
Consagrada nos palcos e nas telas, atriz relembra cenas de sua história e compartilha sua busca por entender o mistério do mundo
POR MARCEL VERRUMO
FOTOS NILTON FUKUDA
Leia a edição de julho de 2026 na íntegra
Nascida em 1940, em Ribeirão Preto (SP), a atriz Walderez de Barros revela ter se aproximado das artes ainda na escola, por meio da declamação de poesia. A atividade a fez perceber que, mesmo tímida, era capaz de emocionar plateias. Começou a nutrir um apreço pela palavra e, do consequente contato com a literatura, a tentar entender o que chama de “mistério do mundo”. Mudou-se para a capital para estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), curso que não concluiu, mas a aproximou de movimentos artísticos e políticos.
Transformou a arte da declamação em matéria-prima para a atuação. Participou de montagens teatrais como Abajur lilás (Plínio Marcos, 1980) e Madame Blavatsky (Plínio Marcos, 1985). Dos teatros, conquistou espaço na televisão, em telenovelas clássicas, como Beto Rockfeller (Tupi, 1968-1969) e O rei do gado (TV Globo, 1996-1997). Também fez cinema e, recentemente, produções para plataformas de streaming.
Em 2026, a atriz subiu aos palcos para encenar Medea, de Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), com direção de Gabriel Villela, em montagem apresentada no Teatro Anchieta do Sesc Consolação. Nesse teatro, em 1997, protagonizou outra encenação de Medeia, a de Eurípides, com direção de Jorge Takla. Neste Depoimento, realizado em março, em São Paulo, ela relembra cenas de sua história.
infância
Ainda não havia companhias teatrais que viajavam com frequência para Ribeirão Preto, minha cidade natal, e se apresentavam na cidade. Nós também éramos pobres. Mesmo que alguma companhia se apresentasse, eu não iria, porque não tinha dinheiro para o ingresso. O que fez eu me aproximar daquilo que pode ser uma atividade teatral, digamos assim, foi a declamação de poesias. A professora mandou escolher uma poesia para declamar no colégio no Dia das Mães. Eu decorei, declamei e todo mundo começou a chorar. Foi um escândalo. Eu era doentiamente tímida e, no entanto, percebi que conseguia declamar poesia. O diretor da escola me apadrinhou, me colocou para estudar declamação com uma poetisa da cidade. Mas o principal professor que eu tive foi o avô Gouveia. Na verdade, ele não era avô de sangue, mas foi a figura mais importante da minha infância. Ele era um sapateiro, romântico e espírita. E gostava de poesia. Eu nem sabia ler, nem escrever, nada. Eu ia lá, me sentava e ele lia os poemas. Eu não entendia nada, mas achava maravilhoso. Aquela declamação ficou gravada em mim. Depois de muito tempo, eu percebi que quem me ensinou como dizer cada palavra, a articular uma frase corretamente, foi o avô Gouveia.
mudança
Cresci e queria continuar estudando. Em Ribeirão, só tinha faculdade de Medicina e Odontologia. As minhas amigas vieram prestar o vestibular [em São Paulo], mas eu não tinha condição. Meus pais resolveram vir para cá, botaram a mala nas costas e se mudaram. Veja bem, não foi uma mudança qualquer. Meu pai saiu da rua onde ele nasceu, onde viveu a vida inteira, onde os amigos estavam. Ribeirão é uma cidade do interior, nós morávamos em um bairro sossegado e, de repente, eles vieram para São Paulo para os filhos poderem estudar. Quando percebi quem eram os meus pais, senti orgulho de ser filha dos dois. Até hoje, sinto. Herdei deles algo que eles e os meus avós tinham: o humanismo, aquilo que é próprio do ser humano. Ser humanista é ser verdadeiramente humano. Depois disso, eu tinha um dever, pelas circunstâncias do sacrifício dos dois, de ser aprovada no vestibular. E entrei em primeiro lugar no curso de Filosofia na USP.
faculdade
Cheguei em São Paulo e conheci a vida. Trabalhava durante o dia e fazia a faculdade à noite. Fui fazer Filosofia, queria descobrir o mistério do mundo. Cheguei na faculdade e passei a ficar irritada: o professor dava aula como no clássico, ditando o ponto. Me desiludi completamente. Também sempre me interessei por política e foi um choque. Eu era uma menina romântica que caiu de paraquedas na Maria Antônia [rua onde funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e que foi espaço de confrontos estudantis durante a ditadura militar], onde estava se construindo uma revolução [início da década de 1960]. Junto com isso, minha mãe teve câncer e tive que ajudá-la. A política estava tomando contornos mais violentos e eu não queria entrar nessa, porque estava cuidando da minha mãe. Conheci o teatro que não conhecia, novos filmes. Também conheci o Plínio [dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999)] e íamos nos casar. Foi tudo junto. A faculdade, de repente, não era mais a minha ambição. Fui explicar para o meu pai e para minha mãe que achava que eu tinha uma dívida com eles, mas precisava de dinheiro e por isso ia trabalhar, trancar a faculdade. Mas nunca voltei.
carreira
Conheci o [diretor e dramaturgo] Fauzi Arap (1938-2013), através de uma amiga, e comecei a atuar no CPC, o Centro Popular de Cultura [movimento artístico ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE)]. Também fazia parte do núcleo de teatro da faculdade de Filosofia. Comecei a atuar sem saber o que era exatamente o teatro. Tudo era novo. Eu não sabia nem como se ensaiava. Depois, conheci o [ator e diretor] Eugênio Kusnet (1898-1975). Não fiz o curso dele regularmente por tanto tempo, porque precisava trabalhar em uma editora. Mas às vezes dava para eu assistir às aulas do Kusnet, quando ele estava no [Teatro de] Arena, por exemplo, dando um curso que era mais tarde. Eu saía do trabalho e ia correndo para lá. Com o Kusnet, entendi que pode haver uma técnica de interpretação. Dessa época até hoje, ainda não sei o que o teatro significa para mim. Não gosto de definição, porque elas são limitantes.

Se você é uma atriz ou um ator, o mundo te pertence. Mas você tem que prestar atenção em tudo, tem que ler muito, ler ficção, ver filmes. Você tem que conhecer, principalmente, os grandes autores, atores, diretores. Ter bagagem cultural é tão importante quanto fazer um curso técnico.
televisão
Havia um preconceito idiota e brutal contra a televisão, que estava surgindo. Tudo era muito doméstico. Era um preconceito que também existe em relação a outras expressões de entretenimento. Se você fizer uma peça ou um filme que seja mais entretenimento, terá que lidar com preconceito. É preciso entender que a televisão trabalha horizontalmente, você fala para milhões de pessoas. O teatro e o cinema trabalham verticalmente. Até dá para fazer Medea na televisão, mas não do jeito que estamos fazendo [na temporada no teatro]. Agora, a gente pode contar essa história na televisão, porque mais pessoas vão ficar sabendo quem são Medeia e Jasão. Nós podemos contar essas histórias na televisão para construir mais repertório. Mas o que havia e o que há ainda é uma cobrança errada, de cobrar da televisão o que é feito em teatro, que não é próprio dela. Hoje, acho que já não tem mais, já perceberam que é besteira isso, principalmente com as séries. A série possibilita inclusive fazer grandes obras. Eu mesma fiz.
aprendizado
Se você é uma atriz ou um ator, o mundo te pertence. Mas você tem que prestar atenção em tudo, tem que ler muito, ler ficção, ver filmes. Você tem que conhecer, principalmente, os grandes autores, atores, diretores. Ter bagagem cultural é tão importante quanto fazer um curso técnico. Eu, durante a pandemia, fiquei assistindo aos vídeos das encenações da Comédie-française, que tinham sido disponibilizados para o público em geral. A Comédie, uma companhia estatal, mantém permanentemente atores e atrizes contratados. Ó maravilha! Mesmo não entendendo muito bem o francês, eu prestava atenção nos detalhes das encenações e, principalmente, me deleitava com as interpretações do precioso elenco. Foi um grande aprendizado. Também é preciso observar a realidade. Às vezes, fico prestando atenção em cenas e objetos do cotidiano. Por exemplo, nesses dias, São Paulo renasceu com as árvores. Eu sou capaz de parar o carro para ficar olhando uma árvore, observar a diferença dos verdes, criar histórias com cada uma delas e imaginar suas personalidades. Isso é algo que eu faço com frequência. Também não concebo um ator ou uma atriz que não esteja acompanhando as guerras, por exemplo, quem fala que não gosta de política. Não é sobre gostar de política. Você tem que conhecer o mundo. Como é que você vai fazer um papel, seja lá de que peça for, se não conhecer o mundo? Você tem que ter um repertório muito grande.
teatro
Ontem, vivi um momento em que a minha vaidade se manifestou. Eu fiz a cena [em Medea, no Sesc Consolação]. Sacanamente, termino cada apresentação, tiro os óculos e me curvo em direção à plateia. Claro que eu estou chamando palmas e vão me aplaudir. Até ontem, pelo menos, não deixaram de aplaudir, o que eu achei muito bom. Mas, ontem, me aplaudiram de pé. Me aplaudiram tanto e não queriam me largar. São momentos de teatro. E, ontem, foi uma noite em que comecei a cena muito mal, não engrenava. Mas pensei: “aqui é meu território, eu vou virar o jogo.” E virei. Isso é empenho, é uma força que você não sabe de onde vem. É algo que não dá para explicar. Foi muito bonito observar a força do pensamento, do desejo pela mudança, da vontade. Isso é teatro, não é outra arte. É algo que só teatro pode fazer, porque tem um ser humano no palco. O teatro é algo que não dá para entender, não dá para verbalizar, muito menos definir.
Assista a trechos desse Depoimento com a atriz Walderez de Barros, realizado em março, em São Paulo.
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