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Cá Entre Nós

O poeta Manoel de Barros dizia que “a maior riqueza do homem é sua incompletude”. Se ao lado dessa reflexão poética apontarmos algumas peculiaridades dos processos do envelhecimento, teremos dois caminhos em harmonia. A poesia de Manoel traz a ideia de que existem outras opções além de aceitar as mesmices cotidianas. E, mais a fundo, de que quando uma pessoa se vê, de certa forma, muito completa e se conforma com tudo (incluindo o que não é bom), o risco de parar de buscar preenchimentos de alma é grande.

Na velhice, é comum apenas aceitar o que chega: as dores, a saúde frágil, a falta de energia para ir ao encontro das pessoas, a solidão. Aceitar o que é natural e o que não tem jeito de mudar, tudo bem. Mas se bastar com tudo não é assim uma estratégia ou um hábito tão salutar. Tentar colocar as possibilidades de prazer e bem-estar acima das dificuldades naturais ao avanço da idade é bem mais saudável – e um exercício que deve ser frequente. Pensar que a incompletude não tem fim, sob este aspecto, enriquece o corpo e a mente.

Sociabilização, contato com a arte, prática de atividades físicas adequadas às possibilidades de cada um, realização de trabalhos manuais, contato com a natureza, passeios e viagens... Enfim, as opções para quem tem a partir de 60 anos e deseja “sair do lugar comum” são muitas. E o Sesc São Paulo se coloca também como fonte e ferramenta para despertar e manter o avivamento das relações na velhice, e alinhar-se às necessidades dos públicos de diversas faixas etárias.

Uma das ações neste sentido é o encontro Cá Entre Nós, que propõe um dia especial, com uma programação construída coletivamente pela equipe de programação e os frequentadores locais com mais de 60 anos. O objetivo é despertar diferentes sensações nos participantes, além de estimular o protagonismo e a possibilidade de troca de saberes e experiências.

Em Birigui, o encontro deste ano aconteceu em 30 de outubro. Ao longo do dia, idosos das unidades de Birigui, Catanduva, Presidente Prudente e Bauru assistiram a apresentações de teatro e música, e participaram de oficinas que partiam da ideia de traçar um caminho pelos sentidos, estimulando o olfato, o paladar, o tato, a visão e a audição.

Para a técnica de programação Bárbara Guirado, responsável pelas atividades para idosos no Sesc Birigui, o momento da criação da programação proporciona uma oportunidade de exercer a coletividade.

 

“O Cá Entre Nós é daqueles eventos que, num misto de desafio e presente, somos instigados a criar coletivamente e pensar soluções criativas junto aos idosos e diferentes setores da unidade, em um fundamental exercício de gestão coletiva de ideias e espaços. Foi uma grande festa, uma celebração da alegria de existir, resistir e envelhecer rodeado de arte, movimento, liberdade e encontros”.
 

Como ressalta ainda Bárbara, esta ação em rede marca algumas das principais diretrizes do Trabalho Social com Idosos (TSI) do Sesc, que busca realizar ações humanizadas e humanizadoras, além de estimular a prática da autonomia, alteridade e da transversalidade, possibilitando a troca de informações, ampliação de repertório e interação entre idosos de diferentes localidades.

Trajetória

O projeto Cá Entre Nós completa 5 anos de existência em 2020. Desde 2015, já foram realizados 40 encontros, com aproximadamente 6.500 participantes. O projeto faz parte do Trabalho Social com Idosos (TSI), programa de educação não formal realizado pelo Sesc, que desenvolve atividades culturais, esportivas e socioeducativas para cidadãos acima de 60 anos, a fim de realizar sua inclusão e valorização social.

O Sesc São Paulo foi pioneiro na implantação do programa em 1963. Atualmente, o TSI está presente em 40 unidades da capital, litoral e interior do Estado de São Paulo, atendendo em 2018, quase 70 mil pessoas, e até setembro de 2019, mais de 45 mil pessoas. A promoção da cultura do envelhecimento e a ruptura com estereótipos e preconceitos estão entre as diretrizes essenciais que o norteiam. Os conceitos e metodologias do programa acompanham as transformações sociais e constituem um diálogo constante com os temas contemporâneos e multidisciplinares do envelhecer e da longevidade.