
Defensor de um teatro que ocupa a cidade e desafia espaços convencionais, o diretor Luiz Fernando Marques reflete sobre sua trajetória e seus processos de criação (foto: Nilton Fukuda)
POR DIEGO OLIVARES
Natural de Santos (SP), o diretor teatral e dramaturgo Luiz Fernando Marques, também conhecido como Lubi, construiu sua linguagem artística desafiando convenções. Suas produções são pautadas na ocupação de espaços não convencionais e na fricção contínua entre o espetáculo e a vida pública. Com uma trajetória de mais de duas décadas, é cofundador do Grupo XIX de Teatro (coletivo sediado na histórica Vila Maria Zélia, em São Paulo) e do Teatro Kunyn.
Diretor de montagens como Hysteria (2001) e Hygiene (2005), realiza pesquisas que borram as fronteiras entre palco e plateia, transformando arquiteturas urbanas e patrimônios históricos em elementos vivos da dramaturgia. Com foco na criação colaborativa, é encenador de mais de quarenta peças e orientador de novos diretores em escolas de formação, e defende que transformar a cena exige, antes de tudo, transformar os modos de produção.
Neste Encontros, Lubi fala sobre a inspiração para o espetáculo Pés-Coração (2026), um dos destaques da programação da oitava edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado entre 3 e 13 deste mês, em Santos e em outras cidades da Baixada Santista. Ainda relembra o início de sua carreira, detalha seus processos de criação ao lado de diversos coletivos e discute a urgência de reocupar as cidades com um teatro que saiba escutar o outro e acolher histórias de grupos muitas vezes invisibilizados.
DESPERTAR
Saí de Santos para virar um cineasta, fazer faculdade de Audiovisual em São Paulo. Foi naquele ano fatídico em que o Brasil não produziu nenhum filme [início da década de 1990, quando houve o fechamento da Embrafilme]. Resolvi fazer cinema no pior ano possível. Era um deserto muito grande. Comecei a fazer curso de teatro pensando na direção de atores. Nunca quis ser ator, mas fui parar nesse mundo. Depois da faculdade de Audiovisual, comecei a faculdade de Letras, parei, e fui tentar entrar na Faculdade de Artes Cênicas do CAC [da Universidade de São Paulo (USP)]. Escutando como funcionava a EAD [Escola de Arte Dramática, curso técnico também da USP], pensei que ser assistente de direção de cinco diretores seria mais interessante do que fazer outra graduação. Prestei EAD e brinco que era a pessoa calma entre todas as que estavam ali, porque eu não tinha de fato uma ambição de ser ator. Passei e realmente mudou a minha trajetória. O teatro me conquistou pela questão da autoria. Isso eu já saquei desde a faculdade: na televisão e no cinema, ia ser muito difícil ser autor. E quando falo de autor, não é dramaturgo, é ter a minha autoria. Como o teatro é uma arte fora do mercado, de certa maneira, você consegue, com muito mais liberdade, dar os seus gritos, dar os seus pulos.
HYSTERIA
A peça Hysteria [que marca a estreia do Grupo XIX de Teatro, em 2001] nasce da ideia de uma conversa dessas personagens, que são do século retrasado, com a plateia nos dias de hoje. Para que essa conversa [a partir de personagens femininas diagnosticadas com o que era chamado de histeria no século 19] acontecesse de maneira sincera, a gente tinha poucas pistas de como poderia ser essa interação. Tínhamos contra nós um século de convenção teatral do que é teatro, plateia, palco. O que a gente fez foi tirar tudo isso: a luz, a maquiagem, o som, para que as pessoas se sentissem muito próximas de nós, porque tínhamos um desejo de que essa interação fosse sincera e direta. Começamos fazendo dentro da Cidade Universitária e, depois, procuramos um espaço do século 19 que pudesse nos abarcar. Fomos parar no prédio da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP], um palacete que fica em Higienópolis. Mas optamos por fazer a peça na cozinha, sentindo que era esse espaço das pessoas excluídas do ambiente social. E a gente nunca imaginou que aquilo fosse acontecer como aconteceu. Começamos apresentando para 20 pessoas e, no último dia, havia 320 pessoas para assistir.

ESPAÇO
Quando você fala “teatro”, pensa em um espaço. Essa palavra foi capturada, então você fica ali dentro de um “espaço”, e é muito difícil brigar contra isso. O mais triste é que esse espaço dá conta de um momento histórico que tem a ver com a burguesia, e foi profundamente encapsulado ali. Quando você luta contra ele, está lutando contra um grande sistema. Hoje em dia, tenho olhado para o quanto isso é limitador. Existem frases terríveis como “na minha cidade não tem teatro”, “na minha cidade o teatro pegou fogo”, “está em reforma”. Isso, às vezes, paralisa o movimento. Uma das oportunidades mais ricas da minha vida foi o Palco Giratório [projeto do Sesc para circulação das artes cênicas em território nacional, do qual participou em 2009]. Fizemos 63 cidades justamente porque não precisávamos de um teatro. Muitas pessoas falavam “eu achava que a minha cidade não tinha teatro, mas agora a gente vai continuar fazendo aqui [no espaço público]”. A gente percebeu com o tempo que foi um gesto político muito significativo.
REPRESENTATIVIDADE
O Teatro Kunyn nasceu de cinco amigos gays que saíam de baladas juntos, eram artistas de grupos diferentes e falavam: “cara, a gente não se vê em nenhum lugar”. Isso em 2006, 2007. A gente não tinha espaço, porque não tinha edital, não tinha nada. A gente estava nas nossas casas. Fiz a proposta para cada ator: vamos sair do próprio armário de cada um? Do armário de casa mesmo. A gente riu quando teve a ideia, mas, quando foi fazer, ficou profundamente emocionado. A imagem de sair de dentro do armário era muito forte. E começamos a querer fazer uma peça que falasse disso. A primeira obra do nosso grupo chama Dizer e não pedir segredo e era feita na nossa casa. Estreamos no nosso apartamento e, quando acabava a peça, falávamos: “se alguém gostou, a gente pode fazer no seu apartamento”. E assim fizemos em mais de 20 casas, descobrindo que a peça era também o que aquele anfitrião tinha preparado para aquela noite. As pessoas usavam a peça para dizer algo. Fizemos desde festa de firma até divórcios e encontros entre pais e filhos.
LUTA
Quando fizemos uma peça chamada Orgia, a ideia era abordar a vida homoafetiva no espaço público, por isso montamos nos espaços “de pegação”. Foi uma luta enorme para fazer essa peça no Parque Trianon [localizado na Avenida Paulista, em São Paulo]. A primeira vez que uma notícia sobre essa peça saiu no jornal, os comentários na internet foram tão violentos que a matéria consta nos autos do STF (Supremo Tribunal Federal) para a lei contra a homofobia. Esses espetáculos vão gerando “problemas”, vão gerando situações, mas também vão abrindo espaços. Hoje, tem sido um pouco triste perceber o quanto isso [tratar de peças com temática homoafetiva no espaço público] ainda é uma questão. Há um retrocesso sobre esses temas. E aí eu tenho vontade de fazer mais, em vez de me recolher. Estou com vontade de voltar a me radicalizar. Acho que é o momento em que a gente precisa estar de novo na cidade, porque a cidade está nos expulsando. Me interessa estar nessa briga.

“O teatro me conquistou pela questão da autoria. Isso eu já saquei desde a faculdade: na televisão e no cinema, ia ser muito difícil ser autor. E quando falo de autor, não é dramaturgo, é ter a minha autoria.”
LATINIDADE
Fazer Pés-Coração (2026) [espetáculo do Coletivo Labirinto apresentado no Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos] foi um processo bem diferente. Eu vinha de experiências com corpos dissidentes, mas o corpo latino traz um nó muito doido: ao mesmo tempo em que ele parece estar fora de nós, ele é a gente. Para nós, brasileiros, a latinidade é atravessada pela questão da língua e por uma particularidade colonial que nos deixa sempre com um pé lá e outro cá. A partir dessa crise de como nos aproximar do tema, a encenação nasceu justamente do movimento: a peça é fragmentada, correndo, em deslocamento constante entre o perto e o longe. Ela é uma estrutura que ganha ar com a história dos lugares e das pessoas. Por isso, apresentar no Mercado Municipal de Santos durante o Festival Mirada é tão forte para mim. Minha família trabalhou ali e é um espaço cheio de memória. Tudo o que aprendi sobre América Latina vem muito do Mirada, dessa oportunidade de reconhecer as mesmas dores e cicatrizes coloniais.
O diretor teatral Luiz Fernando Marques, Lubi, esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 29 de julho. A mediação do bate-papo foi de Tommy Pietra, assistente na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo.
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