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Uma mulher em duelo com o tempo em A Domadora

Foto: Otavio Dantas
Foto: Otavio Dantas

Quinze segundos antes de um número de circo acabar, a domadora de elefantes tem a ponta do nariz tocada por uma das patas do animal. O tempo é suspenso e, diante da fragilidade da ação, a artista é tomada por questionamentos sobre as transformações do corpo e da mente e de suas relações pessoais e de trabalho. Em A Domadora, que estreia dia 27 de abril, no Auditório do Sesc Pinheiros, a mulher é obrigada a encarar seu maior medo: envelhecer.

Paula Picarelli, que interpreta a personagem em questão, teve uma primeira inspiração sobre a peça na Holanda. “Eu estava me apresentando por lá com o espetáculo O Jardim, da Cia. Hiato, e, passeando pelo Zoológico de Amsterdã, me chamou a atenção uma moça fazendo uma pequena apresentação com um elefante”, conta a atriz. O contraste entre a pequena mulher e o enorme animal foi um disparador para as primeiras pesquisas do processo.

Otávio Dantas, diretor e co-criador do espetáculo, provocou Paula a pensar o que esse elefante representaria na peça, o que ela desejava domar. “Identificamos que esse medo, o medo de envelhecer, nos era comum, meu e dele, e então embarcamos na pesquisa”, revela. Rapidamente, as relações entre os maiores mamíferos terrestres e a personagem foram se estabelecendo. “(Os elefantes) são os únicos sobreviventes de mais de 600 espécies gigantescas que habitaram o planeta há milhões de anos. São inteligentes, sensíveis e emocionalmente complexos. (...) São, normalmente, criaturas dóceis, mas quando se sentem ameaçados podem se tornar extremamente violentos. Então, vimos que ele poderia dialogar com os lados obscuros dos processos psicológicos dessa mulher”, afirma.


(Foto: Otavio Dantas)

Além dessa conexão, a constatação de que o envelhecimento é mais cruel para as mulheres somou-se à temática. “Como diz Barbara Walker em A Velha, a sociedade moderna de certa forma elimina as mulheres velhas. (...) Somos, social e profissionalmente, prejudicadas pelas rugas e pelos cabelos brancos de uma forma que os homens não são”. Quando o assunto é sexualidade, o tratamento é tanto ou ainda mais desigual. “Todos têm uma história engraçada para contar de um vovô tarado, mas falar de sexo entre mulheres velhas é um tabu”, completa.

Para ela, isso também se reflete no próprio fazer artístico. “Agora, bem perto dos quarenta anos, me dou conta de que já há ao meu redor personagens que eu não vou mais fazer. Ofélia, Julieta, Nina, Maria Cecília e muitas outras, ficaram para trás definitivamente. Então comecei a pensar em personagens que eu queria viver antes de envelhecer e me lancei na história dessa mulher”.

Uma mulher em duelo com o tempo, em um dos poucos lugares onde é possível domá-lo: o palco.

O espetáculo fica em cartaz até 27 de maio (quinta-feira a sábado), sempre às 20h30. Para comprar os ingressos, clique aqui

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