
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
— Oi, João… Tá me ouvindo?
Você ainda não me conhece, apesar de morar dentro de mim. Prazer, sou sua mãe.
Enquanto escrevo este texto, você cresce lindamente aí, no quentinho, recebendo tudo de que precisa por esse cordão. Que responsabilidade a minha.
Seu irmão Pedro, que está aqui do lado de fora, acabou de pedir uma banana. Engraçado… Ontem ele dizia que não gostava mais de banana. O brócolis também já foi herói, já foi vilão e, provavelmente, ainda vai mudar de papel muitas vezes. Acredita que, até outro dia, ele engatinhava arrastando uma metade de laranja em cada mão e ia “encerando a casa” com o suco que escorria pelos dedos? Baguncinha regada à conexão com a comida.
Você cresce ligado a um cordão. Ele cresce aprendendo, todos os dias, a usar uma colher. Afinal, ainda nem completou dois anos. Tem muita estrada pela frente.
Tem uma coisa que você ainda não sabe: sua mãe é nutricionista. Passo boa parte do meu dia falando sobre alimentação, incentivando hábitos saudáveis e pensando em como garantir que outras pessoas tenham acesso à comida de verdade. Achei que, por causa disso, dentro de casa tudo seria mais simples. Não foi. Logo descobri que alimentar uma criança é muito mais do que oferecer nutrientes. É construir vínculo.
Amamentando seu irmão, chorei em muitos momentos. Houve peito machucado, culpa, insegurança e medo. Mas o papai estava ali. Sim, você tem um pai maravilhoso. Enquanto eu alimentava o Pedro, ele alimentava a mim. Às vezes, com um prato de comida. Outras, com coragem. E isso alimenta duas vezes.
Hoje reconheço que essa foi a minha história. Eu tive quem me alimentasse enquanto alimentava seu irmão. Nem todas as mães têm essa sorte. Algumas criam seus filhos sozinhas. Outras precisam voltar ao trabalho quando o bebê ainda caberia inteiro no colo.
— Mas, mãe… Será que eu também vou gostar de banana?
Filho, daqui a alguns meses vai chegar a sua vez de mamar. Durante um tempo, o leite será tudo de que você precisa. Depois, quando estiver pronto, vai descobrir um mundo inteiro de sabores, texturas, aromas e cores. Vai amassar comida com as mãos, jogar pedaços no chão, fazer caretas e, aos poucos, encontrar seus alimentos preferidos.
Foi assim que entendi que a introdução alimentar começa muito antes da primeira colherada. Ela começa quando existe tempo para cuidar. Quando uma mãe encontra apoio para amamentar. Quando um bebê é recebido por braços, olhares e afeto. Quando há uma rede sustentando quem sustenta uma vida.
Mal posso esperar para acompanhar suas descobertas. Vou tentar me preocupar menos com a quantidade que você come e mais com a relação que vai construir com a comida. Comer também é uma descoberta.
João, acho que já contei demais sobre o que vem pela frente. No fundo, tudo isso era para dizer apenas uma coisa: nós vamos errar. Vamos aprender. Vamos recomeçar quantas vezes for preciso. E faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que você e o Pedro cresçam nutridos — de alimento e de afeto.
Foi com vocês dois que entendi que ninguém cresce — nem se nutre — sozinho.
Lilian Rocha é formada em Nutrição pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Atua como coordenadora no Sesc Mesa Brasil no Sesc Campinas.
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