Todos os tempos

28/08/2026

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Conceituada pela ciência e encantada pela poesia, a temporalidade assume diferentes formas e relações na vida de cada um

Leia a edição de setembro de 2026 na íntegra

POR MARIA JÚLIA LLEDÓ

Somos seres temporais. Uma espécie que dá contornos à realidade a partir da ideia de passado, presente e futuro. Primeiro, concebemos uma forma de viver coletivamente ao compasso das estações, do vai e vem das marés, da posição do sol, da lua e das estrelas. Já vivemos inteiramente sob a regência do tempo da natureza, coroado pelo poder da transformação, como descreveu o músico Gilberto Gil na canção “Tempo rei” (1984).   

Ao longo da história, outros elementos se somaram a essa concepção. Filósofos, matemáticos, físicos e poetas debruçaram-se sobre o significado do tempo. E assim, essa percepção se moldou conforme transformações políticas, sociais, econômicas e culturais de diferentes épocas. Sempre ditada pelo ritmo das invenções humanas, que definiriam nossa relação com o “antes”, o “agora” e o “depois”. Tais como livro, relógio, prensa, jornais, computadores, inteligência artificial… E o que ainda está por vir. 

Saudamos o passado, vislumbramos o futuro e vivemos um presente que parece nos escapar, cada vez mais veloz, em meio às revoluções da era digital. Por isso, tentamos negociar com o tempo o tempo todo. Mais cinco minutos de soneca, mais dez minutos de brincadeira, menos horas de trabalho. Tentamos entrar num acordo com o “compositor de destinos, tambor de todos os ritmos” que o compositor e cantor Caetano Veloso tão bem definiu em “Oração ao tempo” (1982). 

Ainda que medida pelos ponteiros do relógio, a temporalidade assume uma forma para cada indivíduo, transformando-se ao longo dos anos. Desde as memórias que serão preservadas à maneira como se vive o presente e como se projeta o amanhã. A partir dessa reflexão, oito personalidades de diferentes gerações compartilham suas impressões. E para você? Qual a sua relação com o tempo? 

CURVAS DE UM RIO
João Bosco, 80 anos, músico e compositor

“Nunca consegui enxergar o tempo como uma linha reta. Ele me parece mais um rio, desses que às vezes correm na superfície e às vezes seguem por baixo da terra. A gente imagina que abandonou certas coisas, mas basta uma lembrança, um cheiro, um acorde, e tudo volta a existir no presente. Os anos nos transformam fisicamente, claro. O corpo passa a conversar conosco de outra maneira. Mas existe uma parte da gente que continua curiosa, espantada diante da vida, querendo descobrir um acorde novo, uma palavra que ainda não tinha sido dita. Enquanto essa curiosidade permanece viva, o tempo deixa de ser um inimigo. Ele passa a ser um professor. A memória nunca foi, para mim, um lugar de nostalgia. Ela é matéria-prima. É dela que nasce boa parte da minha música. E o futuro continua sendo um espaço de descoberta. Ainda tenho vontade de compor, de aprender, de encontrar músicos diferentes, de experimentar sonoridades novas. A curiosidade não envelhece. Completar 80 anos não é chegar a um ponto final. É apenas enxergar a paisagem de um lugar mais alto, de onde se consegue ver melhor o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, perceber que ainda existe horizonte. Enquanto houver uma canção querendo nascer, enquanto puder subir ao palco e sentir essa conversa silenciosa com as pessoas, enquanto meus netos quiserem comer biscoito com requeijão e eu tiver que buscar, vou entender que o futuro continua acontecendo.”

(foto: Leo Aversa)

CERTEZA DA FINITUDE
Paulo Saldiva, 72 anos, médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) 

“Eu remava, corria, andava de patinete e bicicleta, ou seja, me orgulhava da minha capacidade física. Até que sofri um acidente de bike e tive que colocar uma prótese que, oito anos depois, infectou. Fiquei internado. Com isso, tive uma experiência de quase morte em 2025. Não vi luz nenhuma, mas eu tinha certeza de que iria morrer. Pensei que eu fiz bobagens na vida, pensei na morte, algo que para mim estava muito distante. Mas eu tive uma certeza: a finitude. E quando você passa a ter menos certezas de julgamento e mais incertezas de um fato inexorável, você procura um propósito pelo tempo que te resta. Você volta diferente disso. No meu trabalho, você lê a história da vida de cada pessoa no corpo, nas marcas que o corpo tem. A morte é muito simples, o mistério está na vida. Você tem uma sobrevivência que dura enquanto viverem as pessoas que se lembram de você. Essa é a minha visão de futuro. Para mim, o futuro tem uma finitude também. Nosso caminho é o esquecimento, a não ser que você seja um gênio como Miguel de Cervantes (1547–1616), e tenha escrito Dom Quixote (1605), para mim o melhor livro já escrito. Mas eu gostaria de ter alguma sobrevida à minha finitude e ser lembrado, talvez, com uma marchinha de Carnaval. Ou melhor, como professor, na memória dos meus alunos.”

(foto: Nilton Fukuda)

CORPO EM MOVIMENTO
Neide Santos, 66 anos, corredora e fundadora do projeto social Vida Corrida 

(foto: Nilton Fukuda)

“Minha mãe vai fazer 89 anos, tenho uma filha, uma neta e uma bisneta. Eu vivo cinco gerações de mulheres na minha família. Nas fotos de papel que eu guardo, vejo aquela mulher sem rugas e com uma vontade de vencer gigantesca. Assim eu percebo que o tempo passou e envelheci. Tudo o que eu fazia antes ainda faço hoje, mas faço no meu tempo. Para mim, o esporte era competitivo e hoje é para uma vida inteira. O tempo passou e eu percebi a grandiosidade do esporte na minha vida desde que comecei muito cedo. Ainda não tenho o hábito da caminhada porque corro todo santo dia, às cinco da manhã. Aos 66 anos, quando me olho no espelho, gosto dessa mulher que sempre manteve o corpo em movimento. Por isso, pretendo mantê-lo assim enquanto puder inspirar e respirar. Ainda sou inquieta, mas achei que quando fosse envelhecer ia ficar zen e tranquila. Mas sinto falta e necessito desse movimento. Hoje, estou vivendo com a inteligência artificial, convivendo com outras gerações e em busca de aprendizados. Envelhecer para mim é isto: continuar conectada com essa geração. Eu não me preocupo mais com o meu futuro. Tudo o que faço e produzo é pensando no futuro das gerações que estão por vir. Meu tempo, enquanto eu viver, será infinito.”

TEMPO ESPIRALAR
Bel Santos Mayer, 59 anos, educadora e coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC)

“Até pouco tempo, tive meu pai vivo. Tenho minha mãe, aos 88 anos, tenho sobrinhas, sobrinhos, netas, um sobrinho bisneto e uma sobrinha bisneta. Assim, a minha percepção da passagem do tempo é essa continuidade. É esse ir e vir. É olhar nas crianças pequenos gestos que conheci na minha avó, no meu pai, na minha mãe. É perceber as coisas num ‘tempo espiralar’, como diz a professora Leda Maria Martins. Ou seja, a gente vê o tempo fazendo seus caracóis e trazendo a gente de volta, nos fazendo lembrar de coisas que, às vezes, estavam adormecidas. Olhar o tempo, para mim, é ter a felicidade de estar envelhecendo e poder fazer escolhas. Como diminuir ritmos e ter paciência e ciência para apresentar aos meus mais velhos o mundo que a gente está vivendo. É encontrar palavras para dizer tantas coisas que ficaram em silêncio. Fui uma criança, adolescente e jovem interessada nas coisas do passado. Eu já gostava de escrever o que acontecia. Fui escriba das receitas da minha mãe e das cartas da minha avó. Tenho certeza de que esse exercício de elaboração da memória vivida, ou mesmo esse direito de inventar uma memória quando há buracos, é muito interessante para a gente entender o mundo em que vivemos. Eu não sou daquelas que fica esperando ‘o futuro repetir o passado’. O tempo é uma gangorra. A gente está a cada dia com enormes desafios, muitas ameaças e dúvidas, mas eu conheço muita gente que tem procurado fazer o futuro ser melhor.”

(foto: Nilton Fukuda)

CONTRA O RELÓGIO
Naruna Costa, 43 anos, atriz, cantora e diretora

“Eu percebo o tempo como se estivesse vivendo uma mudança de era. Quando lembro a minha infância – nasci e cresci em Taboão da Serra (SP) –, a minha rua era de terra. A partir da minha adolescência, nos anos 1990, as coisas foram se modificando de forma muito rápida. A rua passou a ser asfaltada, a relação com o bairro mudou, houve um crescimento das comunidades ao redor da casa dos meus pais. Tudo aconteceu de forma veloz e pouco estruturada. Depois disso, vieram a internet e a tecnologia. Minha percepção do tempo hoje é como se a gente estivesse numa esteira em que a velocidade aumentou bruscamente e se tornou muito difícil estar conectada ao compasso. Então, são muitas as demandas para um tempo que é o mesmo de antes, mas como nossa relação com ele mudou, temos a sensação de que o tempo é muito pouco para se viver plenamente. Hoje, eu penso no futuro enquanto possibilidade de qualidade de vida. Isso, certamente, tem muito a ver com o tempo de qualidade. Amo trabalhar e pretendo ser uma velhinha que trabalha muito, mas também gostaria de viver o tempo no qual o trabalho não seja protagonista. Assim, seria possível observar como a gente vive no descanso. Sem que esse descanso seja a falta de trabalho ou a ausência de oportunidades, mas um lugar de recolhimento, reestruturação, cura e de celebração.”

(foto: Nilton Fukuda)

PONTO DE RETORNO
Aline Bispo, 37 anos, artista visual

(foto: Daisy Serena)

“Costumo pensar sobre a passagem do tempo especialmente no mês do meu aniversário (julho). Isso sempre foi uma constante desde criança. Eu pedia aos meus pais que me contassem várias vezes sobre como nasci, como comecei a andar e outros detalhes da minha vida que eu não teria a possibilidade de me lembrar. Nos últimos tempos, desde que venho atravessando o luto pela perda do meu pai, essa prática tem se expandido para outras situações. Desde me esforçar para estar o mais presente possível em minhas ações, até lapidar o meu olhar para as coisas que são atravessadas por meses e anos. Como cuidar das plantas em meu jardim e observar a transformação física das pessoas da minha família e de amigos. Dentro da minha prática religiosa, tradicionalmente cultuamos o Orixá Tempo, e é na árvore de Iroko, a gameleira, que se preserva, alimenta e celebra a sua passagem nos planos espiritual e terreno. Essa força nos alinha com um caminho que não é linear, assim como a vida. Acredito que esse encontro mítico pode nos recolocar na espiral da vida, onde podemos fazer muitas coisas. Inclusive, retornar a pontos nos quais já estivemos, mas com a possibilidade de assumir novos posicionamentos, novas formas de ver a vida e, consequentemente, novas formas de agir a partir das experiências que outrora nos ensinaram. A relação com o passado existe, não a necessidade de reviver as coisas. Em minha vida, é comum limpar gavetas de tempos em tempos. Acredito que até a caixa das boas memórias precisa de revisão periódica. Uma das maneiras que tenho de pensar no futuro é mirá-lo a partir do que já fiz, de onde fui feliz, do que deu certo e posso repetir, além daquilo que ainda não fiz e desejo fazer.”

PARCEIRO DA EVOLUÇÃO
Gabrielzinho – Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, 24 anos, nadador e campeão paralímpico

“O tempo ensina muito. Aprendi que cada fase tem seu propósito e que grandes resultados são construídos com constância e disciplina. Quando eu era criança, tinha a chance de descobrir o mundo, brincar e sonhar sem me preocupar com os ponteiros do relógio. Naquele momento, aprendi que o tempo ganha valor quando é bem-vivido. Enquanto na piscina, o tempo é um parceiro da evolução de um atleta. Cada centésimo me desafia a buscar a minha melhor versão. Fora da água, eu tento viver de um jeito diferente. Sem tanta pressa. Levo comigo todos esses aprendizados. O passado me faz evoluir. Ele me lembra de onde eu vim e por que continuo seguindo em frente. Por isso, quando me perguntam quais são os meus sonhos, penso em continuar evoluindo, dentro e fora do esporte. Quero que a minha trajetória inspire outras pessoas e deixe um legado que vá muito além das medalhas. Hoje, eu continuo valorizando o tempo e entendo que algumas das melhores coisas do mundo acontecem no tempo certo.”

(foto: Marcelo Zambrana)

CERTO MISTÉRIO
Hevinha – Hevellin dos Santos Nascimento, 16 anos, estudante, ativista climática e líder do Movimento Girl Up

“Para mim, o tempo é um mistério. Como pode uma perspectiva criada pelos seres humanos impactar tanto nossas escolhas e a nossa vida? Em um piscar de olhos, aquilo que antes parecia eterno já se esvai como grãos de areia entre os meus dedos. No fim, o que permanece são fragmentos de memória. A adolescência é um período em que percebo que o tempo definitivamente não passa em linha reta, mas em curvas imprevisíveis. Nos últimos anos, também comecei a pensar que a tecnologia transformou profundamente a nossa relação com o tempo. As notificações, a rolagem infinita, os vídeos cada vez mais curtos… Quando cada minuto é fragmentado por estímulos constantes, deixamos de perceber a passagem do tempo com profundidade. Se hoje sou uma adolescente que gosta de ler, sou aspirante a cientista, defendo pautas como igualdade de gênero e proteção ao meio ambiente, gosto de editar vídeos e me sinto confortável falando em público, é porque um dia existiu uma criança curiosa que decidiu experimentar tudo isso pela primeira vez. Já o futuro me assombra ao mesmo tempo em que parece encantador e cheio de possibilidades. Por que ele precisa ser tão incerto? Quando penso no futuro, penso muito na minha vida acadêmica e profissional. E confesso que isso me dá medo. O mais curioso é que eu ainda nem sei exatamente qual curso quero fazer ou em qual universidade. Acho que, quando esse momento chegar, vou descobrir.” 

(foto: Regiane Oliveira)

Mês de celebrações
Sesc São Paulo comemora 80 anos com campanha de credenciamento e programações gratuitas entre os dias 11 e 13 de setembro

Pessoas que fizerem ou renovarem a Credencial Plena do Sesc em setembro terão gratuidade no exame dermatológico para acesso às piscinas (foto: Renata Teixeira)

O Sesc São Paulo celebra suas oito décadas neste mês com uma série de ações voltadas ao seu público prioritário e à comunidade em geral. De 11 a 13, shows e espetáculos realizados em todas as unidades do estado terão entrada gratuita. Entre as programações previstas está o concerto comemorativo da Orquestra Sonare no Sesc Pinheiros, no domingo (13/9), às 18h, em apresentação que integra o projeto Sesc Partituras. No Sesc Vila Mariana, o rapper Rincon Sapiência apresenta sucessos dos álbuns Galanga livre e Mundo Manicongo, no sábado (12/9), às 20h, e no domingo (13/9), às 18h.  

As artes cênicas também estão contempladas com apresentações gratuitas. No Sesc Ipiranga, Lady Macbeth: um ensaio sobre o poder revisita a personagem de Shakespeare em um solo de Aretha Sadick, com direção de Tainara Cerqueira. O espetáculo investiga as relações entre ambição, poder e consciência e segue em cartaz no domingo, dia 13. 

Neste mês, as unidades do Sesc também intensificarão as ações de credenciamento de trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo e seus dependentes. Quem fizer ou renovar a Credencial Plena do Sesc durante todo o mês terá gratuidade no exame dermatológico necessário para acesso às piscinas. 

Essas comemorações dos 80 anos dão continuidade a um calendário de ações que reforça a atuação do Sesc nas áreas de cultura, lazer, esporte, educação e saúde. Em maio, a instituição promoveu, em parceria com o Senac e a FecomercioSP, mais uma edição da Semana S, com atividades gratuitas em todo o estado. No Sesc São Paulo, a programação ocorreu de 15 a 17 de maio, com apresentações artísticas, ativações esportivas e ações voltadas ao bem-estar. Entre os destaques estiveram o Diálogos & Gestão, encontro voltado ao empresariado e convidados, no Sesc 14 Bis, e o Circuito Sesc de Corridas, em Bertioga. Acesse a programação completa de atividades em sescsp.org.br.

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