Ruas do cinema

28/08/2026

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Em meio às transformações do mercado audiovisual e do espaço urbano, cinemas de rua atravessam as décadas democratizando a sétima arte

Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra

POR MARCEL VERRUMO 

Caminhar pela região da República, no Centro de São Paulo, é assistir a cenas em que se sobrepõem múltiplas camadas de tempo. Um dos endereços onde passado e presente se encontram em um mesmo frame é a Avenida Ipiranga, 757, sede do Playarte Marabá, antigo Cine Marabá. Inaugurado em 1945, o icônico cinema de rua fazia parte da Cinelândia Paulistana, região que concentrava algumas das mais tradicionais salas de exibição da época. Numa metrópole em expansão e de agitada vida cultural, esse cinema acomodava 1655 pessoas em um edifício imponente, com monumental arquitetura e design luxuoso.

Locais como o Cine Marabá estiveram no centro da cena cinematográfica até a década de 1970, atuando como espaços de difusão de obras que se tornariam clássicas, de encontros entre amantes da sétima arte e de produção de hábitos culturais. “Os cinemas de rua eram o endereço da vida social paulistana, do seu glamour e fervo. As pessoas iam a esses espaços e, após assistirem a um filme, reproduziam os trajes e hábitos das personagens. Eram espaços de produção da cultura em um momento em que tudo girava em torno deles”, conta Mauro Amorim, curador e diretor de arte de Cinemas de Rua: Da Augusta à Cinelândia Paulistana, que ambienta o CineSesc, cinema de rua que funciona desde 1979 na Rua Augusta, em São Paulo.

Na ambientação idealizada pela equipe do CineSesc, é possível imergir na memória desses cinemas, por meio de imagens, letreiros e mapas que remetem à sua história e funcionamento. São obras que resgatam o seu apogeu nas décadas de 1940 e 1950 e o seu declínio a partir dos anos 1970, motivado por fatores como a expansão das salas de cinema em centros comerciais e as transformações urbanas e demográficas. 

Entre os destaques da ambientação, está uma série de cinco pinturas em papel da artista Fernanda D’Boer, que celebra o Cine Marabá, o Cine Comodoro, o Cine Ipiranga, o Cine Marrocos e o próprio CineSesc. As criações mesclam traços das fachadas arquitetônicas desses espaços com referências iconográficas dos filmes Tubarão (Steven Spielberg, 1975), A doce vida [Federico Fellini (1920-1993), 1960], Um corpo que cai [Alfred Hitchcock (1899-1980), -1958], Bye Bye Brasil [Cacá Diegues (1940-2025), -1980] e Laranja Mecânica [Stanley Kubrick (1928–1999), 1972]. Um mapa ilustrado, de autoria do estúdio Radiográfico, guia o público em um passeio entre a rua Augusta e a Cinelândia Paulistana.

“Ao fazermos esse resgate dos cinemas de rua, celebramos espaços onde pulsaram e ainda pulsam a essência e a paixão pelo cinema”, resume Amorim, para quem locais como o CineSesc e o Marabá, na República, representam formas de resistência, onde é possível desbravar cenas da arte e da cidade por meio das lentes do cinema. 

CineSesc 
Ambientação Cinemas de Rua – Da Augusta à Cinelândia Paulistana
Visitação todos os dias, das 13h15 às 22h. Grátis. Até 30/12/2026.

Referências às antigas bombonieres dos cinemas de rua compõem a ambientação (foto: Fernando Cavalcanti).
Ingressos para sessões em cinema de rua no apaogeu desses espaços, entre as décadas 1950 e 1960 (foto: Fernando Cavalcanti)
Óculos 3D em formato anáglifo, sucesso nas décadas de 1950 e 1960, criavam a ilusão de profundidade tridimensional diante da tela plana do cinema (foto: Fernando Cavalcanti).
Criado pelo estúdio Radiográfico, painel conta a história dos cinemas de rua, conectando os tradicionais equipamentos culturais da rua Augusta à Cinelândia Paulistana na República.  

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