
Leia a edição de julho de 2026 na íntegra
Entre métricas, algoritmos, plataformas digitais e disputas por atenção, a cultura passou a ocupar um lugar paradoxal no mundo contemporâneo: ao mesmo tempo em que nunca produziu tantos dados, ainda luta para tornar visível política, econômica e socialmente o valor que ela gera para a sociedade.
Se durante muito tempo o campo da cultura se apoiou sobretudo em argumentos simbólicos, subjetivos e afetivos para defender sua importância, hoje isso já não parece suficiente em um cenário no qual decisões públicas e privadas são tomadas a partir de indicadores, estatísticas e resultados mensuráveis. Afinal, como demonstrar o impacto de um espetáculo, de uma biblioteca, de um festival ou de uma política cultural em meio a disputas orçamentárias tão intensas? Como traduzir em evidências concretas algo que, muitas vezes, é vivido no plano da experiência, da memória, da identidade e do pertencimento?
“Durante muito tempo, muitas dessas perguntas foram respondidas com base exclusivamente na experiência e na intuição dos profissionais à frente dessas instituições e projetos culturais. Mas, diante da complexidade desta era de dados e da crescente acessibilidade a tantas informações, não é mais preciso, e nem é suficiente, se basear unicamente no conhecimento empírico. Ele pode e deve ser apoiado por evidências que ajudem gestores e organizações culturais a tomar melhores decisões sobre recursos que, quase sempre, são escassos”, argumenta a gestora cultural e consultora Beth Ponte, coautora da publicação Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar (Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025).
A partir de pesquisas, relatórios e indicadores nacionais e internacionais, é possível aferir como a cultura impacta áreas como saúde, economia, geração de emprego, bem-estar e desenvolvimento social. Dados qualificados podem fortalecer a legitimidade da cultura no debate público e enfrentar percepções distorcidas sobre investimento estatal no setor.
“Por um lado, é necessário seguirmos lutando pelo fortalecimento de sistemas públicos de estatísticas e indicadores culturais, criação de observatórios e realização de levantamentos estatísticos. Por outro, é importante que artistas e projetos culturais, de diferentes portes, também produzam evidências. Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito”, sugere Daniele Canedo, gestora cultural e professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), coautora da obra citada.
Neste Em Pauta, Beth e Daniele defendem que produzir, analisar e comunicar evidências não significa reduzir a cultura a planilhas ou métricas frias. Significa, antes, criar instrumentos para que sua relevância deixe de ser invisibilizada.
A cultura na ‘vazante da infomaré’
Por Beth Ponte
“Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré?”
Gilberto Gil, “Pela Internet” (1996)
No momento em que você lê este texto, muitas coisas estão acontecendo simultaneamente nas 44 unidades do Sesc São Paulo. Para se ter uma noção: em 2024, a instituição registrou 28.954.760 frequentadores anuais, 119.616 livros em suas bibliotecas fixas, 5.008 shows, 3.496 apresentações teatrais e muito mais. Se você acessou esta revista pelo portal online, contribuiu com uma das 63.118.499 visualizações anuais registradas. Esses números revelam não apenas a dimensão do trabalho do Sesc São Paulo, mas algo que muitas vezes passa despercebido: o quanto dados estão no centro da gestão cultural contemporânea.
E não são apenas as grandes instituições que produzem e coletam dados. Cada um de nós é uma usina de informações em funcionamento permanente: nos rastros digitais do consumo online, na navegação pelas redes sociais, nos dados de sono, atividade física e batimentos cardíacos monitorados pelos smartwatches, os relógios inteligentes. Quando participamos de grandes eventos, também estamos gerando dados sem perceber. Você sabia que o Rock in Rio, por exemplo, opera em parceria com empresas especializadas em inteligência de dados para monitorar o comportamento de cada pessoa que pisa na Cidade do Rock? Mas essa não é uma realidade restrita a megaeventos. Você já assinou um livro de presença ao sair de um museu? Comprou ingresso online para um espetáculo? Respondeu a uma pesquisa de satisfação? Se sim, também contribuiu com dados que podem – e deveriam – ser muito importantes para instituições e projetos culturais.
A grande questão, portanto, não é a falta de dados. Na nossa era da informação, eles existem de sobra. Mas a grande pergunta continua sendo: em meio a tantas informações e tantos dados, o que podemos fazer com eles? Como podem nos ajudar a tomar melhores decisões? E se olharmos para os dados com esse pensamento, podemos fazer muita coisa. Assim como os usuários dos smartwatches podem mudar hábitos de saúde a partir do monitoramento dos próprios dados, organizações culturais podem tomar decisões importantes sobre programação, funcionamento e relacionamento com seus públicos com base nas informações que já monitoram. Em ambos os casos, estamos falando de decisões baseadas em evidências.
Esse conceito tem uma história. O termo “decisões baseadas em evidências” se popularizou na medicina nos anos 1990, na Austrália, e rapidamente se difundiu por diferentes países e áreas do conhecimento. A medicina baseada em evidências defende que as decisões sobre um tratamento devem se apoiar em um tripé: a experiência do profissional de saúde, as melhores evidências científicas disponíveis no momento e, não menos importante, as preferências do paciente. De lá, o conceito se expandiu para a gestão corporativa e para as políticas públicas. Por que esse pensamento não pode ser também tomado de empréstimo pelo campo da gestão e da produção cultural?
Pense na quantidade de perguntas que permeiam o fazer cultural. Para qual cidade uma companhia circense deve levar seu espetáculo? A equipe de um museu deve ou não prolongar a duração de uma exposição que é um sucesso de público? Vale a pena utilizar a verba de marketing de um festival de música para impulsionar uma publicação em determinada rede social? Como aumentar a participação de um público específico – como o de pessoas idosas – em um projeto cultural? Durante muito tempo, muitas dessas perguntas foram respondidas com base exclusivamente na experiência e na intuição dos profissionais à frente dessas instituições e projetos culturais. Mas, diante da complexidade desta era de dados e da crescente acessibilidade a tantas informações, não é mais preciso, e nem é suficiente, se basear unicamente no conhecimento empírico. Ele pode e deve ser apoiado por evidências que ajudem gestores e organizações culturais a tomar melhores decisões sobre recursos que, quase sempre, são escassos.
Talvez essa ideia gere estranheza em muitos agentes culturais que ainda têm certa resistência em misturar cultura com números. No campo cultural, de tantas subjetividades, é claro que nem tudo o que tem valor pode ser quantitativamente medido. Mas a gestão baseada em evidências não se trata de seguir cegamente os dados, mas de utilizar as melhores informações à disposição, dentro de um contexto, unindo nossa experiência e as preferências dos públicos.
E para quem gosta da ideia e quer avançar nesse campo, um alerta, porém, é necessário: quando é possível monitorar e contabilizar quase tudo, é preciso ter clareza sobre o que efetivamente importa acompanhar. Para navegar com rumo nesse ‘infomar’, o mais importante é ter um mapa de navegação: saber onde se quer chegar, quais são os objetivos e usar os dados como guia nessa jornada, não como um fim em si mesmos. Começar pela pergunta certa e olhar para as informações que um projeto cultural já possui é, sem dúvida, o melhor jeito de não ficar à deriva nesse mar de possibilidades.
Finalizo este breve texto com duas mensagens. Para os meus colegas, agentes, artistas, gestores e gestoras culturais: você não precisa ter o tamanho do Sesc ou do Rock in Rio para iniciar a gestão baseada em evidências em seu projeto, grupo ou instituição. Pode começar com o que já tem: borderôs, analytics de redes sociais, planilhas orçamentárias, pesquisas de público, comparações com outros projetos ou instituições da sua área. Se você parar para pensar, já tem muitos dados à sua disposição. Fazer as perguntas certas é sempre o primeiro passo.
E o outro recado é para você, público da cultura: na próxima vez que receber um convite para responder uma pesquisa de satisfação ou que pedirem alguma informação antes, durante ou depois da visita a um equipamento cultural ou em um espetáculo, colabore. Seus dados e sua opinião podem fornecer as evidências que o setor cultural como um todo precisa para ser mais relevante, navegar com mais rumo e aproveitar melhor essa “vazante da infomaré”.
Beth Ponte é gestora cultural e consultora pela Deck – Inteligência Digital pela Cultura e coautora do livro Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar (Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025). Tem mestrado em Cultura e Sociedade (UFBA) e MBA em Gestão e Transformação Digital (USP). É professora do Curso de Gestão Cultural do Sesc e de pós-graduações no Brasil e exterior.
No campo cultural, a gestão baseada em evidências não se trata de seguir cegamente os dados, mas de utilizar as melhores informações à disposição, dentro de um contexto, unindo nossa experiência e as preferências dos públicos
Beth Ponte
Dados, evidências e o valor da cultura
Por Daniele Canedo
Em tempos de tecnologias cada vez mais avançadas, ainda faz sentido investir em cultura? Vivemos em contextos de recursos escassos e disputas intensas por orçamento público. Por que destinar verbas para museus, bibliotecas, festas populares, cinema, teatro e patrimônio, entre outros segmentos, quando existem tantas demandas urgentes? “É óbvio que a cultura ainda importa”, muitas pessoas vão pensar, pois conhecem os benefícios diretos da participação em ações culturais. A cultura fortalece identidades, preserva memórias, amplia a criatividade e produz sentidos de pertencimento.
Durante muito tempo, a defesa da cultura esteve baseada principalmente em argumentos simbólicos e subjetivos sobre o alcance dos seus resultados. Afinal, os efeitos são perceptíveis, mas muitas vezes difíceis de mensurar, pois incidem na vida das pessoas. O problema é que, na era da informação, especialmente em períodos eleitorais e de planejamento orçamentário, as disputas são feitas com dados e indicadores. Quando essas questões aparecem no debate público, temos um desafio: como demonstrar que a cultura é parte estratégica do desenvolvimento de uma sociedade?
Os dados se tornaram um dos principais ativos do mundo contemporâneo. Hoje, quem controla este ativo controla a visibilidade. No campo das políticas públicas, praticamente todas as áreas se esforçam para demonstrar resultados. Saúde, educação, segurança pública e meio ambiente, por exemplo, produzem estatísticas por meio de indicadores acompanhados ao longo do tempo e de sistemas permanentes de monitoramento. Ademais, plataformas digitais e redes sociais utilizam métricas para direcionar conteúdos e influenciar comportamentos e consumos. É justamente por isso que a gestão cultural baseada em evidências defende a necessidade de tornar visíveis, com informações qualificadas, os impactos que a cultura já produz na vida social e econômica do Brasil.
No campo social, um relatório de 2024 elaborado para o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido evidenciou que a participação em ações culturais melhora indicadores de saúde e bem-estar em diferentes grupos etários. O estudo aponta benefícios associados a práticas como visitas a museus, canto em coral, atividades musicais, entre outras. Os resultados evidenciam que tal engajamento pode contribuir para melhorias das condições físicas e mentais, com redução de doenças cardiovasculares, da incidência de depressão e até menor risco de demência em idosos. Em alguns modelos, esses benefícios também foram associados à redução de custos com atendimentos médicos e assistência social.
Na perspectiva econômica, uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com o Ministério da Cultura (MinC) e a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), identificou que para cada R$ 1 investido na Lei Rouanet, foram movimentados R$ 7,59 na economia brasileira. Isso significa que o investimento público em cultura dinamiza a economia nos territórios, movimentando os setores de turismo, alimentação, hospedagem, transporte, comunicação, design, audiovisual, comércio, tecnologia, entre outros. Segundo o estudo, os projetos culturais financiados pela Lei Rouanet geraram aproximadamente R$ 25,7 bilhões em 2024 e foram responsáveis por mais de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Só em tributos municipais, estaduais e federais, tais projetos injetaram cerca de R$ 3,9 bilhões nos cofres públicos.
Já o Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), do IBGE, indica que o setor cultural representava, em 2022, 6,8% das empresas brasileiras formalizadas, e, em 2024, empregava cerca de 5,9 milhões de pessoas. Os dados do IBGE também ajudam a desmontar uma percepção muito comum no debate público brasileiro: a ideia de que a cultura representa um gasto excessivo do Estado. Segundo o órgão, em 2023, a destinação para a cultura, considerando as três esferas de governo, representou 0,38% das despesas públicas totais. Isso significa que, de cada R$ 100 gastos pelo poder público brasileiro, apenas 38 centavos foram destinados à cultura. No orçamento federal, a participação da cultura foi de 0,04% das despesas da União, ou seja, somente quatro centavos em cada R$ 100. Portanto, apesar da cultura ser vista como área de grande gasto estatal, na prática, os números mostram o contrário: os investimentos públicos representam uma parcela ínfima do orçamento nacional.
Imaginar o que seria possível com ampliação e democratização do investimento público talvez seja uma das perguntas mais importantes para o futuro das políticas culturais brasileiras. Promover a gestão cultural baseada em evidências tem como objetivo garantir que a cultura deixe de ser invisibilizada nos processos de decisão. Os dados podem ajudar a tornar mais perceptível a contradição entre os benefícios que a cultura gera e os parcos recursos a ela destinados.
Todavia, sabemos que produzir dados e evidências ainda é um grande desafio para o setor cultural. As barreiras envolvem a ausência de métricas padronizadas e a escassez de recursos e competências técnicas. Por isso, diferentes agentes podem e devem exercer um papel no fortalecimento de um ecossistema de informações, incluindo órgãos públicos, universidades, artistas, coletivos, empresas e organizações sociais da cultura. Por um lado, é necessário seguirmos lutando pelo fortalecimento de sistemas públicos de estatísticas e indicadores culturais, criação de observatórios e realização de levantamentos estatísticos. Por outro, é importante que artistas e projetos culturais, de diferentes portes, também produzam evidências. Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito.
Trata-se de um processo incremental. Não será possível construir uma cultura de uso de dados da noite para o dia, mas com passos graduais, ajustes constantes e aprendizado coletivo poderemos ter mais argumentos para defender os investimentos públicos em cultura na arena política. A sustentabilidade das organizações culturais e a defesa da cultura como direito dependem, cada vez mais, da nossa capacidade coletiva de produzir, sistematizar e comunicar evidências.
Daniele Canedo é gestora cultural, capoeirista e professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e das pós-graduações em Administração e Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia (UFBA). É coautora do livro Gestão cultural baseada em evidências: por onde começar ( Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, 2025) e, desde 2015, é pesquisadora e coordenadora do Observatório da Economia Criativa da Bahia (Obec Bahia), onde lidera pesquisas nacionais.
Acreditamos que mesmo pequenas ações de sistematização e análise já podem fazer diferença, seja para comprovar a efetividade de um projeto, fortalecer a legitimidade institucional ou ampliar o reconhecimento da cultura como direito
Daniele Canedo
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