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Aláfia: música para abrir caminhos

A banda lança Corpura no Sesc Ribeirão Preto, Jundiaí e Belenzinho<br>Foto: Sté Frateschi
A banda lança Corpura no Sesc Ribeirão Preto, Jundiaí e Belenzinho
Foto: Sté Frateschi

São muitas cabeças, mas o discurso está alinhado e afiadíssimo. Formado por Xênia França, Jairo Pereira e Eduardo Brechó, tríade que compartilha os vocais, acompanhados pelo guitarrista Pipo Pegoraro, Gabriel Catanzaro no baixo, o tecladista Fábio Leandro, o baterista Filipe Gomes, o percussionista Alysson Bruno, o trombonista Gil Duarte e o gaitista Lucas Cirillo, o Aláfia mistura em seu caldeirão de referências a ancestralidade e as matrizes brasileiras com letras combativas - na mira estão questões como o racismo e a intolerância religiosa.

Em janeiro, o grupo apresenta seu segundo disco, Corpura, nos palcos do Sesc Ribeirão Preto, Jundiaí e Belenzinho. A EOnline conversou com Eduardo Brechó sobre os caminhos da banda em 2016.

Um jornalista inglês cunhou o termo funk candomblé para descrever a banda. Vocês aceitam esse termo? Quais são as influências do Aláfia?
Eduardo Brechó: Para mim, o Funk é um estado de espírito e o Candomblé é uma visão de mundo que norteia muito da nossa produção. São dois pilares da dita diáspora africana que me apoiam na vida cotidiana e na arte. Independente das diferenças que possa haver entre sagrado e profano. Não podemos negar que este termo tenha a ver com a gente, com o som que fazemos. Além do ineditismo presente neste neologismo que justamente não tenta nos encaixar numa estante qualquer das zonas de conforto.

Soubemos que você cresceu em Ribeirão Preto. Como é trazer a banda para se apresentar em casa?
Eduardo Brechó: É uma responsabilidade grande e um deleite. É ótimo poder falar dos bailes que frequentei, das ruas da minha cidade e ser entendido de maneira mais literal e calorosa. Ver no brilho dos olhos do público que sabem que o Aláfia tem a ver com o Pascoalim, o Mercadão, o Orunmilá, o Sebo do Brechó, o Quarteto Pó de Café, a Califórnia Disco Laser, a Zoom, a Mogiana, o Márcio Coelho etc... em casa, com quem me conhece, isso é menos abstrato e é bem acolhedor. Espero que gostem.

Em 2015, o feminismo foi pauta de inúmeras discussões e até tema de vestibular. A Xênia, inclusive, está na lista das mulheres inspiradoras do blog Think Olga, junto com Elza Soares e Tássia Reis.A presença poderosa de Xênia à frente do Aláfia contrasta com a ausência de mulheres negras na mídia. Essa referência é importante?
Eduardo Brechó: É como dizemos, representatividade importa! A simples presença já diria muito mas, no caso da Xênia, está muito além disso. No meu entendimento restrito (que parte da condição de homem), ela é mais que beleza, mais que discurso, mais que o culto à celebridade, mais que uma voz: é uma força que está trabalhando pra que as coisas mudem de maneira contundente, que busca se aperfeiçoar e se desconstruir todo dia.

Como na letra de Proteja seu Quilombo, "Proteja a cabeça/Proteja do projétil/Do projeto antipreto", num país onde o assassinato de jovens negros pela polícia não causa comoção, qual é a importância do enfrentamento por meio da música do racismo institucionalizado?
Eduardo Brechó: O racismo é estrutural no Brasil. Seja ele institucional ou nas relações mais próximas. O racismo mata de várias maneiras. Sejam elas institucionais ou nas relações mais próximas. Nós fazemos estas músicas de maneira natural por estarmos envolvidos na luta contra o racismo. Outras pessoas que trabalham em outros ramos, têm a mesma responsabilidade nas esferas que atuam. Algumas canções podem ser emblemáticas ou embalar pensamentos semelhantes. Raramente, cativamos os que pensam diferente da gente. Este é um problema grande do nosso tempo. As ideologias estão fechadas de maneira fanática. Nós apoiamos medidas governamentais afirmativas que combatam o racismo. Nós apoiamos a desmilitarização do estado. Nós somos contra a redução da maioridade penal. Somos a favor das cotas e demais indenizações a quem teve ancestrais sequestrados, torturados e escravizados e cujos descendentes ainda sofrem horrores na mão dos soldados e cidadãos despreparados. A música ajuda mas é a educação que importa. Ajudaria inclusive a música. Sociedade civil e estado conscientes e dispostos a mudar uma mentalidade genocida. 

Vocês convidaram o Alê Siqueira para produzir Corpura. O que mudou do primeiro para o segundo disco?
Eduardo Brechó: Alê Siqueira é um gênio. Nós produzimos o disco juntos e esta convivência parecia um workshop pra mim. Valeu absolutamente cada segundo que trabalhamos juntos. Ele trouxe um leque de catalisadores de estúdio que eu não conhecia e, para além da técnica de gravação, musicalmente nos entendemos muito bem. Corpura é mais conciso e mais direto em alguns temas. Estávamos mais maduros como grupo e já com um jeito de fazer música. Um som nosso mais definido. Gosto do primeiro e vejo que ele tem pontos muito bonitos mas foi um álbum que partiu de uma safra de canções que eu guardava há muitos anos de fases diferentes da vida e com ideias complexas muito distintas entre si. O conceito de Aláfia já estava ali e é bem parecido o porquê de tudo. Já o repertório de Corpura foi praticamente composto para o disco.

Depois de dois discos lançados e aclamados pela crítica e pelo público, os caminhos estão abertos? Quais são os projetos do Aláfia?
Eduardo Brechó: Estamos trilhando nosso caminho e sabemos que ele é só nosso. Acabamos de fazer uma faixa chamada Prece com o coletivo de DJs Discopédia e vamos lançar em breve. Faremos outro disco este ano também e vamos lançar clipe e singles. Adoramos trabalhar!

 

Já ouviu o álbum Corpura? Nessa playlist você confere faixa a faixa o novo trabalho do Aláfia:


Saiba mais sobre os shows nos links abaixo:

Aláfia - Sesc Ribeirão Preto
Quinta, 14/01, às 20h30, no Galpão de Eventos


Aláfia + Ellen Oléria - Sesc Jundiaí
Domingo, 17/01, às 18h, no Teatro


Aláfia - Sesc Belenzinho
Sexta, 22/01, às 21h30, na Comedoria

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