
Aos 90 anos, Ignácio de Loyola Brandão acaba de escrever Risco de queda, livro que trata de velhice, amor e lutas
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR MATHEUS LOPES QUIRINO
FOTOS NILTON FUKUDA
O escritor Ignácio de Loyola Brandão não tem se dedicado ultimamente às longas caminhadas pelo bairro por conta de um certo Risco de queda. Esse é o título provisório do seu livro mais recente, cuja escrita havia terminado poucos dias antes desta entrevista, em abril. Trata-se de uma autoficção que toca em temas profundos como a velhice, o amor e as lutas que Loyola encampou ao longo da vida. “Uma coisa que eu aprendi é que eu ainda tenho muito que lutar. A todo momento”, define o autor, que completou 90 anos em 31 de julho.
Nascido em Araraquara em 1936, Loyola escolheu para si uma narrativa de vida diferente da de seu avô, pai e tios, que construíram a trajetória profissional na ferrovia da cidade do interior paulista. Aos 16 anos de idade, começou a escrever para a imprensa local e, em meados da década de 1950, mudou-se para São Paulo e foi trabalhar no jornal Última Hora, de Samuel Wainer (1910-1980). “Foi com ele que eu aprendi a fazer jornalismo. Graças à minha profissão, pude conhecer o Brasil e o mundo, lugares que eu nunca imaginei pisar, gente que sonhava conhecer”, entusiasma-se.
Ao longo de mais de 70 anos de carreira, colaborou com os principais veículos brasileiros. Foi editor das revistas Planeta, Claudia e Vogue e é colunista do jornal O Estado de S. Paulo, no qual escreve crônicas há mais de 30 anos. Em paralelo ao ofício jornalístico, Loyola construiu uma sólida carreira literária. Lançou mais de 50 livros e trafegou por diversos gêneros – conto, crônica, romance, memórias, não ficção, entre outros –, sempre buscando inovar na forma de contar uma história.
Seu percurso literário é marcado pela experimentação formal e pelo olhar crítico sobre a sociedade brasileira. Em obras como Bebel que a cidade comeu (1968), ele rompeu com estruturas narrativas tradicionais ao mesclar fragmentos, colagens e notícias de jornal. Essa inquietação ganhou contornos políticos em Zero (1974), publicado primeiro na Itália, devido à censura da ditadura militar, transformando em ficção a violência e o autoritarismo do período. Ao longo da carreira, acumulou sucessos como Não verás país nenhum (1981) — seu livro mais conhecido, com mais de um milhão de exemplares vendidos —, conquistou cinco Prêmios Jabuti, transitou pela literatura infantojuvenil e recebeu, em 2016, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Em 2019, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, consolidando o reconhecimento de crítica e público.
Loyola mantém uma rotina intensa, participando de eventos literários e preservando a curiosidade de quem observa atentamente o mundo ao redor. Em sua casa, memórias de viagens convivem com cadernetas de anotações e uma coleção singular de folhas secas emolduradas, cada uma associada a um recorte com textos. Testemunha das transformações de São Paulo desde os tempos dos bondes na Consolação, ele lamenta a descaracterização da cidade pela especulação imobiliária e o desaparecimento de referências humanas e afetivas dos bairros. Nesta Entrevista, o autor relembra sua trajetória, fala sobre inspirações e a vontade de seguir escrevendo.
Há quanto tempo o senhor escreve ficção?
Eu tinha sete para oito anos quando comecei. Havia uma professora chamada Lourdes, que gostava de dar redação, e pedia para criar histórias a partir de gravuras de animais, plantas e outras figuras. Eu já gostava muito de histórias, porque meu pai as contava para mim. Em 1945, a gente tinha em casa uma biblioteca com algo em torno de mil exemplares. Quando completei dez anos, ganhei da minha madrinha uma edição de Alice no país das maravilhas (1865). Aquilo me virou a cabeça. Alice fazia tudo o que a gente não podia fazer. Foi quando perguntei para o meu pai o que era fantasia, e ele explicou que o mundo também era daquele jeito, tinha um lado meio doido.
E como era seu processo de escrita nesse início de carreira literária?
Eu tenho milhares de cadernetas, elas estão por toda parte, sempre saio com uma. Na escola, ganhamos da professora uma caderneta preta para anotar as impressões do cotidiano. Umas semanas depois, começamos a perceber melhor o mundo ao redor, a professora nos ensinou a olhar, a escrever e dar continuidade ao que se escrevia. Inclusive, para que a gente inventasse o que quisesse. Um dia, passou um caminhão de circo na cidade anunciando uma girafa com o pescoço de trinta metros. Eu fiquei pensando naquilo e inventei uma girafa com duzentos metros de pescoço. Na história, ela andava pela cidade se enroscando pelos fios, pelas árvores. Muitos me chamaram de louco… Dona Lourdes deu nota máxima. No dia seguinte da redação, quando uma menina perguntou o porquê da nota, a professora explicou que era devido à imaginação. A menina retrucou: “Mas pra que serve isso?”. E ela disse: “Pra viver uma vida melhor”. Isso ficou na minha cabeça.
Nas crônicas, um gênero tipicamente jornalístico, o senhor cria um universo em que imaginação e realidade se encontram. Como é escrevê-las?
Eu sempre fui leitor de crônicas. Comecei a escrevê-las para os jornais há 50 anos – e aqui estou eu, a cada quinze dias, no jornal O Estado de S. Paulo. Em geral, meu assunto é colhido enquanto eu ando. Eu vivo rodeado de histórias e personagens. É só estar atento. Vou contar uma história para ilustrar: certa vez, eu ia a pé para a redação da Vogue [revista da qual Loyola foi editor entre os anos 1990 e 2000], na Avenida Brasil [em São Paulo], e parei na frente de uma senhora elegante. Eu dei um passo, ela deu outro, do mesmo lado. E foi assim: você vai, ela vai, você vem, ela vem. Até que ela virou, sorriu e disse: obrigado por dançar comigo esta manhã. A crônica estava pronta! Quanto mais louca a crônica, mais ela repercute. A gente percebe que há algo curioso, de fantástico, na vida de todo mundo que causa identificação [no leitor].
O senhor acabou de escrever Risco de queda, seu livro mais pessoal. Está satisfeito?
Não, porque agora o livro está dentro de mim e eu não posso começar outro. Eu só dou por terminado o trabalho quando o livro sai e está na livraria. Ainda preciso afinar, adicionar coisas, reler. [O crítico] Jurandir Ferreira (1905-1977) me disse uma vez: “A palavra foi feita pra dizer, não pra enfeitar. Reduza a frase, diga e acabou”, citando a frase do [romancista] Graciliano Ramos (1892-1953). Angústia (1936) é um livro que me dominou por inteiro. Queria ter escrito algo assim… O Risco de queda não me deixou angustiado, mas muito ansioso. Porque, quando termino o livro, fico espantado com o número de bobagens. É preciso cortar. O escritor Valter Hugo Mãe foi um dos primeiros a ler o novo livro e fez várias anotações. De presente, ele me deu o prefácio. Eu percebi que às vezes falo muito de mim. Depois eu corto. Adoro [o cineasta italiano Federico] Fellini (1920-1993), queria ser Fellini. Esse livro [Risco de queda] é felliniano.
O senhor escreveu uma ficção ecológica antes de o termo existir, Não verás país nenhum (1981). Quarenta e cinco anos depois, ele continua atualíssimo, por quê?
O protagonista do Não verás é um capitão do exército que carrega uma bolsa de colostomia pelo livro inteiro, existe a cidade gradeada, aquecimento global, a violência de São Paulo… Eu inventei tudo, a vida copiou.
Como atravessou o período da pandemia?
Você nunca sabe o que vai acontecer. Eu lancei um livro logo depois da pandemia, se chama Deus, o que quer de nós (2022), que é uma frase da [filósofa e escritora francesa] Simone de Beauvoir (1908-1986). E foi um fracasso total. Claro que me deu um baque, mas me disseram que foi por conta da própria pandemia. O assunto já estava esgotado. Talvez daqui dez anos alguém se interesse pelo livro, mas eu não sei.
Nos últimos tempos, falou-se muito de autoficção, e as editoras correram atrás de autores para se conectar com os leitores. Isso tem sido cada vez mais frequente, atender à demanda e não, necessariamente, criar um público. Como o senhor vê isso?
Eu posso falar sobre o que eu quiser. Todo livro tem um fundo de autoficção. Literatura é um território livre, ninguém pode dizer “que tem que ser assim”. O mundo está polarizado, e a literatura também é assim, existe o politicamente correto, a vigilância. Se eu tivesse alguma resposta, eu não estaria escrevendo.
Entre os companheiros de Araraquara da sua geração, está o diretor, ator e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Como era sua relação com ele? Como o senhor reagiu à morte do Zé?
O Zé só podia morrer no fogo. Ele era fogo, sabe? Nós éramos amigos de escola. A gente assistia às missas e, todo sábado, tinha um encontro no pórtico, onde era entregue uma medalha por mérito de comportamento. E minha mãe falava: “Você ganha uma medalha para mim?”. E eu não queria ganhar. E o Zé dizia assim: “O dia que você ganhar a medalha, nunca mais eu falo com você”. Um dia eu consegui ganhar [a medalha] pela minha mãe. Aí o Zé brigou comigo. A gente sempre foi muito ligado, porque ele gostava de teatro e eu achava interessante. A gente saía do colégio de manhã, meio-dia eu passava primeiro na casa dele e ele mostrava os teatrinhos que fazia. Um teatrinho feito com caixas de papelão, marionetes, aquelas coisas. Moramos no mesmo quarto de pensão na Alameda Santos, no número 193 [em São Paulo]. E ali a gente convivia com muita gente interessante. A gente tinha um grupo. Íamos ao teatro, cinema, e depois de um tempo o Zé fundou o Teatro Oficina, que foi crescendo. O Oficina nasceu na Rua Santo Antônio, num cômodo. Aos sábados, tinha teatro de mímica. E olha só: aquela brincadeirinha, no fim, deu no que deu.
O que mudou em São Paulo desde que o senhor chegou na cidade?
As casas vão caindo, dando lugar a prédios de alto luxo. As pessoas estão desaparecendo da cidade. Quem era referência [no bairro] desapareceu. As três professoras que tomavam café na padaria da esquina, todas as manhãs, depois o sapateiro, a vendedora de frutas, os taxistas… Sempre escrevi sobre o que vejo nas ruas. Hoje, por conta disso aqui [refere-se à bengala] tenho saído acompanhado da Márcia [sua companheira], mas eu vivo rodeado de personagens interessantes, de assunto. Não importa se são as figuras que vemos pela janela, nas palestras que dou. Aliás, eu acabo de chegar do Maranhão, continuo viajando para falar dos livros. É necessário.
O senhor se vê como um entusiasta da própria literatura?
O que é que vai ser? O que [o livro] vai dizer? Esse é o mistério da deliciosa aventura da literatura. Com Depois do sol (1965), por exemplo, fiz um trabalho de divulgação de porta em porta, como se dizia naquela época. Íamos em grupo na livraria e algum de nós falava: “Que livro é esse?”, aí outro respondia: “Ah, é um livro de um jornalista, Ignácio de Loyola Brandão. A televisão está falando.” Pronto. Aí, três dias depois, você voltava lá e já tinha mais livros. Então eu fiz isso, livraria por livraria. E pegou. Ainda hoje eu vou nas livrarias para ver se vendeu, quanto vendeu, como está indo.
A crítica muitas vezes tenta encaixar um autor em algum gênero literário, o senhor se sente pertencente a algum?
Eu não sei o que eu escrevo, eu escrevo o que está dentro de mim. Não sei o que o público quer. Eu não sou especialista em nada. Eu conto histórias. E eu descobri que o povo gosta de histórias. Então, acho que eu sou um narrador.

Literatura é um território livre, ninguém pode dizer que tem que ser assim. O mundo está polarizado, e a literatura também é assim, existe o politicamente correto, a vigilância. Se eu tivesse alguma resposta, eu não estaria escrevendo.
O senhor conseguiu atingir a satisfação literária?
Eu acho que consegui. Lutei para burro. Mas sigo sempre aprendendo. Aprendi que ainda tenho muito por que lutar. A todo momento. Acho que isso é bom. Todos os meus amigos que falaram “Não, eu tô numa boa, eu tô bem”, os que não cuidaram dos próprios livros, desapareceram. Tenho que cuidar dos meus livros, tenho que cuidar de mim e tenho que cuidar da minha literatura. Pode ser que eu não faça mais nenhum livro, mas eu vou ficar triste.
Tem algum arrependimento?
Quis muito escrever para O Pasquim, mas nunca consegui. Aí um dia, conversando com o [jornalista] Luiz Carlos Maciel (1938-2017), eu perguntei o porquê. Ele contou: “Claro, você era de São Paulo”. Eu já escrevi para tantos lugares…
Quais são seus próximos projetos?
Não sei se eu ainda vou ter pique para fazer outro livro. Mas é questão de um minuto para eu virar tudo. Outro dia, peguei o leite para pôr no café. Era uma dessas caixinhas com a foto de uma pessoa desaparecida. Aí imaginei uma mulher tomando o café da manhã que pega a caixa e fala: “O que eu tô fazendo aqui? Sou eu.” A partir daí, eu não sei mais o que fazer. Mas é assim que nasce. Será que eu ainda vou escrever pelo menos um conto? Não sei, mas eu não pararia nunca.
Os que não cuidaram dos próprios livros, desapareceram. Eu acho que eu tenho que cuidar dos meus livros, tenho que cuidar de mim e tenho que cuidar da minha literatura. Pode ser que eu não faça mais nenhum livro, mas eu vou ficar triste.
Assista a trechos da Entrevista com o autor Ignácio de Loyola Brandão realizada em sua residência, em abril de 2026.
Risco de queda
Leia trecho inédito do próximo romance do escritor Ignácio de Loyola Brandão
Aprender a esperar
Esta suspeita casa de repouso será oficialmente reconhecida? O que tem aparecido de clínicas falsas, de cirurgias de recuperação que acabam em mortes. Ele, Emmanuel, um manipulador, teria caído em uma arapuca? Será que sabe onde está? Ele que escolheu? Porém, arapuca nesta altura inconcebível, em um prédio reputado, caríssimo, fashion como gostam de qualificar para cobrar muito? Sabemos todos que o projeto do prefeito anterior era ficar na história, superando em altura os mega edifícios de Dubai, Kuala Lumpur, Xangai. Mudaram o plano diretor desta cidade, edifícios históricos caíram, o dinheiro é poderosíssimo e ergueram torres que são vistas a centenas de quilômetros. Diga-se que aquele mandatário acabou impichado, coisa rara para meliantes políticos no Brasil.
Aqui a volta ao térreo me incomoda. A começar pelo pé no saco que é a espera do elevador. Neste pátio não há cadeiras, assentos, nada. Não suporto dois minutos em pé. Mara, a fisioterapeuta, me aconselha: estique-se, faça exercícios com os pés e as pernas. Como? Estou no chão de ladrilhos, entrada e saída dos elevadores inteligentes. Qual é o nome deste lugar? Sabemos que esperar eternamente condução, metrô, táxi, uber, fila de farmácia, cinema, o que for, é necessidade, única solução para um paulistano suportar o cotidiano… Tem gente que já ficou dias esperando este elevador rodeado por indiferentes. Reclamam. Adianta? Outra coisa que se aprende é: ficar indiferente, aconteça o que acontecer. Ninguém liga. Você pode cair: as pessoas passam, olham e seguem. Ninguém quer botar a mão em cumbuca. Por isso, eventualmente, tenho uma maravilhosa cuidadora. Devo tudo a Irene, ou seja, é o mesmo de todo homem. Nada somos sem elas. Frase perigosa que pode irritar o mundo macho, coalhado de intolerantes. Muitas vezes, ao longo de 55 anos, Irene, minha mulher, esteve ao meu lado. Este “minha” pode desagradar, até ofender muita gente. Entendam, Irene não é “minha” propriedade. Nos casamos há 55 anos. E ela cuida de mim, desde que cai, a perna enfraqueceu, a memória às vezes falha, além de todas as tarefas de seu trabalho. Tenho 30 anos mais. Mas, e se eu, sozinho, cair, desmaiar, tiver um ataque? Fico ali. Vivemos a era do foda-se. Ninguém mete a mão em cumbuca.

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