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Como o protagonismo jovem, a comida e a diversidade de narrativas promovem a conexão com o território e com as pessoas

Equipe Énois - Prato Firmeza | Foto: divulgação
Equipe Énois - Prato Firmeza | Foto: divulgação

* Por Gabriella Mesquita e Guilherme Petro 

 

Promovido pela Énois, projeto Prato Firmeza permite exercitar um jornalismo inovador, ligado à afeto e território

Construir o Prato Firmeza, o guia gastronômico das quebradas, é antes de mais nada um processo de olhar para o nosso próprio território. O guia, que está na sua quarta edição e já mapeou mais de 100 lugares para se comer fora do centro de São Paulo, é construído a partir da nossa vivência como jovens jornalistas. Que lugares baratos e gostosos existem perto da nossa casa? 

Ao relacionarmos nossas memórias afetivas com comida, apuramos não apenas o paladar, mas também o faro jornalístico para histórias que muitas vezes passam despercebidas no cotidiano corrido da realidade das periferias de São Paulo.

 

Olhar para os nossos territórios enquanto jornalistas também nos permite descentralizar histórias e promover a diversidade de pautas e formatos. Com isso, as narrativas partem de identidades individuais para contar histórias coletivas de valor. Isso é especialmente importante no contexto periférico, onde as narrativas de mídia ainda focam muito nos aspectos negativos. 

A semente que o Prato Firmeza planta é a de que pessoas vindas de lugares diferentes, com vivências e técnicas próprias, potencializam o jornalismo como ferramenta para conhecer e interagir com a nossa realidade. Podemos aprender sobre território, jornalismo e cultura com a simples prática de diálogo com a juventude, seja periférica ou não. Surge a possibilidade de elaborar ferramentas em conjunto com as diferentes juventudes, para que elas entendam dentro de si como potencializar seus jeitos de expressão para o mundo. Mais do que ensinar como nós jovens podemos fazer jornalismo nas nossas quebradas, com o Prato Firmeza queremos escutar e trocar sobre o que já fazemos.

O impacto de tudo isso tem a ver com a história de quem passou pela Escola de Jornalismo da Énois. Quando começamos, em 2009, alguns dos jovens estudantes do curso tinham vergonha de dizer onde moravam. Outros já tinham bem nítida a relação de pertencimento com seus territórios. O processo de criação do Prato Firmeza ajudou nessa compreensão da importância de se falar e valorizar o lugar e as pessoas de onde você vem. 

Isso se relaciona diretamente com a autoestima, tanto de jovens como de empreendedores. Imagina você ter um livro publicado com seu nome aos 17 anos? E ter seu estabelecimento reconhecido e certificado como um lugar Prato Firmeza? 

Já para a imprensa, o guia é pauta todo ano desde a primeira edição. Os veículos de maior alcance e estrutura ainda não entendem que periferia é cidade e, a cada ano, tratam o mapeamento como uma novidade interessante. Em reportagem do Estadão, por exemplo, em 2017, a divulgação dos lugares mapeados pelo Prato Firmeza passou pela marcação de que não são necessariamente “alta gastronomia”, sem entender que esse conceito é inerente a uma visão elitista sobre comida.

Todo o conteúdo em texto que criamos está disponível no nosso site. Além de livro, o Prato Firmeza já virou audiolivro, série de vídeo, festival gastronômico, aula e oficina. Desde o lançamento do primeiro livro, em 2017, organizamos eventos dos mais diversos formatos para discutir, por meio da comida, temas como afeto, resistência e descentralização das narrativas. Seguimos experimentando outras maneiras de nos comunicar e fazer com que as histórias que contamos cheguem em cada vez mais gente. Para nós, isso é jornalismo.

 

* Gabriella Mesquita e Guilherme Petro são jovens jornalistas que integram a equipe Énois.

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