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Abraçando as evidências

A ideia desta edição da playlist “Chora viola” é simples: mostrar sucessos da música caipira ou sertaneja interpretadas por artistas de outros estilos ou gêneros. Não se trata de um curioso amontoado de hits; é uma seleta de 30 faixas que, ouvidas na ordem proposta, transportam o ouvinte ao Brasil rural e aos dramas passionais do sertanejo urbano pós-1980.

Apesar da distante relação estética e temática com aqueles que cantam a vida do campo, a MPB construiu algumas versões convincentes que respeitam e exaltam o texto original. Em “Tristeza do Jeca”, Ney Matogrosso e o violonista Raphael Rabello se acabam na melancolia interminável do homem caipira; em “Cuitelinho”, Milton Nascimento canta a saudade sentida pelo caboclo que se manda para terras paraguaias, onde “enfrenta fortes bataia”. Há também o amor partido soletrado pela antimusa da bossa nova, Nara Leão, em “Casinha pequenina”; a devoção caipira de Elis Regina em “Romaria”; e a declaração superlativa de “É o amor”, em modo voz & piano, por Maria Bethânia.

Já o pop, que nasce sem fronteiras, ultrapassa a latinidade de “Galopeira” com o ex-Mulheres Negras Mauricio Pereira e sua banda Turbilhão de Ritmos, que versa o clássico paraguaio para o inglês. Mas pop mesmo é o padre mineiro Fábio de Melo, que não se intimida com a obra-prima de Rolando Boldrin, “Vide, vida marvada”, uma espécie de manifesto caboclo. E o que dizer da considerada “rainha da TV brasileira”, Hebe Camargo, a “Moreninha do samba” (como era conhecida quando começou a carreira), com “Pense em mim”, ao lado das Meninas Cantoras de Petrópolis?

Nascido em Igarapava e crescido em Nova Europa, interior de São Paulo, Jair Rodrigues (1939-2014) já havia escancarado seu DNA sertanejo em “Disparada” no Festival da TV Record, de 1965. Oito anos depois, com o LP Orgulho de um sambista (1973), Cachorrão apresenta sua versão (com batuque mas sem samba) para o cururu dramático “Menino da porteira”.

Já que o assunto é samba, para abrir a seleção, a confissão do partideiro de Xerém Zeca Pagodinho: “tô de namoro com uma moça solteirona / A bonitona quer ser a minha patroa / Os meus parentes já estão me criticando / Estão falando que ela é muito coroa / Ela é madura, já tem mais de 30 anos / Mas para mim o que importa é a pessoa”. É “Panela velha”, sucesso de 1983 de Sérgio Reis. Do samba ainda brilha o Raça Negra, um dos grupos responsáveis pelo pagode romântico dos anos 1980/1990, que aqui se joga com o Neguinho da Beija-Flor em “Talismã”, sucesso de Leandro & Leonardo.

E se o assunto é fogo e paixão, nada melhor que contar com os titulares: Fábio Jr. leva “Fio de cabelo” para a sala de estar e Wando, em dose dupla e acústica, entoa “Evidências”, hit máximo de Chitãozinho & Xororó e dos karaokês, e “Estou apaixonado” (“Estoy enamorado”), sucesso nacionalizado por João Paulo & Daniel.

Apesar da grande proximidade com as originais, as versões de Agnaldo Timóteo (“Estrada da vida”, de Milionário & José Rico) e Maria Alcina (“Marvada pinga”, de Inezita Barroso) mostram o acento personalíssimo dos intérpretes. Por outro lado, os violonistas Waltel Branco e Rosinha de Valença subvertem “Luar do sertão” e “Saudade de Matão”, respectivamente, e a cantora e pianista Cida Moreira potencializa em seu arranjo a nostalgia da São Paulo que não viveu (“Lampião de gás”), com flauta e caixinha. Menção especial o combo-rock “De papo pro ar/Chuá chuá/Maringá”, com assinatura de Eduardo Araújo, cantor com carreira iniciada no iê-iê-iê e assentada posteriormente no binômio rock/country.

Para encerrar essa tão falada relação campo versus cidade e música sertaneja versus outros estilos (especialmente a MPB, o pop e o rock), erga os braços e leia em voz alta umas palavrinhas do hitmaker José Augusto: “Eu me afasto e me defendo de você / Mas depois me entrego / Faço tipo, falo coisas que eu não sou / Mas depois eu nego / Mas a verdade é que eu sou louco por você / E tenho medo de pensar em te perder / Eu preciso aceitar que não dá mais / Pra separar as nossas vidas / E nessa loucura de dizer que não te quero / Vou negando as aparências / Disfarçando as evidências / Mas pra que viver fingindo / Se eu não posso enganar meu coração”.

Boa audição!

Você pode escolher onde escutar: a mesma playlist está disponível no Deezer e no Spotify: