Sesc SP

Matérias do mês

Postado em

9 poemas escritos por mulheres - Acervo Revista E

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Neste mês, período que sempre teve como foco a reflexão do feminino, estamos vivendo um tempo de pausa causado por um medo invisível, a pandemia do Coronavírus (Covid-19).

Para equilibrar um pouco essa balança que pende para o lado do isolamento e da reclusão, selecionamos 9 poesias escritas por mulheres e publicadas ao longo dos últimos 10 anos na Revista E do Sesc São Paulo, como uma maneira de oferecer uma sugestão de leitura para aquietar corpo e pensamento.

O corpo físico precisou parar, agora também é necessário um descanso para a mente.

 

• Alice Ruiz - novembro/2010

• Maria Lúcia Dal Farra - setembro/2013

• Lou Albergaria - julho/2014

• Mariana Ianelli - setembro/2016

• Luci Collin - março/2018

• Íris Cavalcante - julho/2019

• Catarina Lins - novembro/2019

• Maria Lúcia Dal Farra - janeiro/2020

• Mariana Ianelli - março/202

 

 

As estações do pôr do sol

por Alice Ruiz

PRIMAVERA

por todo chão da sala
o primeiro pôr do sol
da primavera                22/9/2003

– –

o sol se despede
derramando ouro
por todo jardim

– –

por entre as nuvens
um pedaço de incêndio
o sol se põe           15/03

VERÃO

despedida do sol
mesmo entre nuvens
o mar ruboriza

– –

lagoa turva
banhada em ouro
pôr do sol

– –

o sol se pôs
o fogo no canavial
tinge a nuvem

OUTONO

o sol se põe
o amarelo vira ouro
folhas de outono

– –

longo pôr do sol
curto pôr do sol
ida e vinda

– –

antes de partir
o sol experimenta
todas as cores                24/6/05

INVERNO

antes do escuro
pintando no céu
ensaio de cores

– –

fresta no céu
um só raio faz a festa
pôr do sol           15/03

– –

rebanho de nuvens
vão seguindo o pôr do sol
nenhuma vem


Alice Ruiz é poeta, tradutora, compositora e escreveu, entre diversos livros, Dois em Um (Editora Iluminuras, 2008), Três Linhas (Dulcinéia Catadora, 2009) e Boa Companhia (Companhia das Letras, 2009).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de novembro de 2010 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Poesia caseira

por Maria Lúcia Dal Farra

1

QUADRO DE INFÂNCIA

A abelha embevecida
há um quarto de hora
rodeia a travessa da torta já pronta.
Do fogo
a madeira em estalidos
reclama
seu pacto com a terra.
Daqui a pouco sai o almoço.
— Nona,
pergunta se eu quero bife?

2

À MESA

Nem um
nem dois —
quero feijão com arroz.
 
Na mistura
bota um pouco de amor.
 
Azeite?
Só na salada e
no gozo da gente.

3

CADEIRA DE BALANÇO

Por que se balança, menina,
se a cadeira não é sua?
Pra se fazer de pequena
(como no colo da mãe)
rouba a poltrona do pai?

Cadê o embalo antigo
que só ela sabe dar?
Vai que vai, vem que vem,
que balanço que ela tem!

Presta atenção no que digo:
não vai ter isso de novo
nem de pai e nem de mãe.

Vai que vai, vem que vem
— esse gingado gostoso
só nos braços do seu bem.

4

PROMESSA

As traves da nossa casa serão de cedro,
de aroeira a armação dos tetos.
Conforta-me com flores
fortalece-me com frutos.
Senta-te à mesa
que contigo tudo partilho.

5

REZA VERDE

Samambaia da saia larga e godê:
arma tuas rendas pra me proteger!
Sob o arrimo da tua cinta
não temo climas nem mau olhado,
e o vento, que enrodilha teu cabelo,
também põe verde no meu penteado.

Se é mais longo um ramo teu
e o outro mais encurtado
é que da vida as linhas
(compridas ou interditas)
são tal e qual desiguais
quanto as sinas femininas.

Se saio da tua roda
e te espio cá de fora
aprendo a ciência da fibra
que (embora) em esporas tecida
só de modéstia se investe:

desliza e verga —
se torce pra não finar.

6

DESQUITE

A água da pia tudo escoou.

Onde o íntimo sabor
daquele bolo de noivado?

Apenas os talheres tagarelam
na gaveta fechada.

7

ABERTURA

Entre caibros e telhas
a trepadeira ganha a sua fenda
e pende sobre o alpendre
entregue finamente ao ar.

Minha vida dá flores.


Maria Lúcia Dal Farra é prosadora e poeta, autora, entre outros, de Inquilina do Intervalo (Iluminuras, 2005) e Alumbramentos (Iluminuras, 2011), pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti em 2012

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de setembro de 2013 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Vários poemas

por Lou Albergaria

LAPIDARIUM

Página branca
Que o risco de liberdade
Nos lapide!

O ANIMAL QUE SOLETRA

A porção de Deus
que trago em mim – Dentes
de leite, os olhos arregalados
por um girassol
arrematando
a ponta das tranças – este olhar
de espanto
dos que precisam
transitar em areia movediça
e ser a ponte
entre o sagrado
e, o relógio de ponto.

ROSA ESTÁ VIVA!

Nietzsche escreveu – “Da
escola de guerra da vida:
o que não me mata, torna-me mais forte.”
Eu não sei, Senhor, para que
tanta força tanta força – onde raios mais
vou enfiar tanta força?

Chega! Definitivamente,
mulher não precisa de mais força

– mulher precisa é de flores!

EU SEGUREI UM MANUSCRITO DE WILLER

Poucas coisas queimam
mais que fogo: – uma pétala,
a corrente de prata do turíbulo
balança feito o pêndulo do relógio
e a pólvora dentro – extraída
do diamante triturado
na poeira cósmica
daquela estrada, lembra-se?

– Era março de ... ! – Era o belo
horizonte: seus olhos
embalsamados
nas curvas hiperbólicas
do lugar – e
o manuscrito em minhas mãos
ainda queima! tal o incenso
nascido para purificar.

ANSEIO

Anseio ao estado de poesia
que é o mais puro néctar
dentro das pedras:

Magma!

Ou,
é só a voz da minha mãe
chamando:

“Venha comer, filha...”

FLUXO

Um certo complexo de delicadeza
construído em argamassa
e madeira de lei – o fluxo das moradias
sobre as águas:
casas flutuantes
presas somente pelo códon
e pelo riso que vem de dentro:
ecos nos corpos – acústica perfeita,
quase livre sonha a lua
em órbita:
fio de luz – cordão umbilical.

No fluxo, as perdas se autodevoram:
e no fim – sobressai
o cheiro forte de líquido amniótico. 


Lou Albergaria é autora dos livros O Cogumelo que Nasce na Bosta da Vaca Profana (Editora Vidráguas, 2011) e Dentro do Sol Vermelho (Editora Pautá, 2014).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de julho de 2014 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

O coração do problema

por Mariana Ianelli

“Ao entardecer desta vida, examinar-te-ão no amor.”
São João da Cruz (Ditos de Luz e Amor, 58)

Vendo talvez com outros olhos,
se envolvendo no ponto central da questão,
no ponto fulcral da questão,
no coração do problema,
invertendo enfim os termos,
arrostando-os sem espelho,
quem sabe de uma vez visse o difícil do mais simples:
a questão do centro,
a questão do fulcro,
último juiz de quem escreve mas escreve e esquece o coração.

CATEDRAL

Uma nave toda branca onde entramos e damos com a imagem da avó a nos ver como nos vemos nela:
arrepanhando postais, folhetos, bilhetes de trem, mapas, cascas de outono, lamelas douradas, poemas,
numa caixa igual a tantas em que vimos aquelas mãos diligentes vasculharem, se perderem.
Miudezas.
Sim, miudezas, mas juntas catedral tão sólida.

CALAFRIOS

É o pico da vertigem quando te calam com uma arma.
Quando te aparece o rosto lívido do morto, e é o rosto lindo de uma criança.
Quando um terceiro te revela que era o amigo, ao longo de anos, que te trapaceava.
Quando não te falta a vez mas te falta a voz no centro de algum momento importante.
Quando já é tarde para chegar aonde alguém te esperou com ânsia de amor.
Esses invernos súbitos, internos, que acontecem aos que apesar de tudo ainda são movidos por alguma reserva de inocência.
Calafrios desses que sente uma alma, apesar de toda malícia, ainda recém-chegada a certas armadilhas deste mundo.

O TEMPO DE CADA COISA

E há o tempo de cada coisa acima e debaixo do céu: da órbita da Lua ao redor da Terra,
da floração do hibisco amarelo, da vida de uma libélula,
dos dias sem conta de uma prisão perpétua.
E há o tempo adormecido dos bisavós nos netos,
décadas nos anéis internos de uma sequoia, milênios no perfil profundo dos rochedos.
E há o tempo de uma nota a encontrar outra nota e fazer música,
o átimo de uma asa escapando à boca da leoa,
o enquanto de dois olhos sustendo outros dois olhos,
e o quanto dura a ponte ígnea entre o instante e recordá-lo.

DIA DE CURA

Acordar e ver no ventre o corte enfim cicatrizado.
De leve correr os dedos sobre a pele nova.
Um chacoalhar de cabeça e o fantasma dispersando-se feito poalha.
O muro do cativeiro posto abaixo e uma luz de sábado flechando a vista libertada.
Alguém te colhendo nos braços num resgate improvisadamente bíblico e tua alma também colhida nesses braços.
Como um céu sem nuvens, um dia sem dor de abandonado.
Um dia de cura.
Um dia de milagre.

UM PACTO

Tão perto e, ainda assim, fora de alcance.
Antes e depois separados por pouco e, no entanto, uma garganta sem fundo abaixo desse fino rasgo.
Como se fosse possível recuar um nada, não deixar que se rompesse o chão, que tivesse se rompido,
que a palavra final tivesse sido dita e o dedo apertado o gatilho e o rosto querido perdido de vista,
como se um pacto com o tempo fosse exequível,
uma oferta de décadas em troca do momento mínimo em que o-acabado-de-acontecer ainda não tivesse acontecido.

LUGAR DO PENSAMENTO

Se o vissem à luz do dia, a este amor, diriam que era coisa de outro mundo, assim indecente, livre, guloso de vida.
Punham-lhe sombras, os amantes, vestiam-no com cores frias, para que passasse por comum e não lhe deitassem olhos larápios em cima.
Nem a morte os vencia: se um dos amantes faltasse a este amor, um dia, ambos sabiam aonde ir, sabiam em que lugar do pensamento ainda se encontrariam.

ENTRE DOIS MUNDOS

Uma descida às catacumbas e de um sono milenar desperta o vírus.
Alguém arromba o quarto dos fundos e liberta os fantasmas de uma família.
Lady Macbeth invocando a noite espessa, fazendo jorrar a tinta com que a tragédia será escrita.
Lacres violados, tumbas saqueadas, esconjuros nutrindo bocas de abismo, e a paz, a paz se eclipsa.

BENS DO MUNDO ESTÃO DESAPARECENDO

As pirâmides do Egito, as águas do Mar Morto, o pato-mergulhão, o macaco-dourado, o morcego-cinza, as calotas polares, a voz de Leonard Cohen, os amarelos de Van Gogh, os livros manuscritos, as tribos isoladas da Mongólia, da Etiópia, da Sibéria, da Namíbia, o lobo-vermelho, os pandas-gigantes, o jacaré-da-China, libélulas, borboletas, besouros e abelhas de todo o planeta, artistas autodidatas, marfim em elefantes vivos, os rostos dos santos e dos anjos nas iluminuras de um saltério do século 13, a honra, a paciência, a solicitude, os gorilas-das-montanhas, o jacarandá, o pau-brasil, os awá-guajá do Maranhão, as esculturas de Nínive, os manguezais do Quênia e da Nigéria, os bens inegociáveis, insubornáveis, incorruptíveis, o leopardo-persa, o tucano-de-bico-preto, os dragões-de-komodo, a pintura de cavalete, as palavras conciliatórias e mãos que vêm em socorro, prestimosas, abertas, estendidas.


Mariana Ianelli é poeta, autora de inúmeros livros, entre eles, Fazer silêncio (Iluminuras, 2005) e O amor e depois (Iluminuras, 2012).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de setembro de 2016 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Vários poemas

por Luci Collin

ALINHO

É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece

é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia

voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos liquens no tronco
fazer irromper acenos que
contêm não só desfechos.

Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.

É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho

e saborear
o estremecimento.

LIDA

nesse dia mesmo
em que se é pura perda
em que se sofre saques e ludíbrio
catar os cacos
porque seguem tendo a mesma feição do todo
ajuntar migalha e estilhaço
e conjugar em modo subjuntivo
porque se quer depurar o que nos diz
o exórdio das rosas de inédito semanticismo

e não se pode demorar tempo
porque instaura-se um limo impeditivo
e mirram-se asas e expiram voos
e não se queira demorar tempo
porque precisa-se de quem cuspa firme à distância
de quem preste-se a ter os pés queimados pela brasa
de quem espane o logro dos discursos ferrugentos
e delate a rigidez das pétalas dissimuladas
de quem cutuque de quem esgaravate
porque nesse dia mesmo
não se pode mais tomar como acalanto
a ode espúria dos cínicos
e não se pode mais tingir de falso rubro
o fundamento do sangue
e não se pode permitir que façam gorar
a pulsão apta e evoluída
flórea e vigorosa
do verso

ACONTECIDO

buscava a outra claridade
aquilo do invisível que o gato vê
aquilo de requinte na confusão do jardim

buscava o outro ouro
aquilo do magma no exercício de fundir-se
aquilo do hálito num recitar juramento

buscava o outro final da saga
aquilo de soprar deixas no escuro
aquilo de fundar os corpos juntos

buscava a outra simetria
aquilo de imortal na ode ao rosário
aquilo de avocar a fuga das jaulas

além de tudo buscava
cavalos já saciados numa fortuna
de pasto de verão e de afago

além de tudo buscava
a mesma boca a mesma sede fecunda
no querer da mesma água       
num só trago

TERSO

sombras tomam o espírito
e então limpamos as ervas do jardim
em silêncio absoluto
tiramos o pó do templo
e novamente e então de novo
recolhemos as cinzas do incenso
porque as sombras tomam nosso espírito
limpamos e repetimos os gestos
não porque não se entenda a sujeira
porque se infira anistias
mas para purgar as fraquezas
as brechas os rombos a mentira que vem colada
aos desejos de eternidade
limpamos o caminho entre a porta
e a estrada
a porta de saída e a estrada de infinitude
lustramos o assoalho
dobramos toalhas
reposicionamos pedras
cuidamos de varrer no sentido das fibras do tatame
não porque haja pacto com o limpo
mas porque às vezes são as sombras
que assaltam e impedem que o espírito
mova-se
cristalino

VARIANTE

a dor do animal
em mim
recruta histórias
faz amanhã secar o leite
faz ontem pisar sobre os cacos
faz hoje ser tarde

o olho do animal
em mim
verdeja lavras
acende a fome
expõe algum desamparo
dança restos

a pele do animal
em mim
encena correntezas
espalha as cinzas
requenta as chuvas
atira facas

o chifre do animal
em mim
declara aprumos
devolve o escrúpulo aos faunos
convence o mestre
faz dormir a sina de fera indomesticável
que com minha mão de pequenezas
toco

e o inaudito sobressalto
assoma viço e sopro
a inferir os vendavais que devastaram
peles e mais os segredos
os uivos silenciados
que forjaram os corações
do esquecido

e um entusiasmo manso
nasce
da dor sucedida
puro
olho

HISTÓRIA DE AMOR

que disparate tentar falar de amor
num poema neste poema

não se segura da primavera
o adágio do pássaro
não se leva pra além da lembrança
o gosto que a boca conheceu da fruta

sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade

sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci


Luci Collin é poeta, ficcionista e tradutora. Tem 18 livros publicados, entre os quais: A Palavra Algo (Iluminuras, 2016), que ganhou o Prêmio Jabuti 2017, Nossa Senhora D’Aqui (Arte & Letra, 2015), A Árvore Todas (Iluminuras, 2015) e A Peça Intocada (Arte & Letra, 2017).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de março de 2018 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Um jeito de amar chamado amigo

por Íris Cavalcante

UM JEITO DE AMAR CHAMADO AMIGO

tenho alguns amigos, poucos
mas de grande valor
tenho amigos passarinhos
quando reconheço um, eu digo: voe!
alguns perdem o vínculo com a gravidade
e alçam rasantes de liberdade
eu poderia citar alguns
bem, melhor não!
estes são os que fazem das asas instrumento de trabalho
são da mesma espécie dos
amigos sonhadores
às vezes, os sonhadores são mais prudentes
oscilam do sonho ao voo
ora turbulência, ora calmaria
nunca se sabe quando um sonhador
voa ou está em terra firme
o sonhador tem uma velocidade inalcançável!
tenho amigos poetas
estes são passarinhos e sonhadores e belos
de uma beleza, algumas vezes, invisível!
mas que importa isso ao poeta
se ele extrai beleza do improvável?
o poeta é um artesão
com mãos hábeis e um olhar atento
encaixa uma palavra qualquer num poema
dando-lhe forma e relevo
com a perfeição de um esteta
somos capazes de sentir a forma
do poema
pegá-lo com as mãos
antes que ele inaugure suas asas e
alce o próprio voo
poemas assim têm o alcance
da atemporalidade
e nos comovem num para sempre
tenho amigos artistas
estes são passarinhos sonhadores
poetas e belos
porque a arte é a coisa mais
perto da vida
e não consigo imaginá-la sem
as asas da liberdade
os sonhos que eu persigo e os poemas
ah, também tenho amigos
que não são humanos
nem passarinhos nem sonhadores
nem poetas nem artistas
mas têm um jeito todo próprio de demonstrar ternuras
que alguns humanos não são capazes
ainda há outro jeito de definir amigos
tenho amigos que são amor
não é fácil entender essa travessia
mas não precisa mesmo entender, não
é só um jeito de amar com a sensação
de lugar seguro...

POEMA À BEIRA-MAR

amor é tema recorrente
absurdo e clarividente
está no óbvio e no inesperado
caminho pelas calçadas
olho os passarinhos
as lagartixas e os ratos
há amor no reino animal
respiro o ar à beira-mar
faz calor, o mar respinga
o crepúsculo me brinda
com um céu multicor
assim como a vida: multidiversa
ao amor é reincidente
os caminhantes seguem alheios, nem aí pra mim
não percebem que são poesia
que brinco de fazer versos
com seus semblantes e suas urgências
rio-me deles
há uma cratera no asfalto
o motorista buzina
mostro a faixa de pedestre
há um bebê e uma mãe solo
um carrinho e muitas sacolas
ofereço ajuda para atravessar a avenida
há amor ali
o amor é abundante
está na poesia de Baudelaire
e nos filmes de Scorsese
cada um com seu jeito todo próprio
de falar de amor ou desamor
assim como eu
tenho meu jeito de demonstrar ternuras
se não serve a um, a outro servirá
me apaixono por escritores, poetas e loucos
dos livros ou do dia a dia
do século passado ou deste século
não quero mais nenhuma normalidade
muito menos hipocrisia
apenas um vinho ao chegar em casa
não tenho saca-rolha, peço ao vizinho
não há comida, mas tem-se o iFood
escuto vozes, estou sozinha
tudo pode ser substituído ou reinventado
no terceiro milênio
até o amor
o amor é dissimulado
ou inventa-se o amor
ou assiste-se a um filme na Netflix
olho para a estante
há vozes ali
minha gata dorme sobre Bukowski
vejo um amor imponente

SE EU FOSSE POEMA

lá vem o poema rompendo a barra
de uma noite insone
esbarra em mim todo contente
desvia de ti
devia era ser pra ti
não te esquivas do meu poema
agarra-o
experimenta o verbo que ele te oferece
põe uma rosa atrás da orelha
olha-se no espelho vestido de poema
inventa a palavra
não desvia de mim
veste-se do sol de um setembro qualquer
deixa florescer, seja flor ou seja lá o que for
pode ser amor ou imaginação
sou noite que avança
e dança descalça na madrugada
guardiã de nosso segredo
dia que amanhece
poema que nasce e se despe
se veste e reveste
de ti e de mim
se eu fosse poema
seria pra ti
desculpe a pressa
não posso adiar o amor
para o próximo século

UMA CANÇÃO PRA MIM

quero a canção de amor
que imaginei ouvir
cantada num violão qualquer
feito poema do Leminski
na voz sussurrada do homem que sonhei
aquele que me ame
tal como sou
descabelada enlouquecida trágica
no meu universo interior
sob a luz de Fortaleza
Veneza ou Arpoador
quero um amor que não me cobre
nada que não posso dar
mais que me doar inteira
de qualquer maneira
me emprestar sem volta
sem fraturas na alma faturas ou contas a pagar
um amor do tipo imenso
que me faça gigante e não caiba por dentro
desavergonhado ensandecido intenso
e quando ecoar um grito
não seja de ira, o grito
seja um rito de passagem
para a plenitude que sonhei
quero uma canção que me faça chorar
pelo amor que dei
mas não recebi em troca
que me faça rir à toa
assim de boas
do amor que está em algum lugar
guardado pra mim
uma canção
que cante o feminino em versos
como uma canção do Chico
pelo avesso ou pelo inverso
sem rima pão ou circo
mas com o saber que pulsa
no coração de uma mulher
ainda há tempo, amor
meu coração ainda pulsa, pulsa
acelerado enlouquecido trágico
prestes a expirar o tempo de amar
corre, meu bem, corre
porque ele pode parar
em qualquer estação
este meu coração
magoado ensandecido intenso
tem a última chance de amar assim
corre, meu bem, corre
e traz uma canção pra mim

A CASA

havia uma casa
de paredes brancas
com retratos e afetos
cheiro de café coado e roupa lavada
lavanda de alfazema
um despertador às 6
havia livros discos souvenires e quadros
alguns azuis
natureza morta
havia cristais porcelanas cadernos
um diário e todo o resto
nasceram filhos na casa
cresceram os filhos
chegaram as gatas
houve sorrisos e festa e muita alegria
alguma tristeza, às vezes
muitas memórias a casa tinha
havia amor ali
um amor tamanho
desses que não cabem em fotografia
mas não foi cuidado, o amor
e envelheceu
a casa também
o amor definhou, definhou
um tantinho aqui e outro ali
por fim, o amor morreu
os habitantes continuaram vivos
com suas expectativas e planos
a casa não quis escolher com quem ficar
sofria, a casa
tinha a alma feminina
o reboco aparecia na parede
como veias expostas sangrando sangrando
a casa havia de sobreviver
tinha que sobreviver, a casa
havia um apego incomum
de difícil compreensão
mas a dona da casa, não
não havia apego nela
ela quis ver a casa feliz
desocupou os armários
arrumou as malas
bateu a porta e se foi
ela amava a casa
e, por amá-la, quis vê-la feliz
por amá-la, ela foi embora
levou consigo um diário de 20 anos
com as memórias da casa
da casa que é dela...


Íris Cavalcante é poeta, natural de Baturité (CE), autora de Palavras e Poesias (2003), O Caminho das Letras (2006) e O Sobrevivente (2011), obras editadas pela Expressão Gráfica Editora. Com a mais recente, Vento do 8º andar (Premius, 2017), foi finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria Poesia.

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de julho de 2019 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Swatch

por Catarina Lins

SWATCH

O relógio Swatch que eu levava no pulso, quando criança, no pátio
de um navio, talvez, no Chile, segurando os cabelos com uma das mãos, para a fotografia.
Os mesmos cabelos e o relógio que eu vejo agora, na volta de levar o lixo, antes de ligar para a faxina,
antes de ver as mensagens e fazer a lista para o Casamento.
Agora,
outros cabelos adentram a sala sem que ninguém perceba, trazidos pelo vento ou na cabeça de alguém
ainda muito mais jovem
(mas ainda assim, com mesma idade, mais ou menos) –
A melhor brincadeira
era a de índio
todos nas nossas cabanas
feitas de plástico
com arcos e flechas
de plástico.
Eu gostava de ti porque eras
ou parecias, em parte,
incapaz de machucar
alguém
(teoricamente)
incapaz
de machucar.
Mas todas as pessoas ou coisas que parecem incapazes
são assim apenas
na superfície,
na fotografia.
Anos depois, eu olharia
diferente para essa aparência
inofensiva.

AS POSSIBILIDADES CONTRAFACTUAIS

a pele,
um tronco –
(uma pessoa que é uma celebridade
apenas no Uruguai)
As partes que se encontram
apenas uma vez
só para depois
se separarem novamente – uma ainda de frente
para a outra –
mas: as partes frias
eram essas as que mais davam
a sensação
de que seria
– impossível –
agora, quando se deita
de cabeça para baixo
com os lençóis ainda arrumados por cima
da própria cabeça e mesmo depois, quando por baixo
da própria barriga você ainda pudesse
olhar
ou pensar
exatamente sobre aquilo:
em breve você vai
sair e realizar os movimentos de que falei –
(como se esta decisão não fosse
realmente sua), mas –
Uma vassoura
nada mais é do que um pincel muito grande
e um pincel
não mais é do que uma vassoura minúscula, dependendo do pincel, e
Nós
andamos pela terra, antes das 9h,
e olhamos o desenho que isso causa, causou, causava
ou iria ainda
causar:
às vezes
se assemelha a um tatu
outras vezes, a coisas muito menos “altas”
– andamos pela casa e, curiosamente,
dentro das mulheres
havia pedras
(e essa seria
a razão borgeana para não gostar de espelhos)
apenas andávamos, antes das 9h, e gostaríamos
de que todos os nossos amigos
estivessem lá, e vissem isso, também,
todos impecavelmente
vestidos
foi quando descobriram que a palavra cordeiro
aparece 26 vezes no livro do apocalipse
e 26 vezes você iria dizer
“cordeiro”, durante o almoço,
– passamos a tarde tomando café
no escritório da minúscula editora. Daqui a pouco eu deveria
descer e perguntar aos homens da Arquitetura
o porquê de tudo isso. Mas, para nós, é bastante óbvio:
braveza
é braveza
e uma pintura
é uma vassoura ou um pincel
muito grande assim como
um pincel
é só uma vassoura
minúscula (dependendo do pincel)
Depois,
você mudaria
de assunto porque leu em livros 
que seria a hora
de sair (ou ficar, dependendo
do ponto de vista) e portanto você
com sua real altura
talvez pudesse
dar um pequeno passo atrás
(olhando para dentro do táxi, os olhos de dentro do táxi)
tentando entender como é possível
um movimento como este:
que as frases venham e voltem
a seus donos.

UM BOM ANO PARA O MILHO

caso eu fosse a esposa
de um mafioso, agora,
acariciaria uma taça de vinho
exceto
se após a aula de meditação avançada
voltássemos para casa e abríssemos pacotinhos
de chips
de milho
<< Sequoia >>
porém: nada daquilo importa.
se naquele momento
o importante fosse apenas
“tomar as decisões corretas”
(mesmo que elas nunca parecessem
certas, na hora)
certo:
você imagina
e diz que este é um acordo
sobre o qual devemos
meditar
certo: a hora
em que os convidados chegam
é sempre muito variável –
jogamos as almofadas sobre o tapete,
pedimos mais vinho, salada,
uma bandeja para pôr tudo em cima e ainda uma banda
para falarmos das coisas que não entendemos por completo ou fingimos
não entender
(à noite, antes de dormir,
você se parece a alguém de quem não sei o nome
arrumando os copos e outras coisas frágeis em cima da pia
de modo que tudo se equilibre embora pareça sempre prestes a cair)

BOSTON
(9/8/2019)

sentamos à mesa na calçada
de um bar
em botafogo
eu te esperei talvez
10 minutos
e você chegou com os cabelos mais compridos do que da última vez
um pouco mais encaracolados
talvez mais escuros, no ombro
a cor da sua pele talvez estivesse mais clara, por falta de sol, e o copo
de chá gelado à minha frente
suava –
você chega de boston
com as roupas de boston
um sorriso de boston e os olhos
um pouco mais tristes, por trás dos óculos
de boston
é só o meu horário de almoço
e temos ovos fritos
à nossa frente
cogumelos, torradas
muito tempo sem se ver
escrevo algo na primeira página
de um livro
novo e comento que a poesia me aburre, atualmente, toda
a poesia por isso
você me convida
a ir a boston –
eu tiro o seu retrato enquanto você
folheia
o livro aberto à sua frente e jamais
saberemos quando
nos encontraremos de novo
se em Boston
ou ao sul
do nosso próprio país
(o autoexílio
você diz
é uma escolha ainda mais difícil)
eu me pergunto
o que veio antes
a possibilidade de fechar os olhos, através do sutil movimento das pálpebras,
ou a vontade
de abrir ou fechar os olhos, de não ver algo
que está bem a sua frente
como você está agora
enquanto diz sobre os boys de boston
ou os boys do rio de janeiro
em vez de falar sobre o que está bem diante de nós
sobre sua tradução dos poemas de Lorde
em vez de admitir que estamos bem diante
de nós.
para Ana Laura


Catarina Lins é poeta e autora de Parvo Ofício (Garupa, 2016), seu livro de estreia, além de O Teatro do Mundo (7Letras, 2017), obra finalista do Prêmio Jabuti 2018, e de Na Capital Sul-Americana do Porco Light (7Letras, 2019), entre outros títulos.

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de novembro de 2019 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Penca de espantos

por Maria Lúcia Dal Farra

MORADA

Alva casa no alto da montanha!
A tua paz de refúgio ancoradouro
põe tantas tréguas neste olhar errante
que mesmo de tão longe
(alvissareira)
me tornas teu precoce habitante.
Em ti possuo mesa, assento, cama
pouso perene, aconchego,
fundamento.
Tens escada e o homem que me afaga,
porão, sótão, raiz – copa de árvores.
És tu a colcha dos retalhos que cerzi
a preparar-me (na terra) o agasalho
– e (já depois) o berço
feito a ti.

SOLIDÃO

Íngreme paragem
incrustada no coração da noite.
Olhos pardos
buscando a lua
(que não alcança
e que canta nos fios elétricos) –
nota sentada em solidez de pedra
(integral, instantânea),
vertigem da mais pura ressonância –
maledicência desta hora
amarela.

CONSTATAÇÃO

Ah, como é triste
meu amor
deixar-te
e deitar sozinha por cima desta
solidão.
Fico a combater em mim
os teus desejos soltos
pelas ruas
por onde segues.

EIXO

A mulher e o homem são
como o céu espelhando a terra,
e juntos
(condensados no horizonte)
deixam que os relâmpagos e cometas
sulquem suas telas.
Um é para o outro
o que o pássaro é para o voo
– o vento para o deserto
o preço para a moeda
a água para o monjolo.
Que somos apenas redemoinhos
pois que
girando em torno de um centro oco
– assim nos elevamos.

FUNÇÃO

Antes retirar deste momento
o que ele não mostra
mas retém,
que cantar um pedaço da paisagem
(que se avista)
com seu tanto de árvores e de céu.
Exposta fica a tarde na tela sempre
igual
(farol imperioso o do sol!)
encaixilhada
(à esquerda)
por ciprestes,
premida (ao fundo) por edifícios.
Ofício difícil o seu:
o de suster-se sozinha
(por entre orifícios e interditos)
– muda testemunha
da esquecida mecânica sideral.

MIGALHAS

Tudo o que me habita
veio de ti –
das tuas veias inquietas
que borbulham à tona do corpo
do teu sorriso que dá forças
da tua voz entrincheirada
que nada revela.
Estou só
(agora)
e ando revivescendo em mim
o que me ficou de ti:
tua maciez
teu desespero
teu abandono
com os cabelos despencando em cima.

MORTE

A pedra pesa
e me remete para aquela
que arde
no centro da terra –
grave, cava – imantada.
O fruto cai,
eu mesma caio.
Planeta é este o nosso
onde tudo se orienta
pra dentro
pra baixo
para a pátria astral.

PERGUNTA

O que da tristeza retenho?
Em cinza encontro
a imagem concêntrica que o sol
reservou sobre estendidas águas.
Que é dos meus pastos dourados
do linho com que o choupo me
guarnecia?
Oh lua generosa e antiga!
Vem esgueirar os esconderijos
e desvelar-me
em que espinheiro
ainda se tece o ninho!

ENCONTRO

Debaixo do signo com que
mudas o mundo,
estou (pasma)
no aguardo de que
tuas mãos
comecem milagres.
Deponho-me aqui
(na tua direção)
evoco os ruídos
e os gestos díspares do encontro.
Ah, essa simetria que rompe
movimentos,
meu suor, minha solitária luta,
meu grito.
Ah, grande é o silêncio
ao qual pertencemos
sem ardis, sem simulação.
Ah, esperado abandono
onde perco teus gestos
e invento os que querem ser meus!

DIURNO

As palavras construídas
derrubam
a nitidez das manhãs:
os passos e os gestos
ganham destruição.
Veiculadas como partes aflitas
constroem a dissolução
ornamentam-se de falsas faces e
escorregadias
nos dão (enfim) à boca
o gosto amargo com que se acorda
do sono.

SUBTRAÇÃO

Meu canto hoje se franziu
e fez-se espasmo de horas pobres.
Partiu sobressaltado
(corrido)
escapando das mãos.
Cumpro em mim a missão de saber:
ouço,
comovo-me
e escrevo aqui rapidamente
apenas o que consigo reter.

INEXORÁVEL

Os relógios da noite embalam
os pássaros ensonados
para os voos matinais
– em demanda de outro tempo.
Os grilos pedintes
saltitam (mas não evitam)
os momentos difíceis.
Malgrado as asas,
morcegos ainda se tornam
antigos camundongos –
com carinho
com ternura nas unhas.
Tudo se rejubila
com o ânimo reinante
mas as horas correm para o seu fim
impertinentes –
com a mesma avidez.
Num átimo a chuva cai:
é um instante.
E só por fora explica
o eterno fluir do mundo.


Maria Lúcia Dal Farra é poetisa e autora das obras Livro de Auras (1994), Livro de Possuídos (2002), Alumbramentos (2012), que ganhou o Prêmio Jabuti 2012 na categoria Poesia, além de Terceto para o Fim dos Tempos (2017). Como ficcionista, publicou Inquilina do Intervalo (2005). Todos esses publicados pela Editora Iluminuras. Dal Farra também lançou obras sobre a poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de janeiro de 2020 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

 

Vários poemas

por Mariana Ianelli

A MESMA SORTE
Para Ramon

Podíamos ter nos dispersado
Depois da primeira noite
Como no fim de um trecho de neblina
Ter nos gastado numa aposta, por esporte
Podíamos ser hoje
Desses que se acenam mornamente
Como a render respeito a um morto
Ou por força maior
Podíamos ter ficado
Cada um numa cidade diferente
Enlouquecendo pouco a pouco
Dentro de apartamentos limpíssimos
Ou ao longo dos anos podia ter sido somente
Um discreto afrouxar de dedos,
Intervalos mais e mais espaçados
De alimento, sem que atentássemos
Que abandonos também semeiam
Podíamos ter nos perdido
Por nada, por muito, e afinal
Depois de mais de sete mil noites
Aqui estamos, depois do deserto,
Depois da loucura, depois de tudo
Velhos teimosos na nossa sede primitiva,
Tensionando o fino fio
Sobre o escuro dos possíveis
De uma sorte que é a mesma das aranhas.

APÓCRIFO E SEM DATA

Ouvi dizer que habitamos quartos contíguos
De paredes tão finas que se nos concentrarmos
Lograremos conversar por sinais –
É o que tenho feito, e assim até que o tempo
Se espalme nessa guarida de nada:
Um sopro, realmente apenas um sopro,
Como num conto para crianças,
e as paredes vão abaixo.

CARTA PARA MINHA FILHA HOJE FELIZ

Amanhã você descobrirá
Que a nossa terra estava cheia de monstros
Que não eram os dos nossos jogos.
Que preferimos nos vingar ardentemente
Minando de absurdas alegrias
Um pesadelo seco de caça e de fome.
Você descobrirá que existiam
Multidões de árvores desesperadas.
Árvores que não eram nossas árvores,
Árvores que não renasciam.
Talvez você se lembre (sem muita certeza)
De emaranhados sonoros
Que inflamavam no ar e lhe doíam.
Helicópteros. Sirenes. Máquinas de demolir.
Também coisas a que dispensávamos
dar palavra
Nos doíam. Coisas quebradas.
Corações sem pulso. A gorda colheita da ira.
Mas dentro do seu orbital eram outras leis,
Bichos e plantas falavam e eram ouvidos,
Num barco de pano singrando no vento
Subíamos até a Lua num minuto
Noutro minuto boiávamos no mar da Paraíba.
Ali também eu era uma criança entre crianças
E só o que não fecundasse vida era clandestino.
Hoje você ri seu riso puro
Amanhã descobrirá a bravura disso.

EM MEMÓRIA DO POETA TONINO GUERRA, PROIBIDO DE VER COM OS PRÓPRIOS OLHOS O CHÃO DE PÉTALAS DO PALAZZO FLORIO

A menina que viu as rosas se despetalando
Num vaso no centro da mesa da sala
E (cantando) com as mãos em concha as recolheu
Para espalhá-las pelo chão da casa
Nada sabe das pétalas que Filippo Palizzi
Pintou sobre um chão de azulejos de um palácio
Nada sabe sobre as pantomimas dos amantes
Ela apenas executa o gesto simples e completo –
Como encarnasse um vento leve –
Não sabe o quanto lhe cobiçam essa leveza
(O quanto dariam por ela) artistas, poetas e amantes.

AOS QUE NÃO PARAM

Desculpem-me da culpa
De não estar aí
Ajudando a girar a velha roda,
Perdi o grande evento
Perderei outros, perderia sempre
Se assim pudesse
Ocupada
Com a fantástica respiração
De uma inocência –
Essa graça alienígena
Que me coube
Essa flor adventícia –
Ninguém diz, mas o rumor
É de morte certa:
Basta um choque, uma queda
Ou alguém se debruçar
Para beber dessa água pura
E turvá-la de repente
No entanto
Nada disso me ocupa
Não ainda, não enquanto
Essa graça vibrar lúcida
Como se em seu habitat
Enquanto não estiver perdida
Desculpem-me da culpa
De perder tudo o mais sem pesar.


Mariana Ianelli é poeta, ensaísta e crítica literária, autora dos livros Duas Chagas (2002), Fazer Silêncio (2005), O Amor e Depois (2012), editados pela Iluminuras, além do livro de crônicas Entre Imagens para Guardar (Ardotempo, 2017) e do infantil Bichos da Noite (Positivo, 2018).

este poema foi publicado na seção inéditos da Revista E de março de 2020 - link para a matéria

 

Voltar para índice

 

@instagram / sescrevistae


::

Outras programações