
Originalidade do maestro Moacir Santos, que completaria 100 anos em 2026, segue influenciando novas gerações da música brasileira
Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra
POR LUCAS NOBILE
No ano do seu centenário de nascimento, o compositor, maestro e instrumentista pernambucano Moacir Santos (1926-2006) permanece com relevância e prestígio perante a classe musical e os aficionados por música, embora seja pouco conhecido pelo público em geral.
No Discogs, site de compra e venda de discos, um exemplar original do primeiro e mais cultuado álbum de Moacir, Coisas, lançado em 1965 pelo selo Forma, seguia à venda no fim de maio por impressionantes R$ 35 mil. Fora das plataformas digitais de áudio, mas relançado no ano de 2013 em reedição em vinil pela Polysom a preços mais democráticos, o álbum pode ser encontrado hoje a partir de R$ 260.
O legado de um artista não se mede apenas pelo valor de mercado de seus discos, mas sobretudo pelo quanto sua obra continua a influenciar sucessivas gerações. Neste sentido, mesmo tendo se passado duas décadas de sua morte, Moacir Santos segue vivíssimo.
Ecos presentes
Recentemente, dois artistas criaram diferentes shows inspirados na obra do compositor. O clarinetista e saxofonista Caetano Brasil apresentou o espetáculo “Flores pro Moa — O choro vivo de Moacir Santos”. O trombonista Allan Abbadia, por sua vez, estreou na edição de 2025 do Sesc Jazz o show Coisas Supremas, em que aproximou os universos de dois álbuns consagrados de 1965, Coisas, de Moacir, e A love supreme, do saxofonista e compositor estadunidense John Coltrane (1926-1967), cujo centenário de nascimento também é celebrado em 2026.
“O que mais diferencia Moacir são os diálogos que ele propõe na obra dele, como uma pessoa negra na afro-diáspora. Tem esse diálogo constante da música afro-americana, da música afro-caribenha e da música afro-brasileira. Há uma simbiose, ele compõe já arranjando. Por ele ter feito arranjos para o Edison Machado (1934-1990), para o Paulo Moura (1932-2010), para o Milton Banana (1935-1999), para o Bossa Rio, encaixou-se o Moacir numa estante de samba jazz, mas não é só isso também, é uma música afrodiaspórica. É uma densidade cultural tão grande e uma não hierarquização de melodia, harmonia e ritmo, em que um não é mais importante do que o outro, que é até difícil de definir”, analisa Abbadia.
Outro trabalho importante para a manutenção e a transmissão do legado do arranjador é o livro Moacir Santos ou os caminhos de um músico brasileiro (Folha Seca, 2013), escrito por Andrea Ernest Dias. Flautista e biógrafa de Moacir, Andrea pesquisa o universo criativo do músico há mais de 25 anos. Ela atuou em Ouro negro (2001) e Choros e alegria (2005), discos idealizados e dirigidos pelo violonista e arranjador Mário Adnet e pelo saxofonista Zé Nogueira (1955-2024), fundamentais por reapresentar Moacir Santos ao público brasileiro, que fixou residência nos Estados Unidos em 1967. “Em Moacir, composição e arranjo são indissociáveis, como em uma partitura de Bach. O projeto Ouro negro foi sem dúvida o grande impulsionador do interesse na obra de Moacir de, ao menos, duas ou três gerações de músicos a partir de então, inclusive crianças”, diz a flautista e pesquisadora.
Outro disco recente que amplifica o alcance referencial do compositor é Moacir de todos os santos, do maestro baiano Letieres Leite (1959-2021) e da Orquestra Rumpilezz, lançado em 2022 pelo selo Rocinante. “Quando surgiu a ideia do Ouro negro, trouxemos Moacir para acompanhar as gravações. Já tínhamos gravado todas as bases, e ele chegaria quando fôssemos gravar a parte dos sopros. Ao ouvir a nossa base, com Cristóvão Bastos tocando o que havia sido transcrito nota por nota do original, o Moacir perguntou: ‘Como é que vocês me puseram ali? Como é que eu estou aqui? Sou eu tocando aqui’. Ele ficou muito impressionado. O fato de ele achar que era ele quem estava tocando ali, para mim, foi como ganhar uma estrelinha do mestre. A partir disso, ele relaxou e começou a participar das gravações, opinando e respondendo coisas que a gente não poderia imaginar, como as surdinas no trompete ou no trombone”, relembra Mário Adnet.

Referência musical
Além das dez composições gravadas no álbum Coisas, o disco duplo Ouro negro apresentou também regravações de obras presentes nos outros álbuns feitos por Moacir Santos nos Estados Unidos – três deles pela renomada gravadora Blue Note (The Maestro, 1972; Saudade, 1974; e Carnival of the spirits, 1975) e um pelo selo Discovery (Opus 3 nº 1, 1978). Somando às faixas instrumentais, o disco também contou com algumas canções interpretadas por nomes como Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Joyce Moreno e João Bosco.
Djavan ainda relembra seu encontro com Moacir, ocorrido quatro décadas antes de Ouro negro. “Eu estava em Los Angeles gravando o Luz e, num dos dias, fomos a um churrasco em Pasadena, na casa do Moacir. Aí eu fiz o convite para ele, porque eu sabia que ele gostava de mim e eu também gostava muito dele. E ele fez aquele arranjo lindo. Também tocou o sax barítono, que era o instrumento dele. Fiquei encantado com uma ideia que ele teve para o arranjo, de falar o meu nome em um determinado momento da música. Se você ouvir com atenção o arranjo de ‘Capim’, vai perceber lá: ‘Djavan… Djavan…’. Na hora, eu fiquei assim: Meu Deus, que coisa incrível. Falei: você é maluco. E ficou lindo, ficou lindo. Ele era incrível”, conta Djavan.
Antes mesmo do revolucionário Coisas, Moacir Santos já ganhava projeção e notoriedade no meio musical. “Naquele período em que surgiu a bossa nova, quase todos estavam estudando comigo. Tive a felicidade de ensinar muitos dos meus colegas”, contou Moacir em entrevista para a Rádio Jornal do Brasil em 1973. A lista dos alunos é extensa: Baden Powell (1937-2000), Nara Leão (1942-1989), João Donato (1934-2023), Sérgio Mendes (1941-2024), Carlos Lyra (1933-2023), Wilson das Neves (1936-2017), Roberto Menescal, Eumir Deodato, Maurício Einhorn e muitos outros.
Baden foi um dos primeiros a interpretar composições de Moacir, como “Coisa nº 1” e “Coisa nº 2”, no LP Baden Powell swings with Jimmy Pratt, em 1963. No mesmo ano, no álbum Vinicius & Odette Lara, Vinicius de Moraes (1913-1980) gravou “Samba da bênção”, dele e de Baden, em que, no final da canção, o poeta expressava sua admiração por Moacir com a célebre declaração: “A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos”. Ainda no segundo semestre de 1963, a gravadora Copacabana lançou um disco em que Elizeth Cardoso (1920-1990) cantava obras de Vinicius compostas com diversos parceiros e arranjos de Moacir. Na contracapa do disco, Vinicius de Moraes voltava a explicitar seu encantamento pelas criações do maestro: “Antigo maestro da Rádio Nacional e professor de música de muitos dos responsáveis pelo movimento da bossa nova, Moacir Santos surge com grande força e originalidade, colocando-se, de saída, na linha de frente da seleção de ouro do momento”.
No ano seguinte, o pianista Sérgio Mendes e o sexteto Bossa Rio lançaram o importante álbum Você ainda não ouviu nada, com quatro arranjos e composições de Moacir, uma delas, a mais conhecida de toda a obra do maestro, “Coisa nº 5 — Nanã”, que ganhou dezenas de regravações, como a de Nara Leão em seu disco de estreia.
Nas trilhas do cinema
Boa parte das “coisas” de Moacir foi composta para a trilha sonora do filme Ganga Zumba (1963), do diretor Cacá Diegues (1940-2025). Ao gravar o LP Coisas, perguntado sobre os nomes das faixas, o compositor, que julgava que suas obras não eram dignas de serem nomeadas como “Opus”, seguindo a terminologia utilizada no universo da música de concerto, ele as batizou simplesmente como “coisas”.
Os trabalhos do compositor para cinema foram reunidos e analisados pelo pesquisador Lucas Zangirolami Bonetti no site trilhasmoacirsantos.com.br. Lá, assim como Ganga Zumba, estão as composições e arranjos de Moacir para filmes brasileiros como Seara vermelha (1964), Santo módico (1964), Os fuzis (1964), O beijo (1965) e Grande cidade (1966). Encontram-se também as colaborações de Moacir para produções internacionais como Amor no Pacífico (lançado em 1969, e que motivou a ida do compositor para os Estados Unidos dois anos antes), Africa erotica (ou Jungle erotica, de 1970), a série Missão impossível [exibida originalmente de 1966 a 1973] e Final justice (1985).
No meio artístico estadunidense, Moacir Santos também conquistou a admiração de músicos consagrados. Entre eles, os pianistas e compositores Clare Fischer (1928-2012), Horace Silver (1928-2014), Gil Evans (1912-1988) e Henry Mancini (1924-1994), que se referia ao brasileiro com um adjetivo tão simples quanto categórico: “Moacir is unique” [“Moacir é único”, em tradução livre].
Antes das trilhas para cinema e de sua discografia própria, Moacir Santos foi maestro da principal emissora do país em sua época, a Rádio Nacional, entre os anos de 1948 e 1967. Aluno de César Guerra-Peixe (1914-1993) e do alemão Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), aprimorou seus conhecimentos em teoria musical, harmonia e contraponto para consolidar um trabalho extremamente original como orquestrador. Só na Rádio Nacional, deixou mais de 300 arranjos escritos para diversos programas. “Na época das gravações do disco Choros e alegria, Moacir esteve com a gente no Rio de Janeiro. Como não tinha nada escrito, ele orientava, escrevendo apenas a melodia e o baixo, e a gente tinha que adivinhar a harmonia, ele ia corrigindo aos poucos. Mas poucas vezes nós falamos em harmonia, acidente de acorde ou passagens com nomes teóricos”, diz Mário Adnet.

“O Moa é a síntese do conhecimento acadêmico clássico com a tradição oral popular“
Teco Cardoso, músico e aluno de Moacir Santos
Andanças
A relação de Moacir Santos com a música remonta a tempos muito anteriores à chegada dele ao Rio de Janeiro, na década de 1940. Nascido em Flores do Pajeú, no sertão pernambucano, Moacir tinha suas primeiras lembranças musicais antes mesmo de ficar órfão por volta dos 3 anos de idade. “Antes de eu ter consciência de mim, eu já vivia tocando. O pessoal em Flores dizia: ‘Esse menino é danado. A mãe dele morrendo, e ele lá tocando e brincando com latas no quintal’. Eu comecei com música desde que nasci, com menos de 2 anos já batia ritmo”, relembrou Moacir na entrevista concedida a Simon Khoury na Rádio Jornal do Brasil, na década de 1970.
Adotado pela família Lúcio, desde pequeno já construía de maneira intuitiva suas flautas e pífanos. Aos 14 anos, partiu sozinho em suas andanças por cidades da região próxima a Serra Talhada (PE). Dotado de extrema musicalidade, impressionava os músicos das bandas municipais por onde passava. Aos primeiros encontros, a mesma cena se repetia. Questionado sobre qual instrumento tocava, Moacir respondia: “todos”. Instado a comprovar a resposta que soava arrogante, ao jovem bastava uma breve demonstração de suas habilidades para deixar a todos boquiabertos. Antes de chegar ao Rio de Janeiro, Moacir passou por algumas capitais do Nordeste, como Recife, João Pessoa – na capital paraibana foi arranjador da Rádio Tabajara e conheceu Cleonice, com quem se casaria e teria um filho, Moacir Junior – e Salvador.
No Rio de Janeiro, ao ser submetido a testes na Rádio Nacional, a estupefação se repetiu. “Os diretores estavam ainda decidindo se me admitiriam na rádio ou não. Consultaram o maestro Chiquinho para saber se deviam me contratar. A resposta foi a seguinte: ‘Colocamos nossas músicas, ele tocou. Aí, ele mostrou as dele, e não conseguimos tocar’”, contou Moacir na Rádio Jornal do Brasil.
A despeito do serviço que realizou como arranjador na principal estação radiofônica do país e de todos ineditismo e excelência contidos em seu disco Coisas, Moacir Santos sentiu que as condições de trabalho no mercado brasileiro não eram das mais favoráveis naquele período: “Eu e meus colegas arranjadores vivíamos uma crise aqui. Pensei até em vender meu carro na praça. E acabei indo embora”, contou o compositor em outra entrevista para a Rádio Jornal do Brasil, já na década de 1980.
Em 1967, com passagens oferecidas pelo Itamaraty, Moacir seguiu para Newark em Nova Jersey, para acompanhar a pré-estreia do filme Amor no Pacífico, para o qual ele havia composto a trilha sonora. De lá, seguiu para Pasadena, onde fixou residência e morou até morrer em 6 de agosto de 2006. “O Moa é a síntese do conhecimento acadêmico clássico com a tradição oral popular. Com a experiência adquirida nos anos de músico e depois maestro arranjador da Rádio Nacional forjou uma originalíssima afro-brasilidade. O jazz, o samba, o maracatu e as técnicas de contraponto eruditas se mesclavam numa música extremamente contemporânea e original. Em seu estúdio em Pasadena onde tive aulas, partituras de Bach e Villa-Lobos a Nelson Riddle e Oliver Nelson eram tiradas das prateleiras abarrotadas, todas devidamente analisadas e cheias de observações a lápis de alguém que as estudou a fundo”, relembra Teco Cardoso, um dos últimos alunos de Moacir e herdeiro do saxofone barítono que pertenceu a seu mestre.
“O fato de tocar sax barítono, o mais grave do naipe, e ao colocá-lo não mais apenas dobrando as linhas do baixo mas muitas vezes assumindo a melodia (que estaria normalmente nas pontas mais agudas das flautas e trompetes) ‘inverteu’ uma lógica estabelecida, achando soluções sempre criativas para aquela ‘novidade’. Suas claves rítmicas inovadoras e desafiadoras, sua música essencialmente escrita e suas melodias, assim no plural, pois todas as vozes ‘carregam uma história própria’, como ele costumava me dizer, fazem dele um farol que vem iluminando caminhos. O meu desde sempre”, complementa Teco.
Centenário festejado
Programação do Sesc São Paulo celebra obra de Moacir Santos

Ao longo de 2026, o Sesc São Paulo destaca o centenário de Moacir Santos em diferentes atividades, reconhecendo um dos grandes compositores, arranjadores e maestros da música brasileira.
Um dos destaques é programação do Instrumental Sesc Brasil dedicada à obra do artista. Realizada pelo SescTV no Sesc Consolação, as apresentações estão disponíveis na plataforma Sesc Digital. A homenagem contou com a Jazzmin’s Big Band, conjunto feminino que realizou o espetáculo Para Moacir, seguida pelo Alexandre Vianna Trio, que revisitou o clássico álbum Coisas sob uma perspectiva contemporânea, ao lançar o álbum Coisas de Moacir (2025). O grupo Mestre Negro também prestou tributo ao maestro, valorizando sua escrita musical e as conexões entre o jazz e as matrizes afro-brasileiras. A programação seguiu com Andrea Ernest Dias Quarteto, no espetáculo Uma Roda para Moacir Santos, que amplia o diálogo entre a obra do compositor e outros nomes fundamentais da cultura brasileira, e se encerrou com Allan Abadia, em Coisas Supremas, apresentação que aproxima o universo criativo de Moacir Santos e John Coltrane, a partir de dois discos emblemáticos lançados em 1965. Disponível em sesc.tv/instrumental
O Selo Sesc também reúne registros que evidenciam a presença de Moacir Santos na música brasileira. Entre eles está Sessões Selo Sesc #7: João Donato + Projeto Coisa Fina, disponível nas plataformas digitais. O encontro aproxima diferentes gerações de músicos por meio de um repertório marcado pelo legado do maestro. Lançado em mídia física, o álbum Coisa Fina, da big band paulistana Projeto Coisa Fina, dedicado à obra de importantes compositores brasileiros, também reverencia a obra de Moacir Santos. Acesse em sescsp.org.br/selosesc
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