
Especialista em neurobiologia vegetal, professor e escritor italiano defende que as respostas para a emergência climática e outras questões sociais podem vir do mundo vegetal
Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra
POR VANESSA D’AMARO
FOTOS NILTON FUKUDA
O botânico italiano Stefano Mancuso anda inquieto com a crescente negação da crise climática. Em Fitópolis (Ubu Editora, 2026), seu livro mais recente, ele propõe estratégias para enfrentar o aquecimento global a partir de uma perspectiva centrada na natureza. “Nós criamos lugares onde vivem apenas seres humanos, desconsiderando todo o restante. É o equivalente a uma monocultura na agricultura. As cidades se tornaram monoculturas humanas e sabemos que elas são muito frágeis”, alerta o professor, formado em Ciências Agrárias e doutor em Biofísica.
Mancuso confessa ter se apaixonado pelas plantas durante suas incursões acadêmicas e é considerado pioneiro nas pesquisas de neurobiologia vegetal. Desde 2001, atua como professor do Departamento de Ciência e Tecnologia Agrária, Alimentar, Ambiental e Florestal da Universidade de Florença, na Itália. Em 2005, fundou o Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal, onde investiga a linguagem e a comunicação das plantas em todos os níveis de organização biológica.
Convencido de que as plantas oferecem respostas para alguns dos principais desafios ambientais do nosso tempo, o cientista também se dedica, desde 2013, a escrever livros sobre suas descobertas no campo da neurobiologia vegetal. Para ele, a extraordinária capacidade de organização coletiva desses seres vivos para garantir sua sobrevivência enseja uma ampliação do próprio conceito científico de inteligência. “Não é necessário ter um cérebro para ser inteligente. A inteligência é a capacidade de resolver problemas, uma característica essencial da vida”, defende.
Em 2018, o cientista venceu o 12º Prêmio Galileo de divulgação científica com Revolução das plantas (2019), que se tornou um best-seller traduzido para 27 idiomas e publicado pela Ubu Editora no Brasil. Por aqui, também publicou A planta do mundo (2021), A incrível viagem das plantas (2022), Nação das plantas (2024), além de Fitópolis, todos pela Ubu Editora. Em visita ao Brasil, em junho de 2026, Mancuso concedeu esta Entrevista durante o Festival Florestar, quando ministrou conferências nas unidades do Sesc São José dos Campos e Pompeia.
Ao longo da história da ciência, as plantas quase sempre foram colocadas em segundo plano. Elas são as protagonistas da vida no planeta?
Na ciência, costumamos sempre falar dos seres humanos e dos animais. As plantas nunca protagonizaram a pesquisa científica, o que é incompreensível. Basta olhar para a vida no planeta: nós, seres humanos, junto a todos os animais, representamos apenas 0,3% da biomassa da vida. As plantas, por outro lado, representam 87%. Sempre me pareceu extraordinário que, durante toda a nossa história, tenhamos estudado apenas essa parcela minúscula — esses 0,3%, praticamente irrelevantes diante da história da vida no planeta — e tenhamos deixado de estudar as plantas. Como nunca as estudamos de verdade, nunca as observamos com profundidade, sempre pensamos que fossem apenas uma espécie de pano de fundo para as nossas atividades e para a vida dos animais. Na realidade, é exatamente o contrário. Nós, animais, dependemos das plantas. Se elas não existissem, nós não poderíamos existir. Se nós desaparecêssemos, provavelmente as plantas estariam até mais felizes. Existem vários níveis pelos quais podemos olhar para o mundo vegetal e, em todos eles, descobrimos um universo que até hoje foi completamente subestimado. Na verdade, eu nem diria subestimado, ignorado.
O senhor afirma que as plantas são seres inteligentes, embora não possuam um sistema nervoso central como os animais. Como define essa inteligência?
Tradicionalmente, considera-se inteligente apenas o ser vivo que possui cérebro. O ser humano, naturalmente, sempre foi considerado inteligente. Depois, os animais mais próximos dele, como os macacos. Nos anos 1950, graças aos estudos de Konrad Lorenz [1903-1989], passamos a compreender que outros animais, como cães e aves, podiam ser considerados inteligentes. Porém, o debate parava aí. Agora, pensemos um pouco: mesmo que todos os animais dotados de cérebro sejam inteligentes, ainda estamos falando de apenas 0,3% da vida. Dizer que é preciso ter um cérebro para ser inteligente equivale a afirmar que 99,7% da vida é estúpida. Como cientista, essa é uma ideia que jamais consegui aceitar ou compreender. Não consigo imaginar que praticamente toda a vida restante seja desprovida de inteligência. Nós acreditamos que somos os únicos seres que precisam resolver problemas, mas todos os seres vivos precisam fazer isso. Até uma bactéria precisa resolver problemas todos os dias; caso contrário, não sobrevive. Minha definição de inteligência procura ser a mais ampla possível: é a capacidade de resolver problemas. Não é necessário ter um cérebro para ser inteligente. A inteligência é uma característica essencial da vida. Se algo está vivo, é inteligente.
Dessa maneira, discutir a inteligência das plantas nos obriga, então, a rever a própria forma como definimos a inteligência?
Exatamente. Ao longo da história, todas as definições de inteligência que criamos acabavam descrevendo apenas a nós mesmos. Repetidas vezes, descobrimos que essas características não pertenciam exclusivamente aos seres humanos; outros seres vivos também as possuíam. Acredito que possamos olhar para a inteligência a partir de duas perspectivas diferentes. A primeira é a perspectiva humana: descrever especificamente a inteligência humana. Na verdade, trata-se quase de um problema linguístico. Se temos tanta necessidade de diferenciar a nossa inteligência, então chamemos essa forma específica de inteligência por outro nome. Se falamos realmente da capacidade de resolução de problemas, a nossa espécie vem demonstrando justamente o contrário: não consegue resolver nem mesmo aqueles fundamentais para a própria sobrevivência.

“Dizer que é preciso ter um cérebro para ser inteligente equivale a afirmar que 99,7% da vida é estúpida. Como cientista, essa é uma ideia que jamais consegui aceitar ou compreender. Não consigo imaginar que praticamente toda a vida restante seja desprovida de inteligência.”
As plantas também se comunicam? Como funcionam as estratégias de comunicação entre elas?
Essa é uma questão muito interessante. A principal característica das plantas é que elas não podem se deslocar. Não é verdade que elas não se movam. Elas se movem muito, mas em escalas de tempo muito longas. O que elas não podem é abandonar o lugar onde nasceram. São organismos enraizados. Se um ser permanece fixo, ele precisa desenvolver uma capacidade de comunicação muito mais ampla do que um ser que pode simplesmente ir embora. Precisa ser capaz de informar todos os organismos ao seu redor sobre aquilo que está acontecendo. As plantas estão paradas e, de fato, são comunicadoras extraordinárias. Elas trocam informações sobre tudo. Muitos anos atrás, por exemplo, descobrimos que, se um grupo de plantas recebe sal nas raízes (e o sal é um veneno para elas), essas espécies avisam as vizinhas: “Tomem cuidado, porque o sal está chegando.” Assim, aquelas que estão ao redor, começam a se preparar para resistir a essa adversidade. As plantas trocam informações sobre o ambiente: se está quente ou frio, se há água ou falta água, se há insetos se alimentando delas. Todas essas informações circulam entre elas. Nós nos comunicamos por meio de palavras e sons. Já as plantas usam a química: produzem uma enorme quantidade de moléculas químicas que viajam pelo ar e chegam a outra planta. O problema é que se trata de uma linguagem muito complexa. Até agora conseguimos compreender apenas uma parte dela. É um pouco como os ideogramas ou os hieróglifos. Cada sinal corresponde a uma mensagem. Quando você reúne três ou quatro sinais, eles passam a significar outra coisa. Com as moléculas químicas das plantas ocorre exatamente o mesmo. Há moléculas cujo significado conhecemos: “socorro”, “há um problema”, “estão me atacando”. Quando elas aparecem combinadas com muitas outras, o significado muda, e nós ainda não sabemos interpretá-lo. É praticamente uma língua própria. Há cerca de dez anos, inclusive, descobrimos que existem dialetos. Plantas da mesma espécie, mas que crescem em regiões diferentes, comunicam-se melhor entre si do que com grupos da mesma espécie de outras regiões. Elas se entendem mais ou menos, mas não perfeitamente, exatamente como acontece com os dialetos dos nossos idiomas.
O que essa lógica de organização das plantas pode nos ensinar sobre inteligência coletiva e sobrevivência?
Nós, seres humanos, criamos organizações inspiradas no modelo do nosso próprio corpo, que responde a uma hierarquia. A cabeça governa órgãos únicos ou duplos, cada um responsável por uma função específica. Vemos com dois olhos, comemos com uma boca, respiramos com dois pulmões, fazemos a digestão com um estômago. Temos um ou dois órgãos especializados que desempenham muito bem uma única função. Nós pegamos essa organização do nosso corpo e a reproduzimos em toda parte. Na universidade, nos governos, nas empresas. Onde quer que você olhe, há um chefe com nomes diferentes: diretor, presidente, diretor-executivo. Abaixo dele, órgãos especializados. Se observarmos o organograma de qualquer organização humana, veremos exatamente esse modelo. Igual ao nosso corpo. A única vantagem de uma organização hierárquica é a velocidade. Isso acontece porque somos animais e precisamos nos mover. Esse tipo de organização nos permite agir com rapidez. Em todo o resto, é uma organização terrível, frágil. Basta que um único órgão deixe de funcionar para que toda a estrutura entre em colapso. Um dos principais problemas desse tipo de organização é justamente este: quem decide não vive ao lado de quem sofre as consequências das suas decisões. Com as plantas, a organização é completamente diferente. São distribuídas, difusas, horizontais, nas quais não existe um chefe. Todo o organismo é capaz de fazer de tudo. Executa cada tarefa com menos eficiência do que um órgão especializado, mas é capaz de executá–la. Imagine uma grande árvore com dois pulmões ou um cérebro. Bastaria o primeiro inseto comer um pequeno pedaço dela para que a planta inteira morresse. É possível remover 80% do corpo de uma planta e ainda assim ela permanece viva. Por mais estranho que pareça, esta é também de uma organização criativa, porque resolve os problemas exatamente onde eles surgem.
Existe entre as plantas um senso de comunidade que poderia nos inspirar?
As plantas são extraordinariamente competentes em criar comunidades nas quais umas ajudam as outras. Por que fazem isso? Não porque sejam anjos ou porque exista uma moral ou uma ética vegetal. Fazem isso porque essa é a forma mais eficiente de garantir a sobrevivência da espécie. E isso é algo de que nós nos esquecemos completamente. O ser humano já não pensa mais em termos de espécie. Ele pensa em termos de indivíduo. E, quando se pensa como indivíduo, o resultado muitas vezes é diferente — ou até o oposto.
Em Fitópolis, o senhor defende que as cidades devem ser projetadas de uma maneira que priorize a interação com a natureza. Esse pensamento vegetal poderia ajudar e planejar novas formas de organização urbana?
Sem dúvida. Antes de tudo, na própria forma de organização. Veja: nós também reproduzimos nas cidades aquela ideia da organização animal, com um chefe e órgãos especializados. Quase todas as cidades têm um centro administrativo, onde ficam a prefeitura, os órgãos de poder, os tribunais. Depois há a região dos hospitais, a região das universidades e outras áreas especializadas. Eu passo muito tempo no Japão porque um dos meus laboratórios fica lá. Em Tóquio, há um bairro onde existem apenas livrarias. Alguém pode pensar: “Que ótimo. Você vai até lá e encontra todas as livrarias.” Não, isso é uma loucura! Há o bairro das livrarias, o bairro dos eletrodomésticos… Dentro do bairro dos eletrodomésticos, existe a área dedicada às geladeiras, outras às televisões… As cidades não devem ser construídas dessa maneira. Não importa em que parte da cidade você more: em pouquíssimo tempo — digamos, em no máximo 15 minutos — você deve conseguir chegar a tudo de que precisa. Hoje, se fala muito na “cidade dos 15 minutos”. Mas, na verdade, esta seria uma cidade distribuída, difusa – um tipo de cidade vegetal onde todos os serviços estão espalhados pelo território, e não concentrados em um único lugar.

O senhor disse que os humanos se transformaram em uma espécie especialista ao viver prioritariamente em cidades. Qual é a consequência disso?
Neste planeta, do ponto de vista biológico, existem dois tipos de espécies. A primeira delas é a generalista, que pode viver em qualquer lugar. A humanidade, desde que surgiu há 300 mil anos até algumas décadas atrás, tem sido exatamente isto: uma espécie generalista, capaz de se adaptar a qualquer ambiente neste planeta. As espécies especialistas vivem em ambientes específicos, onde são extraordinariamente eficientes. O coala, por exemplo, vive apenas em florestas de eucalipto. Ele é uma espécie chamada monófaga [que se alimenta de um único tipo de alimento]. O panda vive em florestas de bambu. Os cactos também são espécies especialistas. Eles prosperam em um ambiente específico: as terras áridas. Qual o problema com essas espécies? Elas são extraordinariamente eficientes enquanto o ambiente estiver estável. Quando ele muda, essas espécies correm o risco de extinção. Quando mais de 70% de uma espécie, como a nossa, vive em um ambiente específico, como a cidade, então ela se torna uma espécie especialista. Você pode perguntar: “Mas o que isso significa?”. Nos tornamos especialistas precisamente no pior momento da nossa história. Em uma época em que não deveríamos ter feito algo assim. Este é o único momento em que o ambiente está mudando muito rapidamente. Dessa maneira, a questão das cidades torna-se relevante para a sobrevivência da nossa espécie quando pensamos no que o aquecimento global e as mudanças climáticas significam para nós.
O que podemos fazer para evitar esse cenário?
Deveríamos primeiro nos preocupar em fazer o problema desaparecer. Nós precisamos reduzir a quantidade de dióxido de carbono que produzimos. Infelizmente, estamos fazendo exatamente o contrário. A cada ano, produzimos mais dióxido de carbono do que no ano anterior. E ainda há lugares do planeta onde a questão ambiental praticamente desapareceu. Ela é negada. Essa é uma das grandes loucuras do nosso tempo. A ciência apresenta fatos, apresenta problemas reais e dizer que um problema desses não existe é a coisa mais estúpida que se pode fazer. Este é o maior problema que a humanidade já enfrentou em toda a sua história – um consenso entre a comunidade científica. Só que vem sendo tratado como se fosse uma questão “de esquerda”. Assim, apenas a esquerda deveria se preocupar com ele, enquanto a direita não deveria. Isso é uma enorme estupidez. Problemas científicos não podem se transformar em motivo de divisão entre um lado e outro da política. O problema existe e precisa ser enfrentado por todos.
Quais caminhos podem ajudar a sociedade a se adaptar de forma mais sensível às emergências climáticas?
O aquecimento global afeta o planeta inteiro, mas atinge principalmente as cidades. É nelas que seus efeitos são muito mais intensos do que no restante do planeta. Não conheço os dados do Brasil, mas imagino que não sejam muito diferentes dos da Itália. As cidades italianas estão, hoje, mais de 3 °C mais quentes do que estavam em 1960. É um aumento enorme em apenas 60 anos. Isso provoca problemas graves de saúde. As pessoas morrem. Ainda não estamos fazendo os cálculos corretamente, mas a revista Nature começou a publicar estudos estimando quantas pessoas morreram apenas nos meses de julho de 2023 e de 2024, na Europa. Estamos falando de centenas de milhares de pessoas. Costumamos associar a morte causada pelo calor apenas à pessoa que sofre uma insolação grave. Mas esses casos são poucos. Não são eles que explicam esses números. Existe uma relação direta entre a incidência de doenças cardiovasculares e o aumento da temperatura. É gravíssimo. E quem morre por causa do calor? As pessoas mais vulneráveis: os frágeis, os pobres, os idosos.
Uma cidade com menos asfalto é uma cidade mais bela, mais habitável e mais saudável. Além disso, é uma cidade que aprendeu a usar as plantas da maneira mais importante: para salvar a vida das pessoas.
Como adaptar as cidades para resistir às emergências climáticas?
Só existe uma maneira: cobrindo-a de árvores. Precisamos remover uma parte significativa das ruas asfaltadas. Cerca de 35% a 40% da superfície de uma cidade é ocupada por ruas, feitas para automóveis. Será que precisamos realmente de todas elas? Podemos eliminar de maneira racional, adequada e eficiente, 20% dessas vias e, em seu lugar, criar verdadeiros corredores de árvores; a temperatura da cidade poderia ser reduzida significativamente em até 3o C. Parece impossível, maluco e utópico simplesmente porque ninguém ainda o fez. No Brasil, vocês têm uma história importante de urbanismo. A primeira cidade do mundo a criar uma área exclusivamente para pedestres, sem circulação de carros, foi Curitiba [o calçadão da rua XV de Novembro]. E isso aconteceu graças a um grande prefeito, [o arquiteto e urbanista] Jaime Lerner (1937-2021). Ele decidiu fechar o centro da cidade para o trânsito. Ninguém jamais havia feito algo parecido. Esse exemplo se espalhou pelo mundo e, hoje, praticamente todas as cidades têm uma área exclusiva de pedestres. Acredito que precisamos encontrar novos prefeitos ou prefeitas – as mulheres, no geral, são mais corajosas do que os homens – para começar a fazer algo semelhante: retirar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores. Uma cidade com menos asfalto é uma cidade mais bela, mais habitável e mais saudável. Além disso, é uma cidade que aprendeu a usar as plantas da maneira mais importante: para salvar a vida das pessoas.
As plantas poderiam ajudar a moldar um futuro mais otimista para a humanidade?
Muitos dos problemas da humanidade nascem justamente do fato de termos pensado que a vida era uma questão animal. A verdadeira vida, no entanto, é a das plantas. Se começássemos a estudar as plantas — observando como se comportam, suas estruturas organizacionais e sua capacidade de priorizar a comunidade em vez de organismos individuais; se simplesmente começássemos a prestar atenção nelas — a notar sua existência, observar como vivem e perceber que não são apenas um cenário verde (aquele “fundo verde” de que falamos, como uma floresta) —, veríamos que elas são, na verdade, um coletivo de seres vivos inteligentes que resolvem problemas de uma maneira que, infelizmente, nós, humanos, já não conseguimos mais fazer.
Assista a trechos da Entrevista com o professor e escritor italiano Stefano Mancuso, realizada no Sesc São José dos Campos, em junho de 2026.
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