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Será que alguém vai ler esse texto?

|Texto 4 | versão 3 | final | 01/nov|

Esse é um meta-texto, ou um texto sobre o texto que eu escrevo. Texto sobre os textos que nós escrevemos. E sobre todas as tentativas escritas e descartadas antes deste texto que você lê agora.

Dentro do projeto Cenas Centrífugas - Entreato, realizado pelo Sesc Santo André, o NED - Núcleo de Experimentos em Dramaturgia foi convidado a conduzir um Ateliê de Criação Compartilhada, junto aos grupos Cia do Flores, Cia do Tijolo e Coletivo Menelão. O coletivo NED é formado por quatro mulheres trabalhadoras do teatro, que nesta iniciativa se dedicam à pesquisa e escrita de dramaturgia contemporânea.

Um Ateliê Compartilhado é um espaço de criação e experimentação cênica, local de exercer a prática do fazer teatral - sala de ensaio (online) co-habitada por esses três grupos e mediada por nós, o quarto grupo participante, que tem como objeto de trabalho a dramaturgia. Quando compreendemos a natureza da experiência que estamos sendo convidadas a mediar, torna-se evidente a expectativa de criação colaborativa, por um lado. Porém, por outro lado, como realizar isso a partir do nosso viés de pesquisa, a dramaturgia, justamente sabendo que este não será um processo que nasce a partir do texto escrito? Qual a singularidade de um processo que é mediado/conduzido por quatro dramaturgas, sem que o foco do trabalho seja textocêntrico?

O processo começa, então, antes de começar - começamos as conversas e planejamentos entre nós antes que os encontros se iniciem - tentando compreender internamente quais procedimentos podemos propor para a pesquisa, qual o tipo de mediação que temos interesse em realizar, como ao mesmo tempo conduzir um experimento cênico e nos colocar em prática de escrita. Estabelecemos outro processo, o nosso, dentro do processo compartilhado, e caminhamos duplamente. É processo dentro do processo, assim como este, texto dentro de texto. É tentativa de trilhar caminhos para aquilo que nunca se fez, ou que nunca fizemos nós.

Em conversa prévia, em comum acordo entre os grupos, propusemos que o processo criativo do Ateliê gerasse material cênico (ou cênico em vídeo?) que fosse potencial para uma cápsula do tempo - lançada por nós agora e recebida e revisitada por nós mesmos no próximo ano, se tudo der certo, presencialmente. Então, começamos assim: no primeiro encontro os grupos trouxeram materiais provocadores, disparadores para o início do processo criativo: poemas, ideias, memórias, depoimentos. O ponto de partida tornou-se o compartilhar do sentimento presente, das dúvidas e suposições inéditas que vivenciamos nesta nova realidade imposta. Junto aos materiais, os participantes trouxeram perguntas norteadoras, que pretendemos responder juntes durante o processo. À estas perguntas, respondemos com textos, que foram enviados aos participantes antes do encontro seguinte, para que selecionassem trechos que gostariam de experimentar. Como resposta aos textos, experimentos em vídeo. Como resposta aos vídeos, outro texto agora.

Perguntas disparam textos, que disparam cenas, que disparam outros textos, que disparam outras cenas, e o resto não sabemos ainda. Ou: cenas respondem a textos, que respondem a cenas, que respondem a textos, que respondem às perguntas iniciais. Porque todo material é disparador e resposta, ao mesmo tempo, em retroalimentação.

Compartilhamos, aqui, alguns pequenos trechos que ilustram este processo…

 

Pergunta recebida:
Como eu tenho certeza que a minha realidade é a realidade?


Trecho do texto criado:
O chão é concreto e o fato de sentir meus pés pisarem nele é o que ainda me faz ter certeza de que tudo isso aqui é real. E é apenas isso. Mas o que realmente me preocupa neste momento é essa fenda que se abre, veloz, e que nos separa definitivamente. Dizem que foi assim, no início, quando tudo ainda era Pangeia.

E parece que está acontecendo de novo.
Então não temos tempo a perder.
Ei, me parece que se não tomarmos alguma atitude agora, essa fenda se alargará e não seremos capazes de nos encontrar nunca mais. Nunca mais, sabe? Eu sei, nunca mais é muito forte, mas precisamos de sua urgência para que nos movamos. Pula pra cá, pula! 


Pergunta recebida:
O que é que a gente precisa esquecer pra continuar vivendo?


Trecho do texto criado:
É consciência estômago. Apartamento estômago. Cidade estômago. A gente sempre sendo digerida em massa. Aí eu fujo mesmo, tento me esquivar, me esconder, tento passar ilesa, mas me leso toda. É tudo lesão que não passa, ferida que não seca, pele morta que não sai de mim. Eu preciso esquecer de mim! Pelo menos um pouco. Será que é possível sentir outra dor que não a minha, outra ansiedade que não a minha, outra obsessão, outro pesar, outra palpitação, outra irritação, outro sonhar, outro pulsar, outro respirar, outro arder, outro ar, será que é possível me afogar no outro ainda? Eu vejo minhas veias saltadas, escancaradas, vejo meu tempo, meus músculos, meu tempo, o fluido da minha bile, meu tempo, meu tempo, meus ossos, meu tempo, minhas células, meu tempo, meu tempo, meu tempo… É tudo temporal. Temporário. Overdose acidental de mim mesma.

 

Pergunta recebida:
Qual a solidão de estar vivo numa vida que já morreu?


Trecho do texto criado:

Um corpo nu!

Um saco impermeável. Um metro e meio de distância.

Sua história por estes olhos, vai partir num corpo nu… Você está na lista dos que vão existir na solidão de estar viva numa vida que já morreu. É o que diz aqui, nesta folha amarela.

“Não podemos prescrever ansiolíticos, mas podemos dopá-la e quando você acordar nada mais disso estará acontecendo. Fica à sua escolha, criar ou não memória de hoje!”

Diz uma voz distante. Quase um eco que vem de longe.

Sinto a estranheza de lugares deixados pra trás. Seguro a folha amarela: Visto-me de astronauta e vejo a menina que eu fui, a mulher que eu sou e as narrativas contadas sobre mim, irem embora junto a uma série de protocolos.

Minha história está morrendo antes de mim e eu não fui capaz de impedir.



Pergunta recebida:
Quantas vezes você também pensou não estar aqui?


Trecho do texto criado:

A minha única certeza é a de que amanhã, às sete, eu preciso apertar aquele botão e fazer a sereia apitar. Mais café.

Eu já pensei em não estar aqui. Já pensei em tomar doses homeopáticas de sumiço. No modo presencial eu pensava em fugir por um dia. Depois de uns meses, por dois. Até que finalmente desaparecia por uma semana. Neste modelo online tenho pensado seriamente em não aparecer em algumas reuniões. Até me desligar um dia inteiro. Dois. Até que, de tão ausente, eu não seja mais lembrada.

Meu desejo de não estar aqui sempre entrou em conflito com as minhas possibilidades de permanecer. Quem acordará essa cidade?

Acabo de perceber que a flor amarela do Ipê nasceu. Então é setembro. Eu perdi a noção do tempo!

Esses trechos apresentados compõem textos maiores que nesta primeira rodada de escrita foram desenvolvidos individualmente por cada dramaturga do NED. A relação direta entre as perguntas levadas e os textos escritos não foi, porém, apresentada aos participantes. Mesmo que um texto tenha sido escrito a partir de uma pergunta específica, ele pode ser fruído peles participantes de forma autônoma. Cada participante pode construir suas pontes entre os materiais apresentados. Outro ingrediente que não revelamos é quem escreveu qual texto - é tentativa nossa de experimentar essa possibilidade de escrita compartilhada e, portanto, a apresentação de um material que represente o coletivo, e não cada dramaturga individualmente.

Mas, para além do material textual levado ao Ateliê de compartilhamento, há, neste outro processo interno, o processo dentro do processo, tantos outros materiais criados - tentativas que abandonamos pela metade, escritos que experimentamos e compreendemos não se encaixar, ruas sem saída, atalhos que nos desviam, estradas que nos levam a lugar nenhum, voltas sem sair do lugar. É um certo tatear no escuro, tentando encontrar direção. Como um coletivo que volta sua pesquisa à escrita da dramaturgia, nossa relação com os textos criados se torna intensa e imersiva. Muitos ajustes, reescritas, sugestões, questionamentos, muitas versões de cada texto antes do compartilhamento.

- O que você quer dizer com esta frase?

- Quem está dizendo este texto?

- Eu não sei como expressar essa ideia.

- Por que você não tenta reescrever isso sob outro ponto de vista?

- Eu acho que meu texto não responde à essa pergunta.

- Como essa metáfora se relaciona ao tema?

Um texto, quando usado como disparador à criação cênica, não precisa necessariamente ser material de investigação ou análise profunda. As primeiras leituras já são, muitas vezes, propulsoras de sensações e impressões, já possibilitam ideias e inspirações que podem ser testadas em cena (ou em vídeo). Temos consciência de que as textualidades criadas por nós são materiais-ponte, materiais temporários, parte do processo colaborativo, materiais permeáveis e permeados por outras criações; não finalidades. Ainda assim, no processo dentro do processo, esses questionamentos fazem nossa escrita individual mais potente, mais coesa.

Seguimos então, na pesquisa, na tentativa-erro-tentativa, tentando dosar os pesos e dispêndios de tempo e esforço entre os dois processos em paralelo, nos arriscando entre os trilhos da condução e criação concomitantes - se nos mantivermos atentas em escuta e olhar, o trem que corre não nos atropela.
 

Carina Murias
NED - Núcleo de Experimentos em Dramaturgia

 


_______________

ATELIÊ COLETIVO ONLINE: RELATOS

O texto que você acaba de ler integra a programação do projeto Cenas Centrífugas: Entreato.

Enquanto a segunda edição do projeto Cenas Centrífugas permanece suspensa por conta da pandemia causada pela Covid-19, os grupos convidados se encontram para refletir sobre o teatro no contexto atual e para experimentar possibilidades do fazer teatral no meio digital.

Por meio de relatos textuais, o NED (Núcleo de Experimentos em Dramaturgia) apresenta para o público perspectivas sobre a experiência de realização do Ateliê Coletivo Online. Ao longo dos dois meses de encontros, o Núcleo, que orientará a Cia. do Flores, a Cia. do Tijolo e o Coletivo MENELÃO, produzirá semanalmente um relato sobre essa aventura cênica no campo digital.

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