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Habitar Palavras: Rosinei Jacinto

CORAÇÃO DESBOTADO

Doa-se um coração
Em bom estado
Aprendendo a amar
Um pouco desbotado

Os dias sombrios
O coração desbotou
Vivendo na solidão
Coração sossegou

Precisa ser arrumado
Plantar flores no jardim
Uma toalha colorida na mesa
Um vaso com jasmins

Abrir as janelas
Tirá-lo da solidão
Ainda há vestígios de entulhos
Esparramados pelo chão

Não se esqueça, troque os lençóis
Estão marcados pela dor
Mande embora a saudade
Traga de volta o amor

Amor que já não sentimos
Afastados, distantes e sós
O medo de sentir o outro
Aflige-nos, dá um nó
 

OLHOS, OS ÚNICOS QUE A MÁSCARA NÃO PODE ESCONDER

Sempre tive um profundo apreço por olhos, apreço pelo que podem revelar.

Hoje, mais que nunca, é através deles que nos conectamos ao mundo. Estão à mostra, espreitados, imponentes. Os únicos que a máscara não pode esconder. Eles riem, choram, cantam, brincam, beijam, acolhem, divertem-se, repreendem, acenam, acariciam... Expressam os mais sinceros sentimentos: alegrias, tristezas, euforia, frustração, não mentem jamais.

Hoje, somos, verdadeiramente, o que os olhos expressam.

São muitos os tipos de olhos: puxadinhos, redondos, arregalados, brejeiros, melancólicos, desatentos, azuis, verdes, castanhos, verdadeiros.

Não nos preocupamos muito com os olhos. Se não enxergamos, usamos lentes ou óculos.

Muitas vezes, escondemos os olhos sob óculos escuros, pois são reveladores.

Os olhos, ao contrário de outras partes do corpo, não envelhecem, não têm celulites, estrias, rugas.

Não há quem não sinta através dos olhos, mesmo quando nada se vê.

Ao beijar, abraçarmos forte, ouvir uma bela canção, rememorar lembranças, fechamos os olhos. Já beijaram os olhos de alguém? Deve ser alguém muito especial.

Hoje, só temos os olhos.

Certamente, algum poeta deve ter dito que os olhos são as janelas da alma. Eu acredito que os olhos são a entrada para se chegar ao coração, onde mora o amor.
 

SOLIDÃO NECESSÁRIA

Na solidão,
Vesti-me de poesias
Desnudei minh’alma
Mostrei-me serena, obscena, aprendiz
Rasguei os contos de fadas
Escrevi outras histórias
Descortinei fantasias
Varri entulhos da memória
Vivi tristezas e alegrias
Reinventei-me, fui juiz
Santa, meretriz
Vi o céu estrelado, a lua
Encolhi-me num canto da rua
Chorei, senti saudades, sorri
Forrei as paredes do coração
Outras estampas, outra canção
Improvisei passos e descompassados
O êxtase no papel arremessado
Troquei as flores, o perfume, os lençóis
Sonhar outra vez, ser feliz
Este é o meu desejo
Quando a vida está por um triz
É prático e seguro esse arranjo?
Quem sabe não há um dedo de anjo?


Sobre o autor

Rosinei Jacinto é profissional da Educação, com 29 anos de experiência como professora, supervisora e gestora, em instituição pública e particular, de Educação Básica e Superior. Também realiza assessoria e desenvolve oficinas e palestras inerentes a temas pedagógicos como: Sequência Didática, BNCC e Currículo, Literatura Infantil, Contação de Histórias e outros. Tem experiência em idealização e implementação de projetos de cunho educacional e cultural; é autora dos livros   “Cabeça de vento”, “Pimenta Malagueta” e “O sapo que não queria ser príncipe”, o último, em vias de lançamento, além de textos sobre comportamento humano e teatros infantojuvenis.

Habitar Palavras - Biblioteca Sesc Birigui

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