Nós Mulheres: Negras potências

19/04/2022

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A jornalista, produtora e pesquisadora Ana Cristina Pinho é quem propõe a curadoria desta versão da playlist Nós Mulheres. A ação faz parte do projeto Nós Tantas Outras, que em 2022 chega a sua terceira edição. Leia abaixo o texto curatorial e ouça a playlist em sua plataforma de streaming favorita.

Por Ana Cristina Pinho*


“Eu sou porque nós somos.” 

Essa frase da filosofia Ubuntu direciona as minhas escolhas. Os caminhos que hoje eu consigo trilhar foram abertos por meio de sacrifícios e vitórias dos meus ancestrais. Ela representa fé no futuro e também reverbera na noção de identidade, uma vez que a constituição do nosso eu se dá em conjunção com os demais, com o outro, em comunidade.  

Quando entramos em contato com as histórias dos nossos antepassados, narradas por eles, entendendo a cultura, os costumes, as tradições e, especialmente, as lutas, vão se construindo os sentimentos de orgulho e de pertencimento. Não é só a dor que forma, que esculpe a minha identidade, é também a potência. Se por um lado estamos fazendo uma força contrária dentro de espaços que não querem a nossa presença, as frestas que foram abertas lá no passado estão dando frutos. Hoje, essa abertura que era estreita, mas já passava muita luz, resultou numa janela.  

Nesse sentido, a produção artística negra mudou a minha vida. Recorro a ela sempre que preciso de inspiração, de conforto para os dias intranquilos. Na arte encontro acolhimento, força, equilíbrio. 

Quando um samba entoa que Desde 1500 / Tem mais invasão do que descobrimento / Tem sangue retinto pisado / Atrás do herói emoldurado / Mulheres, tamoios, mulatos / Eu quero um país que não está no retrato, com olhos marejados sou convocada para a luta, para ação em comunidade, para pensar o futuro dos que virão depois de mim.  

Quando Bia Ferreira faz a prece: Do Olorum, Oxóssi ouve as minhas preces 
E Oxalá desce pra nos abençoar / Euaba Ossa in Logunedé / Comigo ninguém pode, eu sou herdeira dessa fé; sou automaticamente conectada ao divino, a uma crença que foi demonizada, inferiorizada, desclassificada. Um projeto cujo objetivo era colonizar meu pensamento, meu corpo, minha fé.  

Quando a Funmilayo Afrobeat Orquestra canta Me construí / Na negação do que eu sou / Reconstruí / Negra e ação, hoje eu sou; percebo que não estou só, e tudo bem reconstruir minha identidade.  


Sou muito impactada por essa poesia que exalta, colore e alegra a cultura afro-brasileira e que desconstrói estereótipos. Nós não somos descendentes de escravizados, como muitas vezes a mídia, os livros escolares, as narrativas criadas em torno da nossa história são comumente reveladas e ensinadas. Nossos passos vêm de muito longe e somos produtores ancestrais de saberes, de culturas, de conhecimento.  

Disseram que meu cabelo é ruim, que havia um defeito na cor da minha pele. Que eu não era capaz. Eles tentaram e falharam solenemente.  

Minha história é construída a partir do pertencimento a um grupo étnico que influenciou e influencia fortemente a cultura brasileira. Tem sotaque, tem tempero, tem história. É samba, é pop, é hip-hop, é afrobeat, é brasileira. É coisa de preto – ou melhor, de preta.  

É pura magia negra.  

*Ana Cristina Pinho é jornalista, produtora audiovisual e pesquisadora com ênfase nas relações étnico-raciais no Brasil e em países afro-diaspóricos. É integrante da Apan – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro e também do Mulheres Negras no Audiovisual.  Iniciou a pós-graduação no Centro de Estudos Latino-Americano sobre Cultura e Comunicação (CELACC), na Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), no curso Cultura, Educação e Relações Étnico-raciais no qual se dedica à pesquisa de ações antirracistas nas instituições, mais especificamente nas áreas de comunicação e educação.  É sócia-fundadora do Centro de Estudos Antirracista e Amefricano (Ceaam), cujo objetivo é oferecer cursos sobre as relações étnico-raciais para professores, empresas e interessados em geral. É funcionária do Sesc São Paulo desde 2000, atuando nas áreas de atendimento, comunicação e produção. Nesta instituição, faz parte da equipe de produção dos cursos EAD, no Sesc Digital. É mãe do Martim Ayô. 

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