
Álbuns e artistas hoje cultuados foram lançados por gravadoras independentes, que contribuíram para eternizar a riqueza da música brasileira
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR LUCAS NOBILE
FOTOS ARQUIVO NACIONAL CORREIO DA MANHÃ
Quando Marcus Flávio Pereira (1930-1981) decidiu, em dezembro de 1973, fechar sua agência de publicidade e transformá-la em uma gravadora de discos, passou, segundo ele, da condição de “publicitário sofredor” para a de “produtor esperançoso”. Empresário, homem de negócios e, ao mesmo tempo, um idealista, manteve a esperança por pouco mais de sete anos, quando faleceu. Passados 45 anos após sua morte, o legado deixado pela Discos Marcus Pereira segue valorizado e acessível ao público nas plataformas digitais de áudio.
São 144 discos de artistas de todas as regiões do país, reunindo as mais diversas manifestações culturais brasileiras. A maioria deles com uma característica em comum: recusados pelas gravadoras hegemônicas do mercado fonográfico de seu tempo, só conseguiram a oportunidade de gravar seus álbuns por um selo independente.
Rodeado por pessoas que entendiam muito de música e cultura popular – como o diretor artístico Aluízio Falcão, o produtor João Carlos Botezelli (Pelão, 1942-2021), os compositores Martinho da Vila e Theo de Barros e o professor pernambucano Hermilo Borba Filho (1917-1976) – Marcus Pereira e sua gravadora lançaram obras hoje consideradas patrimoniais. Lançado em 2018, o livro Discos Marcus Pereira: uma história musical brasileira, de André Picolotto, conta em detalhes a jornada do selo.
Por priorizar o valor artístico e documental antes de pensar em atender a demandas mercadológicas imediatistas, a atuação de Pereira e sua gravadora era tratada pela imprensa dos anos 1970 como “quixotesca”. Para a mídia da época, era utópico demais uma gravadora brasileira de pequeno porte querer arriscar fazer algo diferente aos padrões estabelecidos em um mercado fonográfico dominado por empresas multinacionais.

Lado A
A dinâmica era assim havia mais de 70 anos, ainda na chamada “Fase mecânica”, antes mesmo de as gravações elétricas serem realizadas no Brasil. Fundada em 1900 no Rio de Janeiro, a pioneira Casa Edison pertencia a Fred Figner, natural da região da Boêmia (atual República Tcheca). O predomínio das gravadoras estrangeiras em território brasileiro se estendeu ao longo de todo o século 20. Criada em 1903, a Odeon era alemã. A Columbia, de 1888, a RCA, de 1901, e a CBS, de 1938, estadunidenses. A PolyGram, de 1962, holandesa.
Além de lançar discos vindos do exterior, as grandes multinacionais (chamadas de majors) produziram álbuns históricos em solo brasileiro. Para ficar apenas na Odeon: LPs de João Gilberto (1931-2019), Dona Ivone Lara (1921-2018), Paulinho da Viola, Clementina de Jesus (1901-1987), Regional do Canhoto, Milton Nascimento, Clara Nunes (1942-1983), João Donato (1934-2023), Nelson Cavaquinho (1911-1986), Adoniran Barbosa (1910-1982), Rosinha de Valença (1941-2004) e Os Tincoãs.
Na época, as gravações eram feitas em fitas analógicas, que custavam caro, os discos eram prensados em formato físico (vinil) e chegavam ao público acompanhados por materiais gráficos, depois de passar por uma complexa cadeia de distribuição em um país de dimensões continentais. Mesmo sem o poder de financiamento comparável às multinacionais, gravadoras independentes conseguiram se projetar no cenário fonográfico e fazer história no Brasil.
Catálogos preciosos
Em gravadoras independentes, foram viabilizados os primeiros álbuns de sambistas como Cartola (1908-1980), Leci Brandão, Paulo Vanzolini (1924-2013), Donga (1889-1974), e discos de grupos como Quinteto Armorial e a Banda de Pífanos de Caruaru, de Elomar e de Canhoto da Paraíba (1926-2008), todos lançados pela Discos Marcus Pereira. A empresa também produziu séries, como a que ficou conhecida como “Mapeamento musical do Brasil” – com músicas das cinco regiões – e outra com compositores de quatro grandes escolas de samba do Rio de Janeiro (Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro).
Inúmeros outros selos de pequeno e médio porte, cada qual com um conceito, uma assinatura, uma estética única, brindaram o público com catálogos de valor imensurável. Entre 1981 e 1991, o selo Som da Gente, de Walter Santos (1939-2008) e Tereza Souza (1940-2009), teve como foco a música instrumental. Em uma década, lançou 46 discos de artistas como Hermeto Pascoal (1936-2025), Hector Costita, Heraldo do Monte e Hugo Fattoruso.
“Mais do que lançar discos, essas gravadoras exerceram um papel de curadoria cultural. Foram responsáveis por identificar artistas, preservar tradições, incentivar experimentações e registrar manifestações musicais que, muitas vezes, estavam à margem dos interesses da grande indústria fonográfica”, avalia Carla Souza Poppovic, coordenadora do projeto Acervo Som da Gente, voltado a preservar o legado do selo. “Seus catálogos constituem hoje um patrimônio documental de valor inestimável, capaz de revelar não apenas a evolução da música brasileira, mas também aspectos da história social, política e cultural do país”, diz.
Décadas antes, outras gravadoras independentes também passaram à história. Nos anos 1950, o selo Festa foi fundado para que seu criador, o diplomata Irineu Garcia (1920-1984), pudesse ouvir seus amigos declamarem poesias feitas por eles. E não eram quaisquer poetas. Muito bem relacionado, Garcia levou ao disco os brasileiros Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Vinicius de Moraes (1913-1980), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Mário Quintana (1906-1994), o chileno Pablo Neruda (1904-1973) e, também, importantes discos de autores ligados à música de concerto, como Cláudio Santoro (1919-1989) e Camargo Guarnieri (1907-1993).

A relação de proximidade entre Irineu Garcia e Vinicius de Moraes levou à gravação em 1958 de um álbum com letras do poeta, músicas de Tom Jobim (1927-1994) cantadas por Elizeth Cardoso (1920-1990). Considerado como um dos marcos iniciais da bossa nova, o LP Canção do amor demais, do selo Festa, apresentava ao mundo o violão de João Gilberto. Em 2018, o acervo do selo Festa voltou aos holofotes graças à descoberta pelo Instituto Glória ao Samba de um disco da Portela para a etiqueta de Irineu Garcia em 1959, considerada perdida por quase 50 anos.
Na década seguinte, outras duas gravadoras criaram catálogos prestigiados até hoje, não apenas no Brasil. Entre 1963 e 1968, a Elenco, de Aloysio de Oliveira (1914-1995) – com capas criadas pelo designer Cesar G. Vilella (1930-2020) e pelo fotógrafo Francisco Pereira – lançou álbuns de Nara Leão (1942-1989), Edu Lobo, Dorival Caymmi (1914-2008), Tom Jobim, Sérgio Ricardo (1932-2020), Sylvia Telles (1934-1966) e Sérgio Mendes (1941-2024).
No mesmo período, com o Brasil entrando em um regime de ditadura militar, o selo Forma, de Wadi Gebara (1937-2019) e Roberto Quartin (1943-2004), precisou de apenas dois anos para tornar-se atemporal. Entre 1964 e 1966, lançou discos cultuados, cujos exemplares originais são vendidos atualmente a cifras astronômicas. Coisas (1965), de Moacir Santos (1926-2006), Os afro-sambas de Baden e Vinicius (1966), de Baden Powell (1937-2000) e Vinicius de Moraes, chegam a valer R$ 45 mil e R$ 5.500, respectivamente.
“Essas gravadoras tiveram um papel fundamental porque apostavam na arte. E deixaram um legado. Mas o prejuízo que a Forma acumulou foi monstruoso, mal chegou a completar dois anos de atividades, e aí foi vendida pra Companhia Brasileira de Discos (depois Phonogram, depois Polygram, hoje Universal), que passou a utilizar a Forma como um selo, sem ligação com a proposta inicial”, diz Renato Vieira, autor do livro Tempo feliz, a história da gravadora Forma, lançado em 2022 pela editora Kuarup, que, por sua vez, também legou ao país um catálogo de discos de Paulo Moura (1932-2010), Turíbio Santos e Radamés Gnattali (1906-1988).
Na curta história da Forma, foram 22 LPs e mais alguns compactos. Discos memoráveis como o da trilha sonora de Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Glauber Rocha (1939-1981), e artistas como Quarteto em Cy, Sebastião Tapajós (1943-2021) e Eumir Deodato.
“As gravadoras que não eram majors tinham uma visão mais cultural do que comercial – tanto que muitas delas não se sustentaram financeiramente e tiveram o acervo comprado ou transferido. Como as majors eram quatro ou cinco, e não davam conta de gravar tudo, os selos citados apostavam no novo e no inusitado. E daí surgiam álbuns que foram definidores para a cultura brasileira, como o Canção do amor demais e Os afro-sambas. Os afro-sambas foi gravado com uísque rolando em um estúdio alagado pelas chuvas de janeiro de 1966, o que provavelmente jamais seria permitido por uma major, mas é esse clima que deu ao disco uma sensação de autenticidade. A criação era incentivada pelos chefes das independentes e estava acima de tudo”, diz Vieira.

Patrimônio musical
Em diferentes épocas e regiões, outras gravadoras deixaram catálogos tão relevantes quanto atemporais. No Rio de Janeiro, a Musidisc, de Nilo Sérgio (1921-1981), e a Tapecar, sediada em Bonsucesso, subúrbio do Rio de Janeiro, pelo espanhol Manuel “Manolo” Camero (1935-2018), e a Albatroz gravaram uma diversidade de discos: dos cocos de Bezerra da Silva (1927-2005) aos sambas do Partido em 5 e de Beth Carvalho (1946-2019), do Trio Surdina (de Garoto, Chiquinho e Fafá) aos sambas de terreiro feitos por autores da Portela e do Império Serrano. Na São Paulo dos anos 1970, a Cantagalo, de Pedro Sertanejo (1927-1997), valorizava a música nordestina. Por ela saíram, por exemplo, os primeiros álbuns de Dominguinhos (1941-2013). Na década seguinte, a Lira Paulistana abriu seus microfones para artistas como Itamar Assumpção (1949-2003) e Tetê Espíndola.
“Além das gravadoras, eu queria citar uma pessoa: Toninho Barbosa (1941-2024), técnico do estúdio Sonoviso [fundado por padres]. Foi por causa dele que, no fim dos anos 1970, muita gente conseguiu gravar de forma independente, como Antônio Adolfo, Luli e Lucina, Danilo Caymmi e Boca Livre, por exemplo. Foi nesse estúdio que os discos foram feitos, graças à generosidade do Toninho”, acrescenta Vieira. Além do pianista Antônio Adolfo, que criou o próprio selo, Artezanal, para gravar músicas suas e de outros colegas do meio musical, há o exemplo bastante lembrado de Tim Maia (1942-1998), que fundou o Seroma, pelo qual lançou a legendária série Racional.
Entre 1954 e 1984, a pernambucana Fábrica de Discos Rozenblit, do empresário José Rozenblit (1927-2016), tendo o selo Mocambo como sua marca principal, produziu, gravou e espalhou pelo país a fina flor da música nordestina e sua imensa diversidade.
“Os selos Rozenblit, Erla (de Belém), Gravodisc (São Paulo) etc. foram importantes no registro dos artistas locais. Não vejo comparativo desses selos para os dias atuais, vivemos numa era que é possível subir qualquer coisa no streaming sem custo, então não há relação. Se fosse para abordar [o panorama atual], citaria selos como Risco, Rocinante, 40% Foda/Maneirissimo e Quintavant”, diz o multi-instrumentista e produtor Kassin.
Do Rio de Janeiro, com mais de 70 lançamentos de 2014 para cá, o selo QTV (Quintavant) tem em seu catálogo respeitável álbuns de Índio da Cuíca, Negro Leo, Crizin da Z.O., Caxtrinho, Tantão e Os Fita, Juçara Marçal e Kiko Dinucci.
Outra iniciativa contemporânea que vem ganhando destaque é a Rocinante – não por acaso, nome do cavalo de Dom Quixote. Criada em 2018 pelo músico, poeta e economista Sylvio Fraga e pelo engenheiro de som Pepê Monnerat, os discos são realizados em parceria com a Três Selos e podem ser comprados avulsos ou por meio de assinatura mensal. O catálogo traz produções de Letieres Leite (1959-2021), Marcelo Galter, Ilessi e Aguidavi do Jeje.
“A importância de todas aquelas gravadoras é imensa! São desbravadoras, priorizaram a arte, deram voz a singularidades. Isso é tudo. Eu incluiria a JS, da Bahia”, diz Fraga, da Rocinante, em referência à gravadora do radialista José Santos, que lançou nos anos 1960 discos de Gilberto Gil, Batatinha (1924-1997), Alcyvando Luz (1937-1998) e Mestre Bimba (1900-1974). “A gente é totalmente alheio a qualquer coisa que não seja a aventura musical, de fazer o que a gente gosta, de se divertir fazendo e criando música. Não temos expectativas quanto à venda e popularidade. Divulgamos tudo com muito capricho, queremos ser ouvidos o máximo possível, mas não mudamos nada esteticamente. Não nos interessa o que o mercado deseja, o que o algoritmo indica”, complementa Fraga.

Diversidade musical
Selo Sesc amplifica a pluralidade da música brasileira
Criado pelo Sesc São Paulo em 2004, o Selo Sesc apresenta ao público a pluralidade e a riqueza das manifestações musicais brasileiras. Por meio de álbuns físicos e digitais, além de produções audiovisuais e uma newsletter, investe em registros raros da cultura popular e em diferentes estilos da música brasileira, de concerto, instrumental e para crianças.
Em mais de duas décadas, seu catálogo é composto por cerca de 290 produtos, entre CDs, DVDs e LPs. Em plataformas digitais, são cerca de 200 álbuns e 110 singles, que acumulam mais de 27 milhões de plays, com ouvintes de 180 países. Há obras de nomes cultuados da música brasileira, como Adoniran Barbosa, Dona Ivone Lara, João Gilberto, entre outros.
Ampliando as reflexões sobre o universo musical brasileiro, o Selo Sesc também edita a Zumbido, publicação digital na qual a música é apresentada, analisada, explicada em textos de diferentes autores, com múltiplas perspectivas.
Leia mais sobre o Selo Sesc e seus projetos em: sescsp.org.br/selosesc
A EDIÇÃO DE AGOSTO DE 2026 DA REVISTA E ESTÁ NO AR!
Para ler a versão digital da Revista E e ficar por dentro de outros conteúdos exclusivos, acesse a nossa página no Portal do Sesc ou baixe grátis o app Sesc SP no seu celular! (download disponível para aparelhos Android ou IOS).
Siga a Revista E nas redes sociais:
Instagram / Facebook / Youtube
A seguir, leia a edição de AGOSTO na íntegra. Se preferir, baixe o PDF para levar a Revista E contigo para onde você quiser!
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.