
Cantor e compositor fala dos medos e das alegrias que o acompanham desde menino e das invenções que fizeram dele um dos artistas mais originais da música brasileira
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR LÍGIA SCALISE
FOTOS NILTON FUKUDA
Tom Zé está prestes a completar 90 anos. Entre uma lembrança e outra, ele atravessa décadas, muda de assunto, retorna ao ponto inicial e encontra conexões improváveis. Como sempre fez em sua obra, transforma o aparente caos em invenção. Nomes, datas, livros, ruas, canções e personagens de Irará [sua cidade natal, localizada na Bahia] surgem com a nitidez de quem acaba de viver tudo aquilo.
Ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa (1945-2022) e tantos outros artistas que reinventaram a cultura brasileira nos anos 1960, Tom Zé fez da experimentação sua marca registrada. Inventou instrumentos, transformou ruídos em música e enxergou possibilidades onde ninguém mais via. Certa vez, ao observar uma enceradeira quebrada, decidiu transformá-la em um instrumento musical. A máquina ganhou cordas, adaptações e virou arte.
Em 1968, venceu o Festival da Record com a canção “São, São Paulo, Meu Amor”, um retrato bem-humorado da metrópole que o acolheu. Depois vieram dezenas de discos, espetáculos e invenções sonoras que desafiaram as classificações. Muitas vezes, pareceu estar adiante do próprio tempo. Algumas de suas ideias foram recebidas com estranhamento, apenas para serem celebradas anos depois.
Não por acaso, sua obra atravessou fronteiras e encontrou admiradores em diferentes partes do mundo. Entre eles, David Byrne [músico estadunidense, líder da banda Talking Heads], que ajudou a apresentar seu trabalho a uma nova geração internacional depois de se impressionar com o álbum Estudando o samba, lançado em 1976.
Neste Depoimento, realizado em sua casa em São Paulo, em maio, Tom Zé fala dos medos que o acompanham desde a infância, da curiosidade que ainda o move e da alegria de subir ao palco. Satisfeito com a trajetória construída, diz que já realizou seus sonhos e pode morrer com o coração descansado. Faz apenas uma ressalva: quer continuar trabalhando o máximo que puder.
medo
Eu sempre fui muito medroso. Quando era criança, em Irará, tinha asma e fazia xixi na cama. Todo mundo bulia comigo por causa disso. Naquele tempo, o medo era uma das formas de educar. A gente crescia cercado por ele. Lembro até hoje o dia em que a Segunda Guerra Mundial acabou. O diretor da escola entrou na sala e anunciou: “desde as 0 horas no Meridiano de Greenwich, não há mais combate nas frentes de batalha”. Veja só: eu estava lá em Irará, tão longe daquele mundo, e, mesmo assim, tinha medo da guerra. Quando ouvi aquela notícia, descansei o coração. Mas o medo nunca foi embora. Quando eu era rapaz, tinha uma namorada chamada Dalma. Fazia músicas para ela. Um dia, resolvi cantar uma dessas canções na frente dela e não consegui abrir a boca. Travei completamente de medo e vergonha. Voltei para casa arrasado, pensando: “Nunca mais vou fazer música”. Mas aconteceu o contrário. Comecei a compor sobre o que acontecia ao meu redor: as pessoas, os fatos da cidade, as maluquices da vida cotidiana. Foi assim que encontrei um caminho. Mesmo hoje, o medo continua por perto. Outro dia a Neusa [sua esposa e empresária] precisou passar o dia fora e eu pedi para a empregada ficar comigo. É que, mesmo com quase 90 anos, não gosto de ficar sozinho.
música
Se eu tenho que escolher um momento em que a música entrou de vez na minha vida, esse momento tem nome: Renato Marques. Toda cidade pequena tem alguém que parece enxergar o mundo de outro jeito. Em Irará, essa pessoa era Renato. Eu prestava atenção em tudo o que ele dizia. Um dia, ele pegou o violão e cantou uma música simples. Enquanto tocava, fazia um movimento diferente nos acordes. Eu não sabia explicar aquilo, mas alguma coisa aconteceu comigo. Anos depois, quando comecei a fazer análise, aprendi o nome do que vivi naquele instante: insight. Assim foi o meu encontro com a música. Renato virou uma espécie de professor sem nunca ter sido um. Não estudou em escola de música, mas tinha uma inteligência rara. Era uma dessas pessoas que viram a cabeça da gente. Até hoje, quando penso na origem de tudo, volto àquele momento. E volto para o Renato.
existência
Minha mãe me trancava no quarto para estudar, mas eu descobri, por acaso, alguns livros que estavam ali. Um deles era Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909). Quando comecei a ler aquele livro, aconteceu algo extraordinário: eu descobri que existia. O livro falava de um tipo de gente que eu conhecia, de uma paisagem que eu reconhecia, de pessoas parecidas com aquelas que frequentavam a loja do meu pai e que eu atendia desde menino. Até então, eu não sabia que aquele mundo podia existir dentro de um livro. Quando terminei Euclides da Cunha, vieram os livros de Guimarães Rosa (1908-
-1967). E aconteceu a mesma coisa. Percebi que aquela língua que eu ouvia nas feiras, nas estradas e na roça também era literatura. Eu era um aluno péssimo. Mas me tornei um leitor maníaco.
ousadia
Quando jovem, não parecia que as coisas iam dar certo para mim. Fui um aluno complicado, repeti de ano, dei preocupação aos meus pais e cheguei a ser chamado de delinquente. Passei anos sem saber exatamente o que seria da minha vida. Mas eu tinha uma mania: quando encontrava algo que me interessava, mergulhava nele. Foi assim com os livros, com a música e com a escola de música da Bahia, em Salvador. Eu estudava muito, principalmente as matérias teóricas. Quando veio o vestibular da escola, fiz a prova do meu jeito. E até hoje acho graça porque passei em primeiro lugar. Eu, que durante tanto tempo tinha sido considerado um péssimo aluno. Mais tarde, vieram a ditadura, São Paulo, os festivais e os períodos em que ninguém entendia muito bem o que eu fazia. Mas eu continuava fazendo. Sempre acreditei que a capacidade que a gente tem precisa ser usada de alguma maneira. Foi a ousadia que me levou adiante.
trabalho
Perto dos 90 anos, as pessoas me perguntam qual foi minha maior conquista e eu respondo sem pensar muito: o trabalho. Ter trabalho é felicidade. Eu vivi momentos muito bons, mas também muito difíceis. Não foi mole não. Houve épocas em que meu nome estava em toda parte. Houve épocas em que parecia que ninguém se lembrava de mim. Mas eu continuei trabalhando e trabalho muito até hoje. Às vezes, me perguntam se já realizei meus sonhos. Sem dúvida, posso morrer com o coração descansado. Mas enquanto estou aqui, quero continuar na labuta.
Neusa
Estamos juntos há 57 anos. É ela que sabe o nome que me escapa, corrige uma data, completa uma informação, recupera uma memória perdida no caminho. Depois de tanto tempo, há momentos em que parece uma extensão natural do meu próprio pensamento. Neusa é o meu crivo. É quem me diz se algo presta ou não, se vale a pena ou não, se está à altura do que eu mereço. Eu só ouço e obedeço. Ela é mais do que minha companheira. Eu trabalho por causa dela, ganho por causa dela e vivo por causa dela. Eu mesmo sou levado a me respeitar, porque ela exige isso de mim.

viver
Acordo e faço meia hora de ginástica brava todos os dias. A doutora Isabela Messias Pires, a quem faço questão de mencionar, tem grande cuidado comigo. Mas essa história de exercícios começou muito antes. Quando eu era menino em Irará, apareceu por lá uma pessoa que morava no Rio de Janeiro e servia no exército. Ele ensinou alguns exercícios físicos a um amigo meu, Agnaldo, que não os seguiu. Já eu, comecei naquele dia e nunca mais parei. Quando vim para São Paulo, fui atrás de tudo o que era oriental. Do-in, tai chi, dieta macrobiótica, essas coisas todas. Até hoje continuo me cuidando. Já já, devo passar praticamente um mês em cima do palco. Ou me preparo fisicamente muito bem para aguentar, ou começo a fraquejar. A gente sente a idade no corpo, a cabeça com tanto tempo de terapia está boa. Não tenho medo de morrer, a gente nem sabe o que acontece depois que morre, mas o segredo é viver bem.
palco
Recentemente, em Goiânia, depois de um dia inteiro de viagem e de horas de passagem de som, pensei que talvez não tivesse energia suficiente para o show. Mas acontece uma coisa louca quando a música começa: a energia volta para o meu corpo! Nesse show, foi exatamente assim. Saí do palco exausto, mas profundamente feliz. Costumo dizer que, quando subo para cantar, tenho ao mesmo tempo 80 e 10 anos. O homem de 80 leva a experiência e o menino de 10 leva a curiosidade e o frio na barriga!
legado
Recentemente apareceu um livro escrito por um filósofo que tentava responder a uma pergunta curiosa: por que não existe uma filosofia brasileira? Em algum momento, ele se perguntava se o meu trabalho poderia ajudar a pensar essa questão. Quando vi aquilo, fiquei orgulhoso. Também gosto quando vejo coisas como o Abacaxi de Irará, um bloco de carnaval em São Paulo inspirado em uma música minha. Antigamente, eu dizia que era de Irará e as pessoas perguntavam se era Irajá, no Rio de Janeiro. Hoje não perguntam mais. Isso me dá uma alegria danada. As pessoas ainda vão ter muito o que falar de mim depois que eu morrer. E eu espero que digam uma coisa: “Tom Zé é um cara que se fez respeitado porque trabalha, porque é trabalhador e porque tem ideias. A cabeça desse cara tem ideias”. Daí, tudo valeu a pena.
Assista a trechos desse Depoimento com o cantor e compositor Tom Zé, realizado em maio de 2026, em São Paulo.
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