Taís Araujo para além da dor

28/08/2026

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Com solo coletivo, atriz celebra mais de 30 anos de carreira e compartilha reflexões sobre encontrar o protagonismo negro por meio do amor e da insurgência (foto: Nanna Moraes)

Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra

POR AGNES SOFIA GUIMARÃES

Desde a adolescência, Taís Araujo ocupa um lugar de destaque na dramaturgia brasileira. Aos 17 anos, tornou-se a terceira atriz negra da história a protagonizar uma telenovela:  Xica da Silva, exibida pela TV Manchete, em 1996. Ao apresentar uma nova e irreverente faceta para a personagem, já conhecida no imaginário brasileiro, alcançou visibilidade internacional.

Em 2004, tornou-se a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela contemporânea da Rede Globo, Da cor do pecado. Cinco anos depois, foi a única Helena negra de Manoel Carlos (1933-2026), em Viver a vida. No cinema, trabalhou com diretores como Joel Zito Araújo, em Filhas do vento (2004); Cacá Diegues (1940-2025), em O maior amor do mundo (2006); e Lázaro Ramos, em Medida provisória (2020).

Para além das telas, Taís, que também é formada em Jornalismo, levou sua voz a outros espaços. Tornou-se uma das principais vozes públicas do país na luta pelo antirracismo, como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras pela ONU Mulheres Brasil, posição de porta-voz que ocupa desde 2016.

Em 2025, depois de celebrar três décadas de carreira interpretando outra protagonista emblemática, Raquel Accioli, no remake de Vale Tudo (Globo), Taís partiu em busca de um novo protagonismo: a escolha de qual tipo de história queria contar sobre pessoas negras. “A dor precisa parar de ser vendida. As pessoas precisam parar de ter gosto por ver a nossa dor [das pessoas negras]. E acho que o papel principal disso são as escolhas, do que se escolhe contar”. 

Nessa busca, Taís encontrou Mayah, uma mulher que, às vésperas dos 40 anos, é levada a um doloroso recomeço. No percurso, descobre alegria e força no amor de duas mulheres negras de gerações distintas, uma jovem e uma idosa. A história é contada em Mudando de pele, que ficou em cartaz no Sesc 14 Bis entre 3 de junho e 5 de julho de 2026. Em cena, Taís potencializa o coletivo: divide o palco com as musicistas Dani Nega e Layla, que ajudam a contar as inquietações que atravessam Mayah durante seu processo de cura. A peça é uma adaptação do texto da britânica Amanda Wilkin, dirigida por Yara de Novaes, e estreou no Rio de Janeiro. Na 37ª edição do Prêmio Shell, a produção lidera as indicações, pelo Júri do Rio, concorrendo em cinco categorias (Atriz, Direção, Figurino, Iluminação e Música). 

Neste Depoimento, Taís fala sobre a responsabilidade de fazer escolhas quando a curadoria está em suas mãos. Também discute o papel da televisão, do cinema, do teatro e da publicidade na reconstrução da imagem que a população brasileira produz sobre si mesma. 

histórias
Fui muito provocada por livros e ensaios de autoras negras. Sueli Carneiro, Cida Bento, bell hooks (1952-2021), Audre Lorde (1934-2022), Patricia Hill Collins. Depois, quando assisti ao filme Ficção americana [longa estadunidense dirigido por Cord Jefferson], senti que a dramaturgia estava apontando para um passo diferente. Muitas das histórias que fizeram a gente chegar até aqui já foram contadas de várias maneiras. Elas foram importantes, mas precisamos ampliar esse olhar. A dor precisa parar de ser vendida. As pessoas precisam parar de ter gosto por assistir à nossa dor. As dores vão continuar existindo, claro. Mas são dores de muitas naturezas. Não podem estar sempre submetidas à ordem da sobrevivência. 

escolhas
Entrei em uma pesquisa de textos e encontrei uma história [o texto Mudando de pele] que também falava sobre o encontro entre gerações, outro assunto que me interessa muito. Há uma frase do Emicida de que gosto: “tento ler almas para além da pressão”. Como sou uma artista que tem a possibilidade de produzir e, em alguns momentos, de escolher o que quero falar no teatro e no cinema, meu interesse estava nessa reconstrução das narrativas. Não acho que a necessidade de recomeçar pertença exclusivamente às mulheres de 40 ou 50 anos. A gente sente necessidade de mudar várias vezes durante a vida. Foi isso que me chamou a atenção nessa história. Mesmo sendo uma mulher de quase 50 anos, me enxerguei naquele lugar em diferentes momentos. É um texto que atravessa gerações. Todo mundo tem uma Mildred na vida. Uma pessoa mais velha, seja homem ou mulher, que te direciona, salva.

Como produtora e protagonista da peça Mudando de Pele, a atriz Taís Araujo propõe reflexões sobre transformações pessoais e a passagem do tempo (foto: Nanna Moraes)

coletivo
A peça começou com o meu desejo de fazer um solo. Então, Yara disse que gostaria de ter música ao vivo e trouxemos as musicistas. A ideia de “solo coletivo” foi a última coisa a aparecer. Quando recebi a identidade visual, estava escrito: “um solo de Taís Araujo”. Aquilo me incomodou profundamente. Eu não achava que era um solo. Tivemos um processo muito horizontal, com a participação de todo mundo. Falei para Yara: “vamos colocar solo coletivo?”. Ela perguntou se isso existia. Eu jurava que tinha inventado. Depois ela pesquisou e descobriu que o termo já existia. A Mayah tem um pouco de todas nós. A personagem foi construída a partir das nossas vivências particulares. Por isso, não consigo imaginar esse espetáculo sem as pessoas que estão comigo. Minha vida é muito trabalhada no coletivo.

inquietação
Eu sou muito inquieta. Quero fazer coisas, descobrir coisas, experimentar algo diferente. O lugar do conforto, quando significa acomodação, não me cabe. Gosto do incômodo. Do que quer mudar. Do que quer melhorar. Isso é o que me move na vida. Por isso, já estive muitas vezes nesse lugar de mudar de pele. Pessoas inquietas como eu talvez passem por isso quase semanalmente.

responsabilidade
Quando a curadoria me cabe, existe um desejo de provocar reflexão. A Mayah é um exemplo disso. Também vou fazer o filme da Elza Soares (1930-2022), uma história que pode provocar uma reflexão sobre como este país tratou essa mulher durante tantos anos. Sobre como foi cruel, misógino e racista com ela. Quando posso escolher, minhas decisões são voltadas para uma construção de narrativa mais responsável. Quando a curadoria não me cabe, tento encontrar caminhos. Sendo a pessoa e a mulher que sou, de alguma maneira meu trabalho estará sempre a serviço de uma agenda e de diálogos que me interessam. Não tem como não ser dessa forma.

negritudes
O que está acontecendo hoje na teledramaturgia é muito bonito. Vemos atrizes negras protagonizando novelas, filmes e séries. É uma mudança bastante recente. Foi um processo crescente. Passamos de personagens periféricas, de uma única pessoa negra em uma novela, para várias personagens. Depois, essas personagens começaram a ocupar outros lugares até chegarem ao centro das histórias. Ter mulheres negras como protagonistas das narrativas é algo ainda muito recente. Mas existe uma transformação em curso.

“O lugar do conforto, quando significa acomodação, não me cabe. Gosto do incômodo. Do que quer mudar”.

imagens
A construção do olhar da população brasileira sobre a população negra foi trágica durante muito tempo. Esse olhar foi construído pelo jornalismo, pela dramaturgia e pela publicidade. Hoje, vejo esses campos fazendo um trabalho de reconstrução. A publicidade tem feito. A teledramaturgia tem feito. O jornalismo tem agido com mais responsabilidade em relação a essa reconstrução. A imagem que um povo tem de si mesmo também é construída por essas linguagens. Estamos falando do Brasil, o país das novelas. A teledramaturgia é fundamental. O telejornalismo é fundamental. A publicidade também. Cabe a esses espaços participar dessa reconstrução.

comunicar
Procuro histórias com um olhar ampliado, mais humano. Personagens com subjetividade e complexidade. E procuro trabalhos que comuniquem. No teatro, principalmente, não me interessa fazer nada hermético. Sei que muitas pessoas vão ao teatro pela primeira vez para me assistir. Algumas não têm o hábito de frequentar esse espaço. Gostam de mim por causa da televisão ou pelas coisas que digo. Não posso perder esse público. Ele precisa se sentir contemplado. Por isso, durante o processo, estou sempre perguntando: “dá para entender?”. Quem trabalha há muito tempo com arte pode entrar em questões herméticas, artísticas ou subliminares demais, que às vezes não chegam às pessoas. Isso não me interessa. Eu quero comunicar. Não quero fazer algo só para mim. Quero que todo mundo tenha acesso.  

Assista a trechos desse Depoimento com a atriz Taís Araujo, realizado em junho de 2026.

https://youtu.be/SXMBIh0f9Ss

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