Lita Cerqueira: ver e ser vista

01/07/2026

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A obra da artista que transforma a fotografia em um exercício de proximidade, escuta e reconhecimento

POR DIEGO OLIVARES

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

 “Suas fotos são um milagre do olho esquálido e atento atendido pela graça desatenta dos deuses em transe”. É assim que Gilberto Gil define o trabalho da fotógrafa Lita Cerqueira, sua conterrânea soteropolitana, em texto reproduzido no site oficial da artista. Desde abril, os resultados desse “milagre” podem ser vistos na exposição Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar, em cartaz no Sesc Pompeia.

Nela estão reunidas 47 fotografias representativas de suas mais de cinco décadas de carreira, três filmes em super 8 da década de 1970 e um conjunto de objetos de seu acervo pessoal, incluindo negativos, cromos e câmeras. As imagens formam um caleidoscópio de festas populares e tradicionais brasileiras, feiras, retratos de cenas da vida cotidiana, além de registros de grandes nomes da MPB, como o próprio Gil e seus parceiros de Doces Bárbaros: Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa (1945-2022).

“Desde cedo, já sabia que eu era artista”, diz Lita, que ainda na adolescência se interessou por ser atriz, mas logo migrou para a fotografia, após ganhar de uma amiga a primeira câmera. Filha de um operário e de uma dona de casa, não tinha contatos no meio artístico. Mesmo assim, ela decidiu aos 19 anos que faria das fotos sua profissão. Trabalhava em festas de aniversário e em qualquer ocasião na qual pudesse exercitar o olhar. “Nunca cheguei a estudar fotografia. Sou autodidata e sempre trabalhei por conta própria. Não tive patrocinador, eu que comprava o negativo e pagava a revelação”, conta.

Lita construiu uma obra marcada pela independência. Sem vínculo permanente com jornais ou grandes agências, desenvolveu um percurso guiado sobretudo pela curiosidade e pela proximidade com os personagens que fotografava. 

A autonomia permitiu que transitasse com a mesma naturalidade entre os bastidores da música brasileira, os sets de cinema e as celebrações que ocupam as ruas de Salvador e de tantas outras cidades do país, e acompanhasse eventos históricos, buscando outro ponto de vista: “Quando o Tancredo Neves (1910-1985) morreu, por acaso estava em São João del-Rei (MG) [cidade natal do advogado, presidente eleito do Brasil, que faleceu antes de assumir o cargo] quando aconteceu a missa de sétimo dia. Fui e optei por não fotografar nenhum político presente, apenas o povo”.

A exposição destaca ainda um aspecto fundamental de sua produção: a atenção dedicada à cultura popular e à presença negra no Brasil. Ao registrar festas religiosas, celebrações de rua, trabalhadores, crianças e personagens anônimos, Lita produz imagens que escapam dos enquadramentos exóticos ou folclóricos frequentemente associados a esses universos. Sua fotografia devolve complexidade, dignidade e protagonismo aos sujeitos retratados. 

Parte significativa do material apresentado permaneceu guardada por décadas. Entre os destaques, estão fotografias nunca ampliadas ou digitalizadas e sete imagens coloridas inéditas, raridade em uma trajetória associada ao preto e branco. Os três filmes em super 8 exibidos na mostra também chegam ao público pela primeira vez, registrando momentos como a Festa do Senhor do Bonfim, a independência da Bahia e uma apresentação da cantora Clementina de Jesus.

Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar funciona como um reencontro com uma artista que ajudou a formar uma memória visual do Brasil sem jamais abrir mão da própria perspectiva. “Sou apaixonada pelo meu trabalho. Me orgulho de mim e da vida que construí por conta própria”, encerra. 

Maria Bethânia, Roma (Itália), 1984.
Marina Lima, Gilberto Gil, Lulu Santos e Cazuza (1958-1990), Rio de Janeiro (RJ), anos 1980.
Gilberto Gil no bloco Filhos de Gandhi, Salvador (BA), anos 1980.

Pompeia 
Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar
Até 13/9. Terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS. Mais informações em: sescsp.org.br/oficio

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