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Habitar Palavras: Rafael Moraes

Alheios

  Os sonhos, por ora, foram cancelados; as expectativas, trancafiadas em casa. No rosto, apenas um olhar cansado e um sorriso tímido encoberto pela máscara. Nas mãos — aflitas à procura de água, sabão e álcool em gel — restam algemas que impossibilitam a tomada de qualquer atitude.                        
  Cidades vazias, hospitais cheios, cemitérios lotados. Partidas sem despedidas. Muito choro sem entender o porquê, ao menos, tão rápido.                   
  Ricos, pobres, velhos, jovens, negros, brancos... Não há classe, não há idade, não há cor e nem fronteiras. Para muitos, há um destino incerto; para tantos outros, um lugar sem volta!                                                                                
  Sem qualquer sentimento de culpa, damo-nos licença poética para enlouquecer um pouco e assimilar o desconhecido que nos rodeia. Um refúgio, em nós, para escapar do mundo, depois de um dia de trabalho ou depois de ligarmos a TV e sermos bombardeados pelos noticiários.                            
  Contudo, diante do caos, renasce a gratidão: pelo ar, pela vida, pela oportunidade. O ar, do qual respiramos e nos permite viver, mesmo que com todas as incertezas; a vida, da qual muitos foram retirados de cena e impedidos de viverem novos capítulos; a oportunidade, seja esta de prosseguir ou recomeçar que, infelizmente, muitos não a terão.                                        Isolados de tudo e todos, guardados em nós, aguardamos os dias em que a esperança há de se renovar. Junto dela, uma página em branco e o fôlego de vida que nos impulsionará a escrever uma nova história.

 

Esperança

Junto à monotonia dos dias,
Às semanas enclausuradas,
Instaurou-se em nós o medo,
Travestido de autoproteção velada.

Os abraços, os apertos de mãos,
Gestos de carinho e proteção,
Afagos que viraram ameaça
Ao bem-estar da população.

Do tempo, há de vir a esperança;
E esta, há de nos renovar,
A vida pausa, tropeça, balança,
Mas sempre permite recomeçar.

 

Pavor

Quando a esperança dá lugar ao medo,
Quando o medo impossibilita as ações,
Quando as ações se tornam desespero,
E o desespero toma conta de nós.

Quando o imprevisível se torna rotina,
Quando a rotina nos apavora,
Quando o pavor se torna sina,
E a sina não vai embora.

Quando tudo apavora,
Apavoro-me!
Pavor!
Oro!

 

Sobre o autor

Rafael Moraes, nascido em 19 de Junho de 1989, Licenciado em Letras - Língua Portuguesa, Inglesa e respectivas literaturas. Leciona na Rede Pública Estadual de Ensino. Publicou em duas Coletâneas Literárias da Andross Editora, em 2016 e 2017, respectivamente: Coletânea de Contos e Crônicas - “Ponto de Criação”, assinando uma crônica de própria autoria; Coletânea de Poemas - “Nuvens”, assinando dois poemas de própria autoria.

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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