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Coletividade na quebrada

Wesley Gabriel com moradores da quebrada | Foto arquivo Coletivo Kinoférico
Wesley Gabriel com moradores da quebrada | Foto arquivo Coletivo Kinoférico

Quatro participantes do Programa Juventudes do Sesc Campo Limpo mandam suas ideias sobre como é vivenciar a arte na zona sul de São Paulo e convidam a ver que da ponte pra cá o corre é cheio de resistência, coletividade, articulação e diversidade.

 

“Um dos meus primeiros contatos com a arte foi num projeto na “E. M José Salvador Julianelli”, que tinha oficinas de arte e cultura. Devido a um corte de verbas o projeto acabou e logo na minha infância percebi o quanto arte e política se conversam, pois há uma necessidade de investimento que muitas gestões se recusam a proporcionar para a quebrada, por não quererem que tenhamos acesso a cultura, ou por acharem que aqui não se produz arte. Com isso, me pergunto se esses espaços de cultura estão muito distantes de alguém com a minha realidade. Quantos jovens da quebrada pensaram o mesmo que eu e desistiram? E quantos que não vivem aqui tem esses mesmos questionamentos?

Apesar dessa desvalorização, comecei a criar poemas e narrativas que me ajudavam a acreditar que ainda poderia criar, principalmente nesses momentos de desânimo e revolta, tanto que hoje uso meus poemas como forma de protesto. Pra mim arte é resistência, pois até quando tentaram tirá-la de mim ou quando achei que ela fugiu das minhas mãos, percebi que sempre esteve ao meu lado.”

Victor Hugo Santana da Silva, 18 anos, mora em Embu das Artes, região metropolitana da capital paulista, é estudante do 3° Ano do Ensino Médio, faz poemas e está aprendendo música.

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"Meu primeiro contato com arte foi na Casa do Zezinho. As atividades que me rodearam serviram de base pra Kauane de hoje, que mesmo não sabendo quando pequena da importância desse tipo de espaço em sua quebrada, hoje enxerga essas instituições como mais que necessárias na Sul. Aqui o meu corre é pra arranjar um trabalho pra ajudar meus pais, ao passo que estudo pra entrar na faculdade pública. Isso é muito exaustivo porque sendo mulher, jovem e negra penso que além de todo esse esforço tenho que lutar contra um ‘padrão’ que insiste em determinar qual o meu papel na sociedade. A palavra resistência sempre é termo presente porque o racismo é diário. ‘Posso tocar no seu cabelo?’, ‘você trabalha aqui?’, são frases que ouço assim que saio de casa. Meu maior desejo é que a minha trajetória não seja determinada pelo meus traços, meu blackzão e minha pele, mas que me vejam como uma pessoa com infinitas possibilidades.

A arte surge como uma dessas possibilidades que se expressam nos meus desenhos. Eu procuro retratar pessoas negras com seus típicos traços: nariz largo, diferentes tipos, tamanhos e curvaturas de cabelo, pequenos detalhes que contam muito. Acho que isso é o que me faz gostar tanto de desenhar rostos, a diversidade. Quando pego lápis e papel pra desenhar, sinto uma sensação gostosa de liberdade. A arte é minha válvula de escape: por meio dela expresso meus pensamentos, alivio minhas dores, resisto enquanto mulher negra periférica”.

Kauane Bispo Santos, 17 anos, mora no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo, está aprendendo música e adora desenhar. @imkauane

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“Entrei no mundo da música num projeto da escola ‘E.M.E.F Jornalista Paulo Patarra’, onde tive contato com os cantos de empoderamento feminino e periférico de artistas como Marina Peralta, Sandra de Sá, Flora Matos entre outras. A partir daí, tomei amor, satisfação e engajamento pela música. Em 2017, eu e 3 amigos fundamos um sarau chamado ‘Som de Praça’ no Taboão da Serra com o intuito de ampliar a visibilidade de artistas independentes e seus trabalhos. Lá eram apresentadas poesias, músicas, batalhas de MC´s... Recebemos o poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa, como convidado em uma das edições e foi um marco pra gente. Como jovem da zona sul, me agonizava não ter um movimento cultural ativo na região do Pirajussara que dialogasse com seus moradores e donas da casa e isso nos incentivava a manter o sarau, mas infelizmente perdemos o nosso espaço. 

Nesse tempo me aprofundei no grafite. Comecei num coletivo feminino, então foi fácil chegar e ser bem acolhida na cena. Assinávamos “garotasãoarmas” como uma tag manifestante em prol das mulheres.  Logo, conheci muitas crews da região como a ercrew, asp, anata, goldengirls, entre outros que me apoiaram. É um mundo que precisa saber chegar com humildade e uma ideia que feche com a liberdade de se expressar. Coletivos como o graffkilo, graffitiqueens, entre outros realizam eventos em prol da quebrada, com arrecadações, provando que o grafite é muito mais que desenhar muros”. 

Maiza Souza, 21 anos, mora no Campo Limpo, bairro da Zona Sul de São Paulo, é multi-instrumentista, cantora e grafiteira. @maizenaaaaaaa_. Artistas e coletivos citados: @a_nata_crew; @graffkilo; @goldengirlscreew; @daicava; @nilo_erncp; @_ganenega; @tiko_finkennauer; @molao_marcelo; @lethiciasempaciencia; @colhinhonalua.

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“Falar sobre arte pra mim é como falar sobre existência. É na arte que trato minhas ansiedades, meus medos, meus desejos e meu sonhos. Meu primeiro contato com a arte foi na Casa do Zezinho que exercitou em mim um olhar artístico e me possibilitou enxergar o mundo e a minha própria existência de uma maneira única. As atividades propostas me colocavam cara a cara com a minha criatividade, era diante de um grande painel branco que eu podia mostrar para os outros aquilo que habitava em mim. Entendi que a minha existência era algo grande e bonito e toda minha visão de mundo foi reconfigurada. O contato com a capoeira, hip hop, teatro e até mesmo a convivência com outras crianças criaram a concepção que eu poderia SER e FAZER muitas coisas. Isso me ajudou a não temer o novo e desconhecido, nessas atividades aprendi que a diferença era algo rico e poderoso e validei minha existência.

Hoje reconheço que contrario as estatísticas já que sou uma menina negra que não foi morta pelo Estado, nem sou analfabeta, possuo o ensino médio completo e até mesmo um diploma técnico. Reconheço também a arte como minha resistência pois atuo no audiovisual e nas artes gráficas, dois campos elitizados, brancos, héteros e masculinos. Mulheres negras como eu sempre tiveram espaço na arte para terem seus corpos sexualizados mas não para terem seus trampos expostos. Por isso que é na arte onde me deleito, pinto minhas ansiedades e gravo minhas angústias, este espaço também é meu.”

Kailane Bispo Santos, 17 anos, mora no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo, atua no audiovisual e artes digitais. @K.ilane

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Durante os meses de agosto, setembro e outubro, vídeos de artistas e coletivos jovens ocupam as redes digitais do Sesc São Paulo. E você, jovem, está convidada(o) a publicar suas criações com a hashtag #ArteTerritorio_Sesc, a partir da palavra, do movimento, da imagem, do som ou de tudo isso junto!

Aquilo que você produz é cultura, é arte e diz sobre sua comunidade, suas experiências, sua vida! Compartilhe conosco, assim como fizeram os jovens do Programa Juventudes.

O oitavo e último episódio do #ArteTerritorio_Sesc, traz Léo Castilho, educador do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo e Wesley Gabriel, o WG, editor de todos os episódios desta série de vídeos, além de cineasta, fotógrafo, produtor cultural e um dos fundadores do Coletivo Kinoférico. Se liga aí:

Esse vídeo é um trabalho de edição e produção feito por jovens. Ficha Técnica:

Edição Geral - Wesley Gabriel

Animação vinheta - Rodrigo Eba

Animação trilha - Paulo Junior

Libras – Amanda Alves Rodrigues

Narração voz do Léo Castilho - Gustavo Oliveira

 

Para saber mais e assistir aos outros episódios acesse: sescsp.org.br/arteterritorio

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