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Turismo e desenvolvimento: uma visão crítica | Tourism and development: a critical vision

Foto: Bruna Moreschi
Foto: Bruna Moreschi


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Turismo e Desenvolvimento: Uma Visão Crítica


Jordi Gascón

 

“Na verdade, mais que um especialista em turismo, sou um especialista em estudos rurais que têm o turismo como objeto de estudo. Como muitos antropólogos da minha geração, cheguei ao turismo por casualidade.”

Jordi Gascón

 

 

 

É assim que Jordi Gascón Gutiérrez, doutor em Antropologia Social e professor da Universidade Aberta da Catalunha, Espanha, reflete sobre sua trajetória no turismo, tema de suas obras investigativas, como Turismo y desarrollo: herramientas para una mirada crítica ou Viajar a todo tren: turismo, desarrollo y sostenibilidad – ambos em co-autoria com Ernest Cañada. Pesquisador sênior do Instituto de Altos Estudios Nacionales, no Equador, membro do Fórum de Turismo Responsável, Gascón analisa criticamente o turismo como ferramenta para a cooperação, abordando seus impactos na América Latina.

O escopo de seu trabalho tem sido, quase sempre, o mundo andino, mas os resultados de suas investigações refletem a universalidade do tema. Quando iniciou a pesquisa de campo para sua tese de doutorado, no Lago Titicaca, Peru, o turismo era uma atividade menor da economia local, mas havia se tornado o eixo ao redor do qual giravam todos os conflitos políticos, sociais e até religiosos. Desde então, passou a analisar o impacto do turismo sobre as economias campesinas, assim como as consequências de determinados modelos de desenvolvimento turístico sobre as comunidades receptoras, principalmente aqueles baseados em interesses das grandes multinacionais do setor e de grupos oligárquicos locais. 

Jordi Gascón vem a São Paulo para participar do Congresso Mundial de Turismo Social 2014, que acontece entre 09 e 10 de outubro, no Sesc Consolação. O evento, realizado pela Organização Internacional de Turismo Social - OITS e pelo Sesc, propõe uma ampla reflexão acerca do turismo de desenvolvimento, tomando como base a dialética da unidade na diversidade e reconhecendo a existência de diferentes formas de fazer turístico unidas pela busca de um turismo acessível, solidário e sustentável.

O antropólogo fará a conferência de abertura do Congresso no dia 09 de outubro, sob o tema Turismo e desenvolvimento: uma visão crítica. Mediada por Jacques Perreault, presidente da Secretaria para as Américas da OITS, sua apresentação buscará responder sob quais circunstâncias o turismo pode ser considerado um motor de desenvolvimento.

Em entrevista à Eonline, Jordi descreve um pouco de sua interpretação acerca de estudos, políticas e experiências no âmbito do desenvolvimento turístico, além de nos contar sua expectativa para o Congresso Mundial de Turismo Social 2014:

 
EOnline: Você acredita que o foco crítico nos estudos do turismo no mundo tem sido representativo? Gostaria de destacar uma região onde é mais forte?
Jordi Gascón: Não, não tem sido. Embora certas disciplinas tenham analisado criticamente o turismo, nos anos 1970 e 1980, esta perspectiva pareceu desvanecer-se nas décadas subsequentes.  Alguns autores, como [Anita] Pleumaron, [John] Tribe ou, no caso brasileiro, [Helton Ricardo] Ouriques, destacaram que a pesquisa em turismo centrou-se excessivamente na análise de sua gestão e que esta perspectiva, supostamente técnica, permitiu-lhe ser acrítica. Esta situação parece estar mudando na última década, com o surgimento da corrente Critical Turn que, como definem [Irena] Ateljevic, [Annette] Pritchard e [Nigel] Morgan, ultrapassa até mesmo a crítica acadêmica ou ontológica do fenômeno: tem o explícito compromisso político a favor da justiça social e da equidade.

EOnline: Sua conferência, no Congresso Mundial de Turismo Social, questionará se o turismo pode ser um fator de desenvolvimento e em que circunstâncias. Qual é a importância desta discussão?
J.G.: Estou cada vez mais convencido que considerar que o crescimento de um setor econômico, como o do turismo, implica uma melhoria da qualidade de vida de um território ou ao menos de seus indicadores macro econômicos, é um erro. Porque não se leva em conta que o crescimento desse setor acontece por meio do uso de alguns recursos (naturais, capital humano, capital econômico etc.) que também são necessários para a viabilidade de outros setores. A consequência de um crescimento bem sucedido do turismo é, por assim dizer, a “monocultura” desse setor, pois acaba marginalizando ou faz desaparecer os demais. E esta é uma dependência muito perigosa.

EOnline: Pode citar um país que tenha adotado uma política efetiva de desenvolvimento turístico?
J.G.: Seria muito difícil. No Butão, o estado estabelece controles radicais ao turismo para que seja uma fonte de ingresso, sem gerar distorções econômicas, sociais e ecológicas. Porém, não conheço este caso muito profundamente. É mais fácil assinalar os países que fizeram uma politica turística desastrosa. Começando pelo meu, na Catalunha, onde o turismo está transformando a cidade de Barcelona, antes industrial e comercial, em um parque temático onde é impossível viver; um processo que poderíamos chamar de “Síndrome de Veneza”. Ou onde o turismo de sol e praia é um dos principais fatores que estão fazendo desaparecer uma pujante (e sustentável) economia pesqueira artesanal.

EOnline: Qual é sua expectativa para o Congresso Mundial de Turismo Social?
J.G.: Como pesquisador, me interessa ver que debates e linhas de análises existem a respeito do fenômeno do turismo social. Como ativista da cooperação para o desenvolvimento, me interessa descobrir como estão funcionando as experiências práticas que têm sido realizadas; e neste caso, gostaria de conhecer tanto os casos de sucesso como também os possíveis fracassos e suas limitações. Muitas vezes aprendemos mais a partir das falhas e dos contratempos do que das chamadas "boas práticas".  

 

 

 

 

 

 

 
 
Tourism and development: a critical vision

 

Jordi Gascón

 

“In fact, much more than a tourism expert I am a specialist in rural studies that has tourism as a study matter. Just like many anthropologists of my generation, I came into tourism by casualty.”

Jordi Gascón

 

 

 

 

This is how Jordi Gascón Gutiérrez, PhD in Social Anthropology, thinks over his trajectory in tourism, theme of his researching works Turismo y desarrollo: herramientas para una mirada crítica or Viajar a todo tren: turismo, desarrollo y sostenibilidad – both with co-authorship of Ernest Cañada. As a senior researcher of the Instituto de Altos Estudios Nacionales,Ecuador; member of the Fórum de Turismo Responsável, Gascón analyses the tourism as a tool for cooperation, addressing its impacts in Latin America.

His working scope has been, almost always, the Andean world though the results of his investigations reflect the universality of the theme. When he started the field research for the doctoral thesis, in Lake Titicaca, Peru, tourism was a minor activity of the local economy, but had become the axis which revolved all political, social and even religious conflicts. Since then, he began to analyze the impact of tourism on rural economies as well as the consequences of some models of tourism development on destination communities, especially those based on the interests of large multinational tourism companies and oligarchic local groups.

Jordi Gascón will come to São Paulo to take part of the World Congress of Social Tourism 2014, held on October 9 – 10, at Sesc Consolação. The event is promoted by the International Organization of Social Tourism – OITS – and by Sesc, and will propose a wide thinking about the tourism of development, taking as basis the dialectic of unit and diversity and recognizing the existence of different ways to make tourism, combined by the pursuit of an accessible, solidary and sustainable tourism.

The anthropologist will deliver the opening lecture of the Congress, on October 9, exploring the theme Tourism and development: a critical vision. The presentation will be mediated by Jacques Perreault, president of the Secretaria para as Américas da OITS. The presentation will attempt to answer how and under what circumstances the tourism can be considered a development motor.

In this interview to Eonline, Jordi describes some of his understanding about studies, policies and experiences in the field of tourism of development and makes comments on his expectations for the World Congress of Social Tourism:

EOnline: Do you believe that the critical focus on tourism studies in the world has been representative? Would you like to remark a region where it is stronger?
Jordi Gascón: No, it hasn't. Although certain subjects have critically analyzed the tourism, in the years 70s and 80s, this outlook seemed to fade way along the next decades. Some authors, such as [Anita] Pleumaron, [John] Tribe or, in Brazil, [Helton Ricardo] Ouriques highlighted that the research in tourism, focused excessively the analysis of its management and under this perspective, apparently technical, enabled it to be uncritical. This situation seems to be changing in the last decade, with the appearance of the current Critical Turn, which as defined by [Irena] Ateljevic, [Annette] Pritchard e [Nigel] Morgan, surpasses even the academic criticism or ontological phenomenon: it has the explicit political commitment in favor of social justice and equity.

EOnline: Your conference in the World Congress of Social Tourism will question if tourism can be a development factor and in which circumstances it happens. What is the importance of this debate?
J.G.: I am increasingly convinced that it is a mistake to consider that the growth of an economic sector, such as tourism, implies an improvement in the quality of life within a territory or at least of its macro-economic indicators.  It is so because we don't take into account that the growth of this sector happens through the use of some resources (natural, human capital, economic capital, etc.) that are also necessary for the viability of other sectors. The consequence of a successful tourism growth is, to speak so, the "monoculture" of the sector, because ends up banning or exterminating others. And this is a very dangerous dependency.

EOnline: Can you quote a country that has adopted an effective policy for tourism development?
J.G.: It would be very difficult. In Bhutan, the State established radical controls to tourism so it can be a source of income, without causing economic, social and ecological distortions. However, I don't know this case so deeply. It's easier to point out those countries that have made a dreadful tourism policy. Starting with my own country, in Catalonia, where tourism is converting the city of Barcelona, a former industrial e commercial center, in a thematic park where it is impossible to live; a process that we could call "Venice Syndrome". Or, where the sun and beach tourism is one of the main factors for the disappearance of a thriving (and sustainable) artisanal fishing economy.

EOnline: What is your expectation for the World Congress of Social Tourism?
J.G.: As a researcher, I'm interested in knowing what are the debates and analysis regarding the phenomenon of social tourism. As an activist for the development cooperation, I would like to find out how practical experiences are working; and in this case, I'd like to distinguish successes as well as the possible failures and limitations. Many times we can learn more from failures and setbacks than from the so-called “best practices”.
 

 

 

 

 

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