Orides Fontela: a poeta filósofa

01/07/2026

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Homenageada da Flip 2026, Orides Fontela traçou a vida em versos, tornando-se uma das principais representantes da poesia brasileira

POR LÚCIA NASCIMENTO

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

Uma máquina de escrever, uma cadeira de balanço, várias folhas de papel, alguns livros e quase mais nenhum objeto. Nesse cenário, uma mulher magra, de óculos com lentes grossas e cabelos curtos escreve seus poemas. A mulher é Orides Fontela (1940-1998). O cenário, o apartamento em que viveu seus últimos anos de vida, na cidade de São Paulo.

A imagem é um dos poucos registros audiovisuais da intimidade dessa poeta, uma das mais importantes de sua geração. A gravação foi feita pela TV Cultura pouco tempo antes da morte de Orides, em 1998. Na entrevista, ouvimos sua voz envelhecida rememorar que, com menos de sete anos, “já escrevi uma quadrinha”. 

Mas foi no começo da vida adulta que sua escrita ultrapassou as fronteiras da cidade natal, São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, quando um exemplar do jornal local O Município chegou às mãos de Davi Arrigucci Júnior, conterrâneo de Orides, com quem ela estudou na infância. Ali, alguns poemas da autora chamaram a atenção do crítico literário, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP). Foi ele, então, quem primeiro incentivou Orides a reunir os poemas em livro e a se mudar para São Paulo.

Anos de formação
“Desde criança, enquanto a gente brincava, Orides parava a brincadeira para escrever. Ficava assim um tempão. Depois voltava, brincava um pouquinho e logo saía de novo”, conta Maria Helena Teixeira, prima da autora, no documentário Orides, onde ninguém mais (2018), dirigido por David Ribeiro. “Ela era muito sozinha, se isolava, não era muito de conversar. O que ela queria era escrever.”

Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides foi alfabetizada pela própria mãe. Mas foi com o pai analfabeto que ouviu suas primeiras histórias, contadas como causos. Orides e o pai eram inseparáveis. 

Ao se mudar para a capital do estado, Orides abriu mão dessa relação. A mudança de cidade aumentou a solidão da poeta que, nessa época, já era órfã de mãe. Mas também marcou a época em que ela iniciou os estudos de filosofia na USP e publicou seu primeiro livro, Transposição (1969).

Na obra, dois gestos se atravessam: a interrogação criativa e a releitura da tradição não apenas literária, mas filosófica. Sua poética é sóbria, de versos curtos e enigmáticos. Já nessa primeira obra, algumas das características da poesia oridiana estão presentes, como a depuração formal e a concisão. 

“Ela usava essas estratégias poéticas para extrair o máximo do mínimo, dizendo muito com pouco”, afirma Nathaly Felipe, doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de uma tese sobre a poética de Orides Fontela. “Os poemas dela criam um universo próprio a partir da reiteração de um vocabulário-base . Assim, o verbo, e o silêncio que o envolve, o tempo e, acima de tudo, a vida comparecem como resposta lúcida e lúdica ao chamado da poesia como experimentação.” 

A formação filosófica também marca profundamente a escrita de Orides, menos voltada à confissão pessoal do que à investigação sobre o tempo e o ser. “Sob o signo da lucidez, a poesia de Orides é simultaneamente delicada e brutal. A associação com a filosofia não é somente temática, nem se deve exclusivamente ao fato de ela ter cursado filosofia. Orides pensa os conceitos [filosóficos] e os torce até que eles se tornem imagem, matéria de poesia”, explica Nathaly.

Reconhecimento
Quatorze anos separaram a publicação de Transposição, no final da década de 1960, e a premiação de Orides no Jabuti, um dos mais importantes prêmios literários do país. Em 1973, publicou Helianto que, como o primeiro livro, não teve grande repercussão em seu lançamento. Nessa época, lecionava em uma escola primária. Em 1980, foi transferida para a função de bibliotecária. “O pedido foi o fim do tormento. Não precisaria mais lidar com crianças: cuidaria apenas dos livros da biblioteca”, escreve o professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Gustavo de Castro Silva, em O enigma Orides – Uma biografia (2026), publicado pela editora Hedra.

Entre altos e baixos, Orides iniciou a década de 1980 publicando Alba (1983), obra vencedora do Prêmio Jabuti.
O livro tem prefácio do crítico Antonio Candido (1918-2017), no qual ele afirma que o trabalho de Orides “tem o rigor construtivo dos poetas engenheiros”. Se os poetas engenheiros são aqueles que prezam por rigor formal, objetividade e lapidação precisa dos versos, não há dúvidas de que a poesia de Orides se aproxima dessa tradição.

Para Patricia Lavelle, poeta e professora de literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a obra de Orides surge “à sombra da anti-lira de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e da poesia concreta, abrindo novos caminhos para a poesia brasileira. Ela é leitora de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), de Manuel Bandeira (1886-1968), dos quais propõe releituras em seus próprios poemas, se inscrevendo numa herança modernista”. 

EscrA poesia de Orides Fontela foi reconhecida com prêmios da crítica, mas ainda está por ser descoberta pelo grande público (foto: Fritz Nagib)

Aluna incomum
Apesar do reconhecimento literário, o Prêmio Jabuti não foi suficiente para que a situação econômica de Orides, sempre muito delicada, melhorasse. “Da minha vida particular basta saber uma coisa: eu sou professora aposentada, o meu dinheiro não está dando para o aluguel e eu preciso dar um jeito de arranjar um emprego para equilibrar meu orçamento”, disse Orides em uma entrevista à revista Marie Claire, em 1996. A entrevista é retomada na obra de Gustavo de Castro Silva, O enigma Orides – Uma biografia.

Nessa mesma entrevista, outro traço que costuma marcar a biografia da poeta ganha centralidade: ela sempre foi uma pessoa com convívio social mínimo ou inexistente. “Às vezes, me chamam de briguenta. Eu não sei como me relacionar bem. Primeiro, sou filha única. Fui criada muito tímida, fechada. Segundo, eu tenho que conviver num meio burguês, no qual não fui criada, tenho umas maneiras meio grossas. E às vezes eu posso chocar as pessoas. Principalmente quando digo a verdade. Eu tenho que aprender a pôr uma mascarazinha. Às vezes eu me sinto um pouco diminuída em meios muito burgueses. Frente a colegas poetas que são ricos. E é isso que faz com que eu seja agressiva com eles”, confessou a poeta.

O modo de agir de Orides já havia impressionado uma de suas professoras na faculdade: a filósofa Marilena Chauí. Durante sua fala no Colóquio Orides Fontela: 50 anos de Transposição,  em 2019, a filósofa lembra que, quando “Orides gostava muito do que tinha escutado em uma aula, ficava entusiasmada, saía da classe e gritava no corredor. Você via que estava produzindo um poema. Ela andava de um lado ao outro do corredor. Depois silenciava e entrava na sala de aula outra vez. Às vezes, quando achava que o professor estava falando bobagem, ela saía da sala de aula e fazia um comício nos corredores. Depois de gritar bastante, ela entrava outra vez na classe e continuava assistindo à aula.” 

Para Marilena, Orides foi uma aluna incomum. “Não só porque ela ia produzindo a obra poética à medida que ia assistindo aos cursos, mas também porque ela refutava os cursos e se pronunciava a respeito”, em uma época em que esse comportamento era raro.

Uma mulher feminista
Seus posicionamentos feministas também estavam à frente de sua época. Na mesma entrevista à revista Marie Claire, de 1996, Orides afirmava não acreditar que a mulher poderá um dia “estar livre se não houver um sistema que a libere do trabalho doméstico”. Também não considerava justo um sistema em que homens ganham salários maiores para exercer a mesma função. “Temos que brigar”, ela incitava, para mudar essa situação.

“A poesia de Orides desloca a poesia escrita por mulheres dos clichês de temáticas sentimentais e confessionais. Mesmo quando ela usa elementos biográficos, o faz de modo reflexivo, por vezes irônico”, afirma Patricia. “Nesse sentido, sua poética concisa e filosófica me parece complementar à de Ana Cristina César (1952-1983), que produz efeitos de ironização de clichês do feminino por meio da ficcionalização do eu lírico.” 

Sua poesia concisa e densa é a base de Rosácea (1986), publicada três anos após o Prêmio Jabuti. Sua relação irreverente com a tradição poética brasileira fica explicitada na obra, com “uma forma muito pessoal de fazer humor, em homenagens que são também metamorfoses críticas capazes de marcar ironicamente a sua própria posição de enunciação, como mulher de origem simples e proletária”, afirma Patricia.

Na poesia de Orides Fontela, está presente o senso agudo dos desencontros e obstáculos que constituem o mundo real. Esse é um dos traços que ligam sua escrita à do poeta Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, o mais explicitamente lembrado e celebrado em sua obra. “Podemos compreender sua poesia na chave das poéticas super contemporâneas da citação e da apropriação textual”, completa Patricia. Entre as características drummondianas, a ironia é das que mais provoca identificação em Orides. 

O senso dos desencontros e obstáculos que constituem o mundo real está presente na poesia de Orides Fontela (foto: Fritz Nagib).

Uma vida dedicada à poesia
Dez anos após Rosácea, Orides publicou sua quinta e última obra, Teia (1996).  Sucesso de crítica, o livro ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), mas não alcançou um público extensivo de leitores.  “Os intelectuais brasileiros interessados em poesia conheciam o trabalho dela, mas o grande público, não”, lamenta Silva, que trabalhou por anos na biografia da poeta. 

Pouco tempo após a publicação de Teia, sua saúde se deteriorou  por conta de uma tuberculose. Em 1998, foi internada em um sanatório em Campos do Jordão, onde morreu aos 58 anos. Sua poética, no entanto, segue influenciando a literatura brasileira. Em 2018, Patricia Lavelle e Paulo Henriques Britto organizaram a coletânea O nervo do poema, publicada pela editora Relicário, que reúne criações inspiradas na obra oridiana e escritas por nomes como Ana Martins Marques, Marília Garcia, Edimilson de Almeida Pereira e da própria Lavelle. Neste ano, a editora Hedra também relança as cinco obras da poeta.

Se escrever poesia era a vida de Orides Fontela, o pedido feito ao receber um dos prêmios que ganhou ao longo da carreira continua reverberando, quase três décadas após sua partida. “É favor continuarem me lendo, ouviram? Obrigada de todo o coração.” 

Orides Fontela expressava sua visão de mundo em versos precisos, que dialogavam com autores como Carlos Drummond de Andrade.

A poesia de Orides Fontela foi reconhecida com prêmios da crítica, mas ainda está por ser descoberta pelo grande público.

Festa das letras
Sesc marca presença na Flip 2026, que tem Orides Fontela como autora homenageada

Desde a primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2003, apenas cinco edições homenagearam autoras brasileiras. Os destaques foram Clarice Lispector (1920-1977), Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst (1930-2004), Maria Firmina dos Reis (1822-1917) e Pagu (1910-1962). Também por esse motivo, a homenagem a Orides Fontela é tão importante, na edição 2026. “Trata-se de uma autora de indiscutível relevância no campo da poesia brasileira e, portanto, da literatura brasileira. A homenagem na Flip possibilita que mais leitores possam conhecer sua obra, ofuscada por uma vida atribulada, de precariedade material e instabilidade emocional, situação que costuma cobrar um preço alto para as mulheres”, afirma Rita Palmeira, curadora da Flip 2026.

Uma das festas literárias mais importantes do país, a Flip também conta com a presença do Sesc. “Desde nossa primeira participação na Flip, em 2012, o Sesc tem fortalecido seus laços com a cidade, oferecendo uma programação contínua que valoriza o patrimônio cultural e artístico, além de promover a educação e a difusão dos variados sotaques da produção artística brasileira”, afirma Leonardo Minervini, gerente interino de Cultura do Departamento Nacional do Sesc.

Já a participação do Sesc São Paulo, por meio das Edições Sesc, se consolidou a partir de 2017. Naquela ocasião, a editora passou a ocupar de forma integral um espaço no Centro Histórico de Paraty, em parceria com o Departamento Nacional do Sesc. Em 2026, a programação do Sesc na Flip será intensa. Confira os destaques e programe-se para acompanhar.

Sesc São Paulo promove lançamentos e bate-papos com autores durante a Flip, em Paraty: 
Uma breve história do agora
Com Alexandre Morelli e Jamil Chade, com mediação de Daniela Lima. Dia 23/7, quinta, às 19h30.

Elza Soares: mulher do fim do mundo
Com Lígia Moreli e Fabiana Cozza, com mediação de Ana Cristina Pinho. Dia 24/7, sexta às 19h30.

Eustáquio Neves: outros navios
Com Eder Chiodetto e Eustáquio Neves. Dia 25/7, sábado, às 17h.

Meu odiado crítico
Com Charles Gavin e Miguel De Almeida. Dia 25/7, sábado, às 19h30.

Casa Edições Sesc
Rua Marechal Santos Dias, 43  (Antiga Rua da Matriz). Centro Histórico de Paraty, Rio de Janeiro. Entrada gratuita.

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