
POR ANGÉLICA FREITAS
ILUSTRAÇÕES LULI PENNA
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
minha cama, para tracy emin
esta vida não aceita devoluções
o que explica tantas mães fumando na chuva
os lençóis não me enganam
e podem ser lama, onda, nuvem
podem ser teresas
eu aqui enfurnada numa fronha
é domingo eu me engasgo de emoção
crio monstros debaixo do estrado
jogo uma pantufa aos tubarões
vou pulando num pé só até o banheiro
com promessas de voltar ao cobertor
não sou mais adolescente mas quem
vai ouvir de novo hand in glove
abrir o youtube é uma pá de cal na manhã
lil nas x rebolando pink panther
a gata pula no meu colo e pede atenção
eu dou atenção, dou toda a minha atenção
agora se esta cama de compensado e isopor
estes lençóis de taciturnos microplásticos
me instarem a sair, a pegar um ônibus
subir a heitor, descer a consolação
comprar um lápis, comer um bolo sesc
quem precisa dar mais motivo às árvores
que esgarçam os fios de alta tensão
os fones de ouvido me emprestam ana frango
vamos até o fim desse tobogã
a gata salvou a pantufa, talvez também o planeta
atirando o dicionário aos tubarões
e o telefone diurno ecoa trim trim
e as backing vocals fazem doo doo doo doo doo

wittgenstein em etapas
como poderemos saber o que é wittgenstein
num ônibus lotado que sai do terminal lapa
e cruza o alto de pinheiros com trabalhadores
que mal podem filosofar empapuçados
de podcasts sobre empreendedorismo:
delegar não é crime e alguns corpos têm mais músculo
outros mais dinheiro. você não é bobo nem nada.
se os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem
gemidos e queixumes nunca vão sair do bairro
onde ninguém me entende nem de fato nem bermudas
mas aceitam que a terra é redonda por questão de circunferência.
a homofobia grassa nas plataformas de embarque
mas não o ódio de classe, pois a educação financeira
eleva todos além do gay e da mulher de cabelos curtos
que a princípio não abre as pernas.
ludwig teve um dia duro mas retorna à guaicurus
onde segue num saco do sonda pra cohab taipas
isto é minha linguagem, um pescotapa em quem dormia
de boca aberta até o ponto final do ônibus:
não há razão para acreditar em revolta popular
nem na sobrelotação das bibliotecas de bairro.

equívocos
um silêncio matinal que durou pouco
interrompido pelos gritos de um corvo
não era um corvo, era uma serra elétrica
no prédio em construção aqui ao lado
não, era na casa dos javaporcos
que aleijavam carteiros e matavam gatos.
eu procurava as mangas de um suéter verde-água
e minha mulher me disse: você fica lindo
nesse poncho peruano cor de estábulo
não quis discutir, mas ela claro se ofendeu
um homem feio deve aceitar elogios.
já no carro, garagem aberta, dei passagem
a uma velha que passeava um pequinês
quase cega, muito lenta, arrastada
portão adentro pelo cão ao meu veículo
farejava, inofensiva — não sei por que
grunhi bem alto, corvo, serra, javaporco
verde-água, e a intrusa morreu de equívocos.
Angélica Freitas (Pelotas, 1973) é poeta. Publicou, entre outros, Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2012; Companhia das Letras, 2017), título apontado no livro Explosão Feminista (org. Heloísa Teixeira, Companhia das Letras, 2018) como referência para a nova geração de poetas brasileiras. A obra recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 2013. Seu trabalho mais recente é Mostra Monstra (Círculo de Poemas/Fósforo, 2025), uma plaquete de desenhos e poemas.
Luli Penna (São Paulo, 1965) é ilustradora e cartunista. É formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou o mestrado em Literatura Brasileira. Desenha desde a infância e adolescência, e já publicou ilustrações e cartuns em diversos jornais e revistas, como na Folha de S. Paulo, e criou suas próprias histórias em quadrinhos. Autora da novela gráfica Sem Dó (Todavia, 2017).
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