No caldeirão de Letrux

01/07/2026

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Cantora, escritora e atriz reflete sobre carreira, humor e maternidade (foto: Nilton Fukuda)

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

POR MARINA PEREIRA

 “Astrologia faz parte da minha vida, assim como a ciência também faz. Fé sozinha é delírio, ciência sozinha é tristeza. Ponho tudo no meu caldeirão”. Publicado em seu perfil em uma rede social, o trecho reflete elementos que orbitam o universo da carioca Letícia Novaes, a Letrux

Cantora, compositora, escritora, poeta e atriz, ela ganhou notoriedade após o lançamento do seu primeiro projeto solo em 2017, Letrux em noite de climão, álbum produzido por meio de um financiamento coletivo. Antes, manteve a banda Letuce por nove anos, junto a Lucas Vasconcelos, com quem lançou três discos. Letrux também realizou projetos nas artes cênicas, atuando em peças, seriados e filmes, e na literatura, com três livros publicados. Em 2023, foi tema do média-metragem Viver é um frenesi, do documentarista Marcio Debellian, que mostra, de forma poética e bem-humorada, o período em que a artista viveu em isolamento durante a pandemia até o retorno aos palcos.

Neste Encontros, Letrux fala sobre sua carreira e sobre o novo álbum, SadSexySillySongs, lançado no Sesc Pinheiros em abril deste ano. Também reflete sobre as descobertas da maternidade, a influência dos seus pais no modo como vê o mundo e como ainda preserva a atmosfera da infância em suas criações e projetos.

MÚSICA NO TEATRO
Não tenho artista na família, mas meus pais sempre foram muito presentes. Levavam eu e meus irmãos ao museu, ao cinema. Víamos o filme da Xuxa, mas também víamos filmes iranianos que minha mãe escolhia, que achava que era importante ver. Eu tive uma infância muito comum, mas cheia de encantamentos. Cresci em um ambiente em que um domingo clássico da Tijuca começava tocando sambas-enredo e terminava com música clássica. Fui apresentada a muita coisa e carrego isso até hoje. Aquelas experiências ficaram dentro de mim. Cheguei a fazer teatro na escola, mas não tinha a noção de que aquilo poderia ser uma vida. Na faculdade de Letras, comecei a me decepcionar com o curso, porque entendi que não estudaria em um ambiente tipo A sociedade dos poetas mortos [filme de Peter Weir, lançado em 1990]. Minha mãe, na contramão de todas as mães que têm medo da filha fazer teatro, me matriculou em um curso de teatro profissional, a Cal – Casa das Artes de Laranjeiras. E qual era a primeira aula do teatro? Música. Eu lembro que o professor de música falou: “Você aí, canta uma música”. E eu cantei Janis Joplin (1943-1970). Há um mistério nisso: eu fui fazer teatro, mas a música me sequestrou de alguma forma.

LETUCE E CLIMÃO
Em 2005, monto uma banda de rock, Letícius. Eu sei que é ridículo, mas para mim era o feminismo da época, o meu nome estar no título significava muito. As músicas eram minhas, as letras eram minhas, era importante isso para mim. Em 2007, eu conheço Lucas Vasconcelos, meu parceiro romântico e na nova banda, Letuce. O primeiro disco [Plano de fuga pra cima dos outros e de mim, de 2009] ainda foi mais na “brincadeira”. No segundo disco [Manja perene, 2012], percebo que isso podia ser uma profissão, ser real. E ainda lançamos um terceiro disco, Estilhaça [2015], que para mim é um dos melhores que fizemos. Depois de Letuce, em carreira solo, já com o projeto de Letrux em noite de climão, faço um crowdfunding e 500 pessoas colaboram. Fãs da época de Letuce, a quem sou muito grata. E foi uma época curiosa, porque esse crowdfunding gerou muita conexão com o público. Eu ia na casa das pessoas, as pessoas me recebiam, isso foi muito forte. O Climão acontece e estoura. Eu viajo o Brasil, vou pela primeira vez ao Pará, à Amazônia. Para além da minha música estar sendo espalhada, também começo a ter uma vivência do Brasil mais profunda, de ir a lugares e perceber culturas, hábitos, modos de falar que eu adoro anotar, gírias da região. Isso tudo foi muito rico para mim. Sou muito grata pelo Climão ter me permitido viajar tanto.

VOZ E VIOLÃO
Toda cantora, se for sincera, vai falar que tem o desejo de fazer um disco de voz e violão. Estranho quem fala que não tem desejo. Porque temos mais momentos em uma apresentação de voz e violão do que com a banda. Amo minha banda e as camadas sonoras que eles conseguem atingir, com o nível de excelência dos músicos que me acompanham, mas tem qualquer coisa que eu queria de pureza em SadSexySillySongs [álbum lançado em 2026]. Uma jornalista até perguntou: “Você acha que fez um disco mais silencioso porque você virou mãe?” Eu respondi: “Uau, não tinha pensado nisso!” Pode ter sido instintivo. Acho que também era um desejo de colocar a minha voz de um modo mais minimalista mesmo. E o disco tem músicas mais com batidinha, que são as da categoria mais sensuais, o sexy; tem as mais tristes, as sads; as sillys, mais bobas, no melhor sentido da palavra. Eu sou uma pessoa que ama bobeira, bobagem, besteira.

“Anteninha de histórias”: Letrux tira do cotidiano a inspiração para letras de música e livros, adicionando elementos de humor (foto: Bruna Latini)

REVOLUÇÃO PELO HUMOR
O humor é muito revolucionário. Entendo a força bélica da construção, do coletivo. A raiva impulsiona lutas e conquistas, mas tem qualquer coisa que o humor conquista de uma forma mais saborosa. A pessoa nem percebe que está sendo conquistada. Ela muda a ideia, ela muda de opinião, ela fica mais suave. Eu sou caçula de dois irmãos, então tinha que ser engraçada para prestarem atenção em mim, porque a terceira filha, nada é novidade. Mas eu acho que, desde criança, eu percebi que eu conseguia fazer umas gracinhas aqui, fazer um povo rir. E na escola também, percebi que conseguia imitar a professora. E, ao mesmo tempo em que tinha muita gente fazendo bullying comigo, eu tinha também uma plateia. Acho que era tanto sofrimento do bullying que o humor me fazia esquecer e, de repente, tinham dez pessoas quase me aplaudindo no recreio, só porque eu estava imitando a professora de Geografia. Inclusive, estudei palhaçaria. Minha palhaça se chama Clowndia. Ela é uma senhora de 99 anos, surfista, viveu algumas guerras.

FRENESI
O documentário Viver é um frenesi (2023) aborda, de uma forma um pouco mais poética, o período de isolamento da pandemia. Eu fui morar na casa de férias da minha família, em São Pedro da Aldeia (RJ), uma cidade a duas horas e meia do Rio. Fui para lá e foi um privilégio poder estar na natureza durante a pandemia. E essa casa tem muita lembrança, muitos fantasmas da vida, da família, de situações. Então, o Marcio Debellian, documentarista que dirigiu esse projeto, registra todo esse processo e chega a filmar até o meu primeiro show após essa fase mais difícil de isolamento, ainda de máscara, no Circo Voador. Parece que foi ontem, mas parece que tem 17 anos também. Todo mundo carrega algum tipo de sequela física ou mental desse período.

LETRUX ESCRITORA
Eu sou muito anteninha de histórias. Presto atenção em tudo. Acho que tem muita coisa minha nas músicas, mas não só minha. Por exemplo, a gíria que estrago, da música do Climão. É muito normal no Rio você ouvir: “nossa, a mulher foi lá e fez o maior estrago”. E eu tenho esse hábito de ter um caderninho para anotar as palavras. Quando pego uma caneta e um papel, sou um pouco transportada para qualquer lugar lúdico da infância onde tudo era possível de desenhar, de escrever. Acho que o computador me lembra uma coisa muito adulta. Ao passo que pegar a caneta e o papel tem qualquer frescor que a gente só tinha na infância. Eu tenho três livros lançados. O Zaralha. Abri minha pasta (Guarda-Chuva, 2015) é uma coletânea de maluquices da minha infância. Eu sou disléxica, então tem alguns exercícios de alfabetização hilários, poemas, adedanhas. Tudo que já nadei: Ressaca, quebra-mar e marolinhas (Planeta, 2021) é um livro pandêmico, uma homenagem às águas, não importa se é mar, se é cachoeira, se é água do corpo, se é lágrima, suor ou gozo. E o último livro é um de contos, o Brincadeiras à parte (Planeta, 2025). Cada conto tem um jogo acontecendo: Buraco, Mega-Sena, Telefone Sem Fio, Paciência, Xadrez, Dado… Entre os contos dos jogos, tem alguns intervalos mais biográficos. E meu próximo projeto na literatura vai ser meu primeiro livro infantil, Glorinha vai ao fundo. É a história de uma menina chamada Glorinha, que ama ir à praia, mas nunca tem coragem de ir para o fundo, onde não dá pé.

MATERNIDADE E INFÂNCIA
Sou mãe há sete meses e é uma fase muito mágica, todo dia é uma pequena magia. É uma fase de atenção a tudo que é minúsculo. Em vez de você ter um telescópio, você está com um microscópio, prestando atenção nos pequenos detalhes. É muito lisérgico estar perto de um ser humaninho se desenvolvendo, é fascinante. Eu sempre fui muito maternal em todos os meus trabalhos. Então, sabia que a maternidade ia acontecer na minha vida de algum jeito, desde criança eu sentia isso. Eu sempre fui curiosa com a infância, até porque o processo psicanalítico não me deixa fugir disso, mas eu estou mais ainda agora. A infância para mim é um assunto eterno. Acho que deixam a infância muito fofinha. Também pode ser fofinha, mas não é só isso. Eu acho que é uma formação muito grande. A gente é a gente desde os cinco anos. 

A cantora, escritora e atriz Letrux esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 28 de maio. A mediação do bate-papo foi de Flávia Rabaça, cientista social e assessora cultural no núcleo de música da Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo.

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