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Jacy recicla história a partir de frasqueira encontrada no lixo

Foto: Daniel Torres
Foto: Daniel Torres


Em 2010, Henrique Fontes, do Grupo Carmin, encontrou uma frasqueira no lixo próximo à casa de seus pais, em Natal. Dentro dela havia cartas rasgadas, cartões de banco e supermercado, exames médicos, próteses dentárias... A princípio, o ator e diretor não soube o que fazer com todos aqueles objetos; até ser incentivado por Marcio Abreu, diretor da Companhia Brasileira de Teatro, a levar aquela materialidade para a cena.

A pesquisa resultou em Jacy, espetáculo em cartaz no Sesc Pinheiros. Na peça, o grupo aborda o tema da exclusão social dos idosos a partir de investigações sobre a dona dos objetos. “A gente já pesquisava sobre o envelhecer e suas consequências. Sentíamos isso no próprio corpo... Com o achado da frasqueira, o óbvio se materializou: as vidas e histórias dos mais velhos são literalmente descartadas”, afirma Fontes, que integra o elenco do espetáculo ao lado de Quitéria Kelly.

Com as pistas deixadas na maleta e depoimentos da mulher que cuidou diariamente de Jacy em seus últimos 20 anos de vida, os artistas colheram informações sobre suas atividades, crenças, hábitos e a doença que possivelmente a matou. A partir desses vestígios, a companhia descobriu fatos que apresentavam ligação direta com a história do Brasil e da cidade de Natal, além de dados curiosos como o cargo que ela exercia como chefe de gabinete de um importante político de direita na época e seu relacionamento com um capitão americano.

Apesar de ser classificada como documental, a peça tem influência de múltiplas linguagens e diversas vertentes do próprio teatro. “Trabalhamos com camadas de narrativas de naturezas diferentes, ora jornalística, ora depoimento, ora teatro naturalista, outras teatro-dança”, revela Fontes. “A utilização dessas formas de narrar e a criação da dramaturgia audiovisual em diálogo direto com o texto escrito foram norteando a montagem das cenas”.

Segundo o diretor, o Carmin não entende a ficção como o contrário da história, mas como um elemento que potencializa a verdade dos fatos. Assim, o grupo potiguar intersecciona fragmentos de memória e realidades possíveis numa dramaturgia assinada por Fontes junto aos filósofos Iracema Macedo e Pablo Capistrano.


Jacy cumpre temporada de 19 de janeiro a 18 de fevereiro (quinta-feira a sábado), e os ingressos já estão à venda no portal do Sesc.

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