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A vida na ponta dos pés

Feche os olhos por 30 segundos e tente ouvir os sons ao seu redor. Você vai perceber que têm muitos ruídos que você não percebe quando está de olhos abertos.

Essa foi a sugestão de Flávio Roberto dos Santos Correia, jogador de Futebol para Cegos, ou Futebol de 5, para Anderson Carvalho, editor web do Sesc Rio Preto. Flávio mais outros nove atletas do Cesec - Centro de Emancipação Social e Esportivo de Cegos - de São Paulo estiveram em Rio Preto para participar de atividades do Sesc Verão no início de janeiro.

Os atletas fizeram jogos-exibição de Futebol para Cegos e de Goalball, modalidade desenvolvida especialmente para atletas que possuem deficiência visual. Além de assistir à apresentação dos atletas, o público pôde vivenciar as modalidades tendo seus olhos vendados.  Quem também passou por essa experiência foi o editor web do Sesc Rio Preto. Com os olhos vendados e muita coragem, Anderson tentou viver por alguns minutos o que os atletas com deficiência visual vivem todos os dias.

Flávio, que já nasceu com deficiência visual, destacou as principais habilidades que o esporte proporcionou a ele: audição bastante aguçada e muita atenção ao que acontece no ambiente. “É preciso ouvir a orientação do goleiro e do chamador (que integra a equipe). É preciso ainda, ouvir a bola, onde ela está correndo no campo e também os adversários. A capacidade de se orientar e se deslocar no espaço devem ser bem desenvolvidas”.

Confira alguns relatos do Anderson sobre sua experiência de jogar futebol com os olhos vendados:

Eonline: Como foi a experiência de jogar futebol com os olhos vendados?
Anderson Carvalho: Foi muito bacana. Nunca tinha passado por uma experiência assim. Além de uma prática prazerosa, foi também reveladora, pois pude colocar à prova algumas percepções, habilidades e limitações que não imaginava possuir.

Eonline: Quais foram as suas dificuldades?
Anderson Carvalho: A maior dificuldade foi me orientar dentro de campo. Apesar do goleiro do nosso time passar comandos básicos, gritando 'direita... esquerda... frente... atrás...', não era possível ter certeza sobre para qual direção eu deveria correr. Acredito que, pela falta dessa certeza (que a visão nos proporciona constantemente), minha maior dificuldade em executar as ações básicas de correr e chutar estava relacionada com o receio de trombar em outro jogador.

Eonline: Como você se orientou em campo?
Anderson Carvalho: A bola possui um guiso que emite um som característico quando está em movimento. Dessa forma, era possível imaginar em qual região a bola poderia estar. No entanto, apenas pelo som, não era possível saber a que distância a bola estava.

Eonline: Você conseguiu neste curto período aguçar outros sentidos, além da visão?
Anderson Carvalho: Certamente, a audição. Era preciso prestar bastante atenção a todos os detalhes, desde o barulho da bola rolando até os passos dos outros jogadores. Tudo isso para evitar colisões e tentar se dirigir ao gol do adversário.

Eonline: Qual foi o sentimento predominante desta experiência que você passou?
Anderson Carvalho: Medo de me machucar. Apesar de saber que eram mínimas as chances de uma lesão séria, o instinto de autopreservação limitou bastante meus movimentos. Na maior parte do tempo eu permaneci com os braços levantados, tentando tatear possíveis oponentes. Não consegui correr grandes distâncias com as passadas normais que o futebol exige. Porém, ao final, pude experimentar uma sensação de gratidão pela oportunidade de poder enxergar bem, e admiração pelos atletas que possuem deficiência visual . Sem dúvida, são pessoas que venceram muitas barreiras, físicas e mentais, para atingir o nível de habilidade que possuem, provando que não há limites para praticar qualquer modalidade esportiva.

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