
Gabriela Sousa de Queiroz, diretora técnica da Cinemateca Brasileira, relata os desafios da gestão da instituição e da preservação do legado audiovisual no país
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR ALEXANDRE RAITH
FOTOS NILTON FUKUDA
Um filme sobre a história da Cinemateca Brasileira pode ser montado a partir das memórias de Gabriela Sousa de Queiroz. Desde o primeiro ano da graduação em História, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Gabriela trabalhou com arquivos e acervos históricos, tendo em vista a preservação e difusão da memória. Em 2004, já graduada, ingressou como voluntária na Cinemateca e passou a dedicar suas pesquisas ao campo audiovisual. Com especialização em Arquivologia e em Gestão Cultural, assumiu a coordenação do Centro de Documentação e Pesquisa, entre 2013 e 2020, e foi nomeada diretora técnica da instituição em 2021.
Localizada na Vila Clementino, zona Sul de São Paulo, a Cinemateca reúne o maior acervo de filmes da América do Sul. Busca não só restaurar, preservar e exibir, mas manter viva a memória da produção audiovisual. Sua história se confunde com os enredos emocionantes e sinuosos que caracterizam o setor no país. Da mesma forma, reflete os avanços e os retrocessos das nossas políticas culturais.
“Nesse ano, a Cinemateca faz 80 anos. Estou na instituição há 22 e, como tenho 44, passei metade da minha vida aqui. Vi momentos de grande impulsionamento, nos quais ela se posicionou como uma das melhores instituições do seu campo de atuação, não só no Brasil. Também vivenciei cortes abruptos”, afirma. “Isso define a sua característica principal: a resiliência. É algo que, de certa forma, contamina positivamente todas as gerações que passaram por aqui.”
Neste Encontros, Gabriela conta a sua trajetória na instituição, além de refletir sobre a luta para a preservação da memória audiovisual, os desafios na gestão de um espaço cultural, as transformações na indústria cinematográfica e o momento atual do cinema brasileiro.
PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL
Em 2004, quando voltava de Assis para São Paulo, encontrei por acaso no ônibus meu orientador da graduação. Ele falou que um pessoal estava fazendo estágio na Cinemateca Brasileira e perguntou se isso me interessava. Em fevereiro, comecei a trabalhar como voluntária na instituição e, desde então, se passaram 22 anos em que me dedico à preservação audiovisual. Iniciei minha carreira no Centro de Documentação e Pesquisa, que é o acervo das produções audiovisuais, dos movimentos cinematográficos, ou seja, dos documentos de arquivos pessoais, institucionais e de produção historiográfica. Esse trabalho voluntário que comecei a desenvolver na Cinemateca reforçou o caminho que já estava tentando pavimentar, de trabalhar em instituições de memória. Também lecionei História por seis anos, mas decidi consolidar minha carreira no campo da preservação audiovisual.
AVANÇOS E RECUOS
A Cinemateca começou um processo de impulsionamento em 2004, executando a segunda fase do projeto de restauração dos seus galpões. Entre 2008 e 2012, houve uma série de investimentos do governo federal e desafios para as instituições culturais, como a questão da cultura digital e dos acervos na internet. O Plano Nacional de Cultura, em 2010, foi lançado com metas audaciosas. Nesse período, a Cinemateca cresceu e chegou a ter 150 profissionais, se destacando entre as principais do mundo dentro da Federação Internacional de Arquivos de Filmes. Então, veio a crise de 2013, que durou pelo menos uma década, quando a gestão foi interrompida de forma abrupta. Foi um processo de estrangulamento material e político da instituição.
TRAGÉDIA ANUNCIADA
Em 2020, os profissionais foram desligados. Ficamos um ano e meio fora da instituição. Restaram 60 funcionários, técnicos especializados para dar conta do acervo documental, das atividades de conservação e da coleção audiovisual. Depois, vivenciamos uma tragédia no começo da pandemia, uma enchente na Vila Leopoldina [bairro de São Paulo onde havia um galpão com parte do acervo]. Em seguida, vieram o confinamento e o corte dos salários. A solução que o governo federal deu foi a de assumir a Cinemateca. Restaram, basicamente, os serviços de limpeza e manutenção, sem nenhum técnico especializado. A tragédia anunciada foi um incêndio de 2021, no período desse fechamento.
RENASCER DAS CINZAS
Depois do incêndio, o governo federal publicou um edital para a seleção de uma nova organização social [para administrar a instituição em conjunto com a então Secretaria Especial de Cultura, do Ministério do Turismo]. Participei da elaboração desse plano de trabalho para a Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC). Vencemos o edital e cá estamos nesses cinco anos, recuperando cada uma das áreas. A gente voltou com a missão de reconstruir a Cinemateca para devolvê-la na sua plenitude para a sociedade, como espaço de fruição cultural, de preservação de memória, em um lugar de lazer para a população.

“Se você esquecer essa geração que está aqui e não oferecer a ela aquilo que só a Cinemateca tem, não há formação de uma futura geração. A futura geração começa a ser construída agora.”
OBRAS DIGITALIZADAS
Para garantir a reprodutibilidade das obras, o Laboratório de Imagem e Som foi constituído em 1976, quando a Cinemateca começou a adquirir equipamentos, com uma visão estratégica de futuro, para ter autonomia técnica nos processos de duplicação, copiagem e restauração do seu acervo. O laboratório mantém o fluxo fotoquímico. No começo dos anos 2000, também teve início um programa ativo de digitalização de obras para aumentar os acessos. O Banco de Conteúdo Culturais é o repositório onde colocamos os resultados desses nossos processos de digitalização.
ACERVO REUNIDO
O Centro de Documentação e Pesquisa da Cinemateca conta com mais de um milhão de documentos públicos e privados de interesse público. A biblioteca é o maior centro de referência para pesquisa sobre o audiovisual no país, reunido desde o final dos anos 1940. Temos o arquivo do [escritor e crítico de cinema] Paulo Emilio Sales Gomes (1916-1977), que foi doado pela [escritora e ex-esposa] Lygia Fagundes Telles (1918-2022) nos anos 1970, e contempla toda a produção intelectual dele, sua biblioteca pessoal e as correspondências que evidenciam sua rede de sociabilidade. Temos, ainda, o arquivo do [cineasta] Glauber Rocha (1939-1981), com os roteiros originais de Deus e o Diabo na terra do sol (1964) e O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro (1969), [dos estúdios] Vera Cruz e Atlântida, os dois grandes primeiros modelos de cinema industrial no país. É um conjunto de registros materiais que orbitam a produção de uma obra audiovisual.
CORAÇÃO AUDIOVISUAL
A preservação de filmes é o coração da instituição. São mais de 250 mil rolos em película. O mais antigo remonta a 1909, um registro documental da inauguração da Igreja de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A obra ficcional mais antiga também é do Sul, Óculos do vovô, que são fragmentos de 1913. Temos toda a coleção em acetato de celulose, que é o suporte seguinte ao nitrato, poliéster, 8, super 8, 96, 16 e 35 milímetros. Então, todos os formatos originais de película. Uma grande coleção de materiais em vídeo e natos digitais ou provenientes de processos de digitalização. A característica da obra audiovisual é a reprodutibilidade técnica. A sua preservação e a sua sobrevivência passam por esse conceito.
PASSADO E FUTURO
A área de difusão de filmes da Cinemateca propõe um recorte 100% brasileiro ou que tenha intersecções de uma filmografia nacional com uma estrangeira. Há obras e atividades que só uma Cinemateca pode oferecer, que são recortes históricos qualificados em diálogo com o tempo do agora. Alcançamos um público de estudantes de cinema até os cinéfilos mais velhos. Temos uma média de 74 mil pessoas para sessões de cinema [por ano]. Somando às atividades de lazer e pesquisa, atingimos cerca de 200 mil pessoas no período. Algo que defendo no dia a dia é que a preservação começa agora, também por meio da difusão contínua de obras audiovisuais. Se você esquecer essa geração que está aqui e não oferecer a ela aquilo que só a Cinemateca tem, não há formação de uma futura geração. A futura geração começa a ser construída agora.
A diretora técnica da Cinemateca Brasileira, Gabriela Sousa de Queiroz, esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 23 de junho. A mediação do bate-papo foi de Fabricio Ribeiro, pesquisador de acervo no Sesc Memórias.
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