Aprender ciências fora da escola

01/07/2026

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Museus, parques e outros espaços dedicados às ciências convidam públicos de todas as idades a transformarem curiosidade em conhecimento (foto: Nilton Fukuda)

POR ALEXANDRE RAITH

Leia a edição de julho de 2026 na íntegra

Julho é tempo de férias escolares e pode ser uma oportunidade para despertar a curiosidade e a imaginação das crianças pelo universo das ciências. Planetários, observatórios, jardins botânicos e museus de história natural convidam o público a explorar temas como astronomia, biodiversidade, tecnologia, fósseis e meio ambiente. Esses espaços aproximam os visitantes dos processos de investigação que fazem parte da produção do pensamento científico, por meio de uma experiência interativa, divertida e cheia de descobertas. Além do lazer, visitar esses locais durante as férias pode fortalecer o interesse pelo conhecimento.

Observar fenômenos, manipular objetos e participar de atividades práticas são algumas das opções presentes nesses espaços culturais. De modo lúdico e cercado por brincadeiras e desafios, o público é convidado a se envolver com experiências sensoriais e investigativas, dando novas dimensões para o aprendizado teórico da sala de aula.

A ideia de expandir o conhecimento para além do conteúdo conceitual é tão presente na educação que integra a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que reúne as aprendizagens essenciais a serem desenvolvidas ao longo da Educação Básica. O documento defende um ensino de ciências baseado na investigação, observação e resolução de problemas do cotidiano. Em vez de restringir a aprendizagem à memorização de conceitos, a BNCC propõe que os estudantes desenvolvam a capacidade de formular hipóteses, analisar evidências, argumentar e compreender a relação entre ciência, tecnologia, sociedade e meio ambiente.

Para a professora e pesquisadora Martha Marandino, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), a formação acontece em diferentes ambientes sociais. Referência nos estudos sobre educação não formal – que ocorre em espaços que não a escola –, a professora explica que centros culturais de ensino de ciência possuem intencionalidade educativa, mas funcionam de maneira distinta da escola, com outras formas de organização do tempo, do espaço e das experiências de aprendizagem. “Algumas pesquisas no Brasil indicam que é a escola que dá o acesso a esses espaços culturais para crianças e jovens. Isso mostra a importância de uma parceria”, afirma Martha, que também coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Não Formal (GEENF/USP).

Mais do que despertar curiosidade e a imaginação dos visitantes, esses ambientes ajudam a desenvolver o pensamento científico. Para a professora, nesse processo é fundamental compreender como a ciência é produzida. “A ciência é um empreendimento humano, logo ela está relacionada a interesses econômicos, políticos e sociais. Ela é influenciada pelas concepções de ser humano e de conhecimento dos diferentes momentos históricos. Não podemos separar o aprendizado do conhecimento científico dessas dimensões que são da natureza da ciência, do processo de produção do conhecimento e das relações entre a ciência e a sociedade”, explica.

Locais de interação e vivência
O livro A Educação em museus e os materiais educativos (GEENF/USP, 2016), organizado pela professora Martha, destaca que espaços culturais deixaram de ser apenas locais de contemplação para se tornarem lugares de interação, diálogo e mediação cultural. As atividades desenvolvidas ajudam os visitantes a construir interpretações próprias sobre os temas abordados, tornando a aprendizagem mais participativa.

Ao visitar um planetário, observar fósseis em um museu de história natural ou percorrer uma trilha em um jardim botânico, crianças e adolescentes – e por que não adultos – entram em contato com diferentes formas de produzir conhecimento. Nas férias, são experiências que unem lazer e educação, ampliam repertórios culturais e mostram que aprender ciência pode ser uma aventura repleta de descobertas.

Mais do que apresentar informações, centros culturais de ciências estimulam perguntas, e ajudam a reforçar a noção de que o conhecimento não nasce de respostas prontas, mas da capacidade de questionar, investigar e buscar explicações para os fenômenos naturais. Esse é o ponto de partida da Sabina Escola Parque do Conhecimento, museu de ciências em Santo André, na região do ABC paulista. “Nosso espaço foi projetado para uma vivência visual, interativa e prática. Dessa forma, o visitante pode ser despertado para o universo científico. Imagine estudar os dinossauros na teoria e, depois, conhecer um modelo de fóssil de Tiranossauro rex em tamanho real?”, explica Marcos Pedroso, coordenador de atividades do local. “A experiência se torna completa e, assim, conseguimos alcançar plenamente os objetivos pedagógicos”, defende.

Para Pedroso, espaços como a Sabina estimulam o aprendizado científico por causa do contato próximo com o objeto estudado. “A vivência prática, visual e lúdica consolida a construção do conhecimento e, consequentemente, incrementa e aprofunda o pensamento científico do indivíduo desde a base”, afirma.

Ter a oportunidade de ver de perto animais como cobras é uma das atrações do Butantan (foto: José Felipe Batista)

Espaços de encantamentos
Exercitar o pensamento científico consiste em ensinar a observar com atenção, levantar hipóteses, analisar evidências e construir argumentos fundamentados. Essa dinâmica reproduz as etapas do método científico. Primeiro surge a pergunta. Em seguida, formulam-se explicações possíveis. Depois, vêm a observação, o teste e a análise dos resultados. Ao participar desse processo, os visitantes compreendem que a ciência não é um conjunto de verdades prontas, mas uma construção contínua baseada em investigação, evidências e debate.

Mas, como transformar conceitos científicos em narrativas envolventes e com linguagem acessível? “Podemos fazer isso utilizando uma imersão por meio do nosso projetor de estrelas que simula um céu verdadeiro”, exemplifica Mirian Castejon, supervisora de Astronomia do Planetário do Ibirapuera, na capital paulista. “Quando a criança pode observar e interagir com o conteúdo, ela se sente parte da descoberta. Muitas vezes, as perguntas que elas fazem durante as atividades são justamente o ponto de partida para discussões muito ricas e novas curiosidades”, completa a astrofísica.

Ela acredita que, graças a essa participação ativa dos visitantes, espaços culturais estimulam o pensamento científico “ao incentivar a curiosidade, a observação, o questionamento e, o principal, gerar encantamento”, relaciona.

A vivência prática, visual e lúdica consolida a construção do conhecimento e, consequentemente, incrementa e aprofunda o pensamento científico do indivíduo desde a base
Marcos Pedroso, coordenador de atividades da Sabina Escola Parque do Conhecimento

Protagonista do aprendizado
Visitar espaços culturais com esse perfil cria memórias na criança, pois a experiência funciona como uma semente, na opinião de Rafael Adinolfi, coordenador do núcleo técnico do Museu Catavento, em São Paulo. “Quando a criança toca, experimenta e investiga, ela se torna protagonista do próprio aprendizado.” O verdadeiro desafio na mediação desses espaços está em criar situações que incentivem a formulação de perguntas e a busca por respostas e, sobretudo, em transformar temas complexos em experiências atraentes. 

O coordenador do Museu Catavento explica que as abordagens devem ser específicas para cada faixa etária, enquanto o uso de analogias e aproximações com o cotidiano é relevante para conectar o conceito científico ao conteúdo aprendido na escola. “O cérebro das crianças ainda está em desenvolvimento, e a interação física com experimentos, oficinas e materiais educativos oferece estímulos que criam conexões neurais”, diz Adinolfi.

No Sabina Escola Parque do Conhecimento, em Santo André, a ideia é oferecer uma programação instigante e visual (foto: Sabina Parque).

Estimular a imaginação
A curiosidade é uma ferramenta no processo de aprendizagem. Quanto mais perguntas surgem, maiores são as oportunidades de aprofundar o conhecimento. Suzana Cesar Gouveia Fernandes, diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Instituto Butantan, ao qual se vincula o complexo cultural Parque da Ciência, conta que o desenvolvimento infantil é influenciado pela imaginação. “Desde a primeira infância, a criança é estimulada a imaginar, no sentido mais amplo, e é também estimulada a aprender”, diz. “No que diz respeito ao aprendizado científico, estimular a criatividade, mostrando que podem existir diferentes formas e habilidades para se chegar a um objetivo, incita a convivência e a capacidade de pensar criticamente e coletivamente, elementos que são a base da ciência”, acrescenta Suzana.

Para ela, tal objetivo pode ser alcançado quando centros culturais oferecem diferentes possibilidades de interação, para que os visitantes se sintam seguros e estimulados a exercitar a curiosidade. “Nos museus, a imaginação é exercitada por meio de atividades lúdicas, desafiadoras e socializantes. A imaginação do público, aliada ao conhecimento sobre educação em ciências, gera ações nos espaços de educação não formal que contribuem significativamente para o desenvolvimento de cidadãos comprometidos com o conhecimento científico e com o bem-estar social”, acredita a diretora.

Aprender coletivamente
Frequentar esses espaços durante as férias revela como o lazer combina com diversão, cultura e aprendizado. Além disso, o saber é adquirido de forma compartilhada, já que crianças, jovens e adultos trocam impressões, fazem perguntas e descobrem juntos novas informações. Neste contexto de troca, as pessoas cuidadoras revisitam conteúdos estudados há anos ou entram em contato com temas que nunca tiveram oportunidade de explorar. Esse processo se transforma em um momento de troca, fortalecendo os laços familiares por meio do aprendizado conjunto e da construção coletiva de conhecimento.

Além disso, quando a educação científica se torna acessível, as pessoas desenvolvem o pensamento crítico e se tornam aptas a opinar – e aí está a compreensão da ciência sob uma perspectiva social. Ao frequentar espaços culturais, os visitantes constroem repertório capaz de reconhecer informações confiáveis e identificar conteúdos enganosos. São experiências que podem abrir caminhos para vivências que fortalecem vínculos com a ciência e o saber, elementos fundamentais para o desenvolvimento intelectual e emocional de pessoas de todas as idades. 

Universo das ciências
Sesc São Paulo oferece experiências de aprendizado e de conexão com os saberes científicos em atividades nas unidades e em visitas a diferentes espaços

Atividades variadas aproximam crianças de elementos naturais (foto: Mirella Ghiraldi)

A ação educativa pauta as programações do Sesc São Paulo nas mais diversas frentes do conhecimento, de modo permanente e transversal. Por meio de atividades ao longo do ano, a instituição busca aproximar os frequentadores do universo das ciências, com projetos para todas as idades e em diferentes linguagens. São oficinas, debates, mostras, encontros, passeios e cursos de diferentes perfis. 

Neste mês, dois projetos convidam a população a se aproximar dos diferentes saberes e a experimentar novas possibilidades de aprender. Oba! Bora Passear!, projeto de Turismo Social do Sesc, é voltado para crianças de até 12 anos e seus responsáveis e propõe experiências turísticas, culturais e educativas, como visitas a espaços de aprendizagem. Nesta edição, 25 unidades do Sesc na capital, Grande São Paulo, interior e litoral oferecem 30 atividades. Inscrições e programação completa podem ser conferidas em sescsp.org.br/obaborapassear. 

Já o FestA! – Festival de Aprender oferece programação gratuita em 43 unidades em todo o estado. Entre os dias 24/7 e 2/8, a ação reúne mais de 300 cursos, oficinas, encontros, vivências e demonstrações que exploram os universos das artes visuais, tecnologias e da ciência. Inscrições e programação completa em sescsp.org.br/festa.  

Confira destaques:

Oba! Bora Passear!
São Caetano 
Pegadas do Universo: Museu Aberto de Astronomia
Passeio a Campinas para conhecer os mistérios e encantos dos planetas, das estrelas e do Sol. Dia 17/7, às 12h. Pré-inscrição via portal. 

Bauru 
A Geologia da Cuesta
Passeio ao Museu Aberto de Geociências e Ecoparque Pedra do Índio, em Botucatu. Dia 18/7, às 7h30. Pré-inscrição via portal. 

Itaquera 
Descobrindo o Mundo da Ciência: Instituto Butantan
Conheça um dos mais importantes centros de pesquisa biomédica do mundo. Dia 26/7, às 7h30. Saída da unidade. Pré-inscrição via portal. 

FestA! – Festival de Aprender
Casa Verde 
Contagem Regressiva: Experiência espacial
Oficina temática sobre astronomia que contará com um planetário. Dias 24 e 31/7, às 13h30. Grátis.

Registro 
Tecnologias Indígenas: Grafismos Guarani
A proposta é ampliar o entendimento sobre tecnologia, reconhecendo saberes tradicionais. Dias 31/7 e 1/8, às 14h. Grátis.

Taubaté 
Raiz Digital: Usina de Fabricação de Cerâmica com impressora 3D
Oficinas e vivências que propõem a criação de personagens, brinquedos e arquiteturas imaginárias. Dia 31/7, às 14h. Grátis.

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