Rumo ao centenário

28/08/2026

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Chegou o momento de comemorar meus 80 anos! Para começar, devo reconhecer que minha existência se justifica pelas pessoas. O que me propus a fazer desde os primórdios tem a ver com o bem-estar coletivo – e isto, devo confessar, é bastante escorregadio. Hoje, no auge da maturidade, me pergunto: continuo sendo necessária? Tenho cumprido meus compromissos e responsabilidades? O que me reserva o futuro? 

Desde o princípio, meu objetivo central foi o cuidado – sobretudo da gente do comércio e suas famílias, como costumávamos dizer. Nos primeiros momentos, lá nos anos 1940 e 1950, as questões sanitárias e de saúde ocuparam grande parte dos meus esforços. Embora já tivesse a ambição de abarcar outras demandas – alimentação, esporte e lazer – como direitos básicos para uma vida com qualidade. 

Sim, me orgulho desse meu passado porque, sem ele, dificilmente alçaria voos maiores. E isso se deu quando percebi que já podia ousar em novas frentes. Parti em minha jornada para conhecer mais de perto realidades que ainda me eram distantes. Tal qual heróis ancestrais que carregam seus saberes e incertezas para decifrar o mundo, percorri cada canto desse estado e me apresentei como aliada para a transformação sociocultural e comunitária – era a época das UNIMOS, as Unidades Móveis de Orientação Social. Trago em mim um rosário de histórias e experiências memoráveis, que contribuíram para semear o desejo de construir o que é necessário e urgente para cada realidade. 

Com o passar do tempo, fui me estruturando a partir de minhas unidades distribuídas por São Paulo, que são hoje a principal maneira das pessoas conhecerem aquilo que posso oferecer. Tem muita gente que vê em mim uma extensão da sua própria casa, e isso tem a ver com a beleza das minhas instalações: teatros, comedorias, piscinas, ginásios, clínicas odontológicas – e o mais importante, as áreas de convivência, onde tudo acontece. 

Olhando agora em retrospectiva, constato que um propósito mobilizou meus caminhos: cultivar o bom, o belo e o justo. Como são princípios abstratos, eles ganharam a forma das ações, projetos e programas que foram se constituindo como uma espécie de personalidade: tem gente que vem até mim para praticar esportes, para comer bem, para se encantar com a arte, para se educar, para fazer uma bela viagem – e sobretudo, para encontrar a diversidade de pessoas que compõe nossa maior riqueza enquanto povo. 

A experiência da pandemia foi um choque: de repente, me vi sozinha, desabitada, temerosa. Me reinventei, buscando uma versão digital de mim mesma, que segue até hoje relevante. Mas voltar a me sentir plena pelos corações, mentes e corpos de crianças e jovens, pessoas adultas e idosas, foi uma alegria sem fim! 

Afinal, o que eu tenho a oferecer é a possibilidade de promover encontros entre pessoas – quanto mais plurais e diversas, melhor.    

A ordem natural das coisas é seguir em frente: a cada ano, me vejo maior, chegando mais perto das pessoas, com novas unidades e com minhas ações em praças e espaços públicos. Mas me permito uma reflexão: na perspectiva humana, costuma-se conceber a vida como uma trajetória linear. Nem todas as tradições, entretanto, compartilham dessa lógica. O pensador e ativista quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, evoca a ancestralidade para afirmar outra compreensão do tempo e da existência: tudo tem começo, meio e… começo novamente. Me parece uma filosofia adequada e oportuna. 

Ao completar oito décadas de existência, vislumbro que tradição e inovação são dimensões complementares. É justamente este diálogo permanente que me impulsiona, permitindo acumular aprendizados para atuar no presente e imaginar futuros. Celebrar 80 anos é reconhecer que a continuidade não se sustenta apenas por aquilo que preservamos, mas também pela coragem de renovar propósitos.  Se a vida é assim, sigamos em movimento, inspirados pelo legado que recebemos das gerações anteriores e pela responsabilidade de animar os próximos capítulos, rumo ao centenário!  

Sesc São Paulo

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