professor visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Até que, em 1983, Santos soube por Maria Adélia que haveria um concurso para professor de Geografia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP). Ele foi aprovado e ela, transferida da FAU-USP para lá. No dia da posse, os dois subiram, de braços dados, as rampas do prédio, consolidando uma parceria que manteriam em diversas frentes – como, por exemplo, no Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial. “Eu tinha um conhecimento técnico, de fazer planos estratégicos para governos; e ele, um trabalho genial e importantíssimo na universidade. Então, trocávamos muita informação, porque a Geografia é prima-irmã da política. Foi isso que nos permitiu um diálogo científico e intelectual”, diz ela. “O professor Milton Santos se dedicou, por opção e por sensibilidade, a revolucionar nossa disciplina, teórica e metodologicamente; virou uma obsessão. Sua obra é rigorosamente científica e libertária”, define Maria Adélia, que, até hoje, desdobra os conceitos miltonianos em seus livros e pesquisas.
No início dos anos 1980, Milton Santos também conheceu o geógrafo francês Jacques Lévy, que se tornaria um de seus principais interlocutores europeus. “Minha primeira impressão foi sua determinação em pensar o mundo, não em descrevê-lo, nem apenas compreendê-lo e explicá-lo. Pensar, ou seja, conseguir organizar as diferenças em um todo e representar a complexidade de maneira simples”, diz ele. “Milton faz parte de um grupo – na minha opinião, muito restrito – de geógrafos que se distinguem por duas características: a consciência de que a teoria, ambiciosa e rigorosa, é absolutamente necessária; e a determinação de ultrapassar as fronteiras disciplinares para inserir o pensamento do espaço humano em uma abordagem comum a todas as ciências do mundo social”, analisa Lévy.
Milton Santos foi homenageado com 20 títulos honoris causa, concedidos por universidades do Brasil e do mundo, entre 1980 e 2000 – período em que publicou diversos livros que pavimentaram o caminho para sua importante obra A natureza do espaço (1996). Em 1994, tornou-se o primeiro e único latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud, a maior honraria da geografia mundial (curiosamente, Jacques Lévy receberia o mesmo prêmio em 2018). A medalha de ouro que acompanhou o Vautrin Lud foi um dos pouquíssimos itens que sua viúva preferiu manter em família, sem doar para o acervo do IEB-USP.

Um intelectual pop
Rosto estampado em grafites e ímãs de geladeira. Trechos de livros compartilhados nas redes. Um nome que homenageia praça, assentamento de terra e até time de futebol. Além de todo o reconhecimento acadêmico, Milton Santos se tornou um ícone popular. “Depois do falecimento dele, essa figura de intelectual negro foi importante para a difusão das ideias. Os jovens da periferia se apropriaram de algumas frases de impacto e isso circulou muito. Ele falava muito dessa aceleração da história, dessa tecnologia que iria permitir que as periferias se expressassem de maneira independente”, observa Marie-Hélène.
“Milton é um nordestino, é um preto; ele informa para outras pessoas em condições parecidas que, se ele conseguiu, qualquer um consegue”, afirma o geógrafo e ativista social Billy Malachias. Ele próprio sentiu essa representatividade ao cruzar, pela primeira vez, com o professor. “Sempre elegante e com um terno claro”, Santos abriu seu “sorriso largo” para Malachias, negro como ele. “Pareceu um sorriso de cumplicidade, um gesto acolhedor.” Nas aulas, Santos levava textos inéditos para debater com os alunos – e a turma de Malachias escutou, em primeira mão, muito do que apareceria em Por uma outra globalização (2000).
O livro ganhou edição recente com prefácio assinado pelo escritor baiano Itamar Vieira Junior. Formado em Geografia pela UFBA, ele foi o primeiro estudante beneficiado pela Bolsa Milton Santos, criada pela família do intelectual para apoiar pesquisas acadêmicas. “A minha história e a do Milton se atravessam de muitas maneiras. E o encontro com a poderosa obra dele moldou minha maneira de pensar, de ver o mundo, e foi importante para aquilo que viria a aparecer na minha literatura”, afirma o autor de Torto arado (Todavia, 2019), fenômeno editorial sobre a vida de uma família de trabalhadores rurais no sertão baiano.
“Milton Santos vivia olhando para o futuro e conseguia descrever o futuro como ninguém. Ele falava de um ‘período popular da história’ em que aquele que parecia historicamente mais fraco iria ditar os rumos do mundo. Isso não acontece de maneira homogênea, mas o Movimento dos Sem Terra é uma face disso que ele viu; os movimentos sociais espalhados por muitos lugares do mundo também refletem isso”, observa Vieira Junior.
Reverberações desse “período popular da história” também foram vistas, na opinião de Billy Malachias, durante a pandemia, quando coletivos periféricos se organizaram, via celular, para mapear enfermos e organizar doações. “Essa apropriação pelos movimentos sociais comprova, em certa medida, o que Milton estava dizendo. Porque, para ele, o ‘período popular’ é quando a dimensão demográfica ressignificaria o uso hegemônico das novas tecnologias. Neste caso, essa ressignificação teve um caráter solidário, que não é o vertical, que não é o hegemônico, mas é o horizontal, é o da cooperação.”
Milton Santos morreu no dia 24 de junho de 2001, em decorrência de um câncer de próstata. Viveu praticamente toda a sua vida no século 20. Mas seu pensamento e sua obra já tinham chegado ao século 21 bem antes disso.
A minha história e a do Milton se atravessam de muitas maneiras. E o encontro com a poderosa obra dele moldou minha maneira de pensar, de ver o mundo, e foi importante para aquilo que viria a aparecer na minha literatura.
Itamar Vieira Junior, escritor
A EDIÇÃO DE AGOSTO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!
Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).
Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube
A seguir, leia a edição de AGOSTO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.