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Renee Rosnes: uma pianista que comanda grandes músicos sem perder a ternura

Renee Rosnes no piano, em show da Comedoria do Sesc Pompeia | Foto: Julay Barretti
Renee Rosnes no piano, em show da Comedoria do Sesc Pompeia | Foto: Julay Barretti

Por Carlos Calado

Renee Rosnes é uma líder generosa. No seu show de ontem (23/8), em São Paulo, na oitava noite do Sesc Jazz, a pianista canadense apresentou várias vezes o vibrafonista Steve Nelson, o baterista Lewis Nash e o contrabaixista Peter Washington, deixando claro que divide com seus talentosos parceiros os méritos da música criativa que fazem juntos.

Aliás, quem entrou na Comedoria do Sesc Pompeia sem saber o que iria ouvir, pode ter ficado com uma primeira impressão errônea. Instalado no centro do palco, bem à frente, o vibrafone de Nelson ganhou mais destaque visual do que o piano, mas as originais composições de Renee, que dominam o repertório do show, logo confirmam seu papel de liderança.

Discreta, a pianista comanda os músicos do grupo mais com olhares do que por meio de gestos. Na hora dos improvisos, ela abre a cada um dos parceiros espaço equivalente ao que desfruta. Renne sabe que o jazz é música colaborativa. Oferecer liberdade para contribuições dos parceiros pode enriquecer mais ainda o material de sua autoria.

Boa parte do repertório da noite foi extraído dos dois álbuns mais recentes da pianista e compositora: “Beloved of the Sky”, lançado há quatro meses, e “Written in the Rocks” (2016). Vale notar que, ao gravar esses discos, Renee comandou quintetos que incluíram saxofonistas. Sem eles no atual quarteto, suas composições ganharam outra sonoridade, que enfatiza a relação do piano com o vibrafone de Nelson.

Aliás, não é toa que ela inclui no repertório do show a bela “Now”, composição do mestre do vibrafone Bobby Hutcherson (1941-2016), do qual Nelson é um brilhante discípulo. Além de ter feito parte do grupo de Hutcherson, Renee já declarou em entrevistas que adora a sonoridade produzida por vibrafone e piano, tocados simultaneamente.

Foi com essa sonoridade bem particular que a pianista exibiu o tema de sua excitante composição “Elephant Dust” – inspirada em episódio de sua infância, quando descobriu ser alérgica ao acariciar um elefante de circo. Piano e vibrafone também soaram juntos, além de comporem criativos contrapontos, na suingada “From Here to a Star”.

Outras composições da pianista, como a evocativa “Galapagos”, a lírica “Written in the Rocks” ou o samba “Rhythm of the River” (este tocado depois de a plateia exigir um bis), revelam algo recorrente em sua obra: muitas de suas composições são inspiradas em elementos da natureza.  

Quase ao final do show, Renee também demonstrou seus dotes de arranjadora. Anunciou “Tin Tin Deo”, clássico do jazz afro-cubano (parceria do trompetista Dizzy Gillespie com o percussionista Chano Pozo), mas sua versão é bem diferente das que já ouvimos. Lembra mais uma releitura ao estilo percussivo de Horace Silver (1928-2014), aliás, um dos grandes pianistas e compositores do jazz que a influenciaram.

Num momento em que se discute tanto as políticas de gênero, essa admirável pianista e compositora deixa uma lição para as musicistas que buscam seu merecido espaço no universo do jazz, ainda majoritariamente masculino. Ao liderar os três grandes músicos de seu grupo, Renne toca com eles de igual para igual, sem perder a ternura.

Carlos Calado é jornalista, editor e crítico musical. Escreve desde 2009 o blog Música de Alma Negra.

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