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Buika: para passar através de todos os medos

Foto: Julay Barretti
Foto: Julay Barretti

Por Inés Terra

A comedoria do Sesc Pompeia começa a encher uma hora antes do show. Tenho a sorte de escutar a discotecagem de Mariana Boaventura, que prepara o espaço para receber a Buika (Palma de Maiorca) e grupo. Algumas pessoas dançam, outras procuram lugar para sentar, outras fazem fila para pegar uma bebida.

Santiago Cañada (trombone e teclado), Ramón “Porriña” Suarez (percussão e cajón), e Josué “Ronkio” (alicante baixo elétrico) entram no palco e começam a tocar. A plateia fica ansiosa pela chegada de Buika.  O baixista sussurra a música “sonho com ela”. Em seguida, Buika entra no palco sorridente e diz: “Estou muito contente de estar aqui”. A voz da cantora invade a Comedoria com a verdade de quem “sonha com ela” mesma.

Impressionam a paixão, o amor pela performance e a versatilidade da artista. O show da cantora transita por diferentes territórios musicais como o flamenco, o pop, o jazz, o reggae, a rumba, o afrobeat, o blues, o tango e a canção latino-americana.

“Para que por um momento nessa noite brilhem os nossos segredos de amor”, diz Buika, antes de começar o tango Nostalgia. Ela também canta a valsa Que nadie sepa mi sufrir (Ángel Cabral). As duas músicas argentinas são do ano 1936. O tango e a valsa, com letras intensas sobre a passagem do tempo e a dor de cotovelo, revivem na voz da cantora, de maneira desgarradora, com arranjos adaptados à variedade de intenções que a artista sugere.

Buika tatua nos corpos presentes, com dor, ironia, e com muita convicção, as seguintes frases: “Por um instante, tudo o que há de ruim no mundo vai embora”, “Uma mulher louca de amor como eu”, “Deixa eu viver assim, no meu mundo”, “Tudo o que eu sonho e penso é meu”, “Eu já nem sei o que eu sou, e você não sabe amar”, “Chegou a minha mãe para curar a minha ferida”, “Eu vou e te perdoo, outra vez, e mais uma vez, e não sei por que”.

A voz melismática de Buika carrega multidões. Ela é rasgada, metálica e poderosa, voz alimentada pelo nomadismo e pelo amor às línguas do mundo. Para ela, a possibilidade de invenção é a possibilidade de futuro, deixando, em cada canção, a verdade da sua música.

Nas improvisações vocalizadas, Buika cria um discurso musical cativante numa linguagem jazzística e cigana, desenhando diversas formas entre as mãos; a cantora improvisa como se a banda saísse da sua boca, evidenciando as infinitas possibilidades da sua voz.

Santiago Cañada, Ramón “Porriña” Suarez e Josué “Ronkio” enfrentam um grande desafio ao acompanhar a Buika. “Ronkio” chama a atenção pela sua conexão com a cantora, variando entre a condução dos baixos, o uso de acordes e as levadas na rumba flamenca, junto ao percussionista. Chegando ao final do show, o baixista faz uma bela introdução para a música Santa Lucia, na que realiza uma improvisação, também cantando.

Entre improvisos do trombone e da voz, uma canção se liga a outra pelo jogo de palavras de Buika, respondendo a cada palma e grito, sempre com mais música e vontade.

“El último trago” (1972), canção do José Alfredo Jimenez, popularizada na voz da cantora Chavela Vargas, é uma das últimas músicas, apresentada a capella, com improvisações vocais entre as estrofes. Durante a música, a cantora brinda com a plateia, pela última vez.

Buika diz que quando nos despedimos de um lugar ao qual desejamos voltar devemos deixar algo nosso. E assim encerra o show, presenteando uma das mulheres próxima ao palco com uma pulseira dourada que vestiu durante a apresentação.

Para quem quiser continuar ao lado de Buika, aguardando seu possível retorno ao Brasil, recomendo “Para mi” (2017), seu último EP, no qual ela oferece vinte e cinco minutos de solidão para quem escuta, apresentando canções e lamentos que contêm a força intimista e incisiva da sua experiência.

Fica a pergunta para quem deseja abrir os ouvidos para o universo de Buika: que tal passar através de todos os medos?

Inés Terra é musicista e pesquisadora formada em música popular na Universidade Estadual de Campinas. É mestranda em processos de criação musical na ECA (USP) e atua como performer vocal em espaços e circuitos ligados à música contemporânea. 

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