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Infinitivamente pessoal, "Real e de Viés" é um convite à poesia

Fotos: Larissa Bela Fonte
Fotos: Larissa Bela Fonte

Poesia vem do grego poiesis, que pode ser compreendido como a essência do agir, ou a emoção no que é feito, no criar algo. Esse fazer poético pode ter sua morada em som, imagem ou num poema, a forma escrita de poetizar.  Em Real e de Viés, obra de Leandro Oliveira, já na capa é possível sentir o convite do autor a entrar na sua poesia, com a imagem de uma maçaneta.

O lançamento de Real e de Viés acontece dia 17 de setembro, quarta-feira, às 20h no Sesc Araraquara. O evento faz parte do projeto Novas Leituras, que teve início este ano e propõe a apresentação de novos autores e de suas obras ao público.

Leandro, que é músico e sociólogo, através das palavras nos oferta as mais diversas formas de reflexão do individuo sobre o individuo. E chama a atenção a forma com que o autor coloca esse ponto de vista reflexivo em si e no outro, coisas que só a poesia pode permitir. Os silêncios podem ser percebidos na obra, que já no primeiro poema, Iniciação, traz o apelo de Leandro para que o leitor atente para o não dito.

Questões do cotidiano e a universalidade das coisas são apresentadas nas poesias, que, com sensível cadência, conduzem o leitor de forma a parecerem ter continuidade e, até, para os mais criativos, certa narratividade. Isso porque seus poemas são expostos todos sem pontuação de começo ou fim, e de forma inusitada são dispostas as palavras, lembrando muitas vezes partituras. Com o avançar da leitura é possível notar que não é à toa que lá está cada substantivo, verbo ou preposição.

Diante de todo o encantamento que a poesia desperta e a elegância de Real e de Viés, a EOnline conversou com Leandro sobre criação e inspiração:

EOnline: Você sempre escreveu? É coisa de infância ou veio depois? Conte um pouco da sua relação com a poesia.
Leandro Oliveira: Que eu me lembre, não. Na verdade, minha relação com a arte na infância teve a ver com desenho. Li muita história em quadrinhos e comecei a desenhar muito cedo. Tive também aulas de música desde os nove anos por iniciativa de minha mãe. A poesia veio quando eu já era adulto. Depois dos vinte, certamente. Não saberia precisar quais foram os caminhos que me levaram à poesia. É, antes de tudo, um modo de ver o mundo que foi tomando forma. O rap, que é uma forma peculiar de poesia, esteve presente em minha adolescência. Os Racionais MC’s, em particular, me causaram grande impressão. Para o tipo de poesia que escrevo, contudo, alguns nomes foram divisores de águas. Clarice Lispector, primeiramente, seguida de Alberto Caeiro, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar. Mas, como ressaltei anteriormente e a leitura do livro indica, espero, os versos são perpassados por estímulos diversos. Passam, por exemplo, por Caetano Veloso, Miles Davis, Edward Hooper, Dostoievski, Chet Baker e Lars Von Trier, somente para destacar alguns nomes.

EOnline: Até que ponto você é consciente da influência da música no seu processo criativo? Você acredita que pensa musicalmente na hora de criar?
L.O.: Não penso musicalmente para escrever. Pelo menos não conscientemente. Como já adiantei, minha relação com a música começou bem cedo. Aos dez anos fui apresentado ao trompete que me acompanha até hoje. Minha família é evangélica e foi nesse ambiente que dei os primeiros passos. Salvo raras exceções, a concepção musical praticada nessas igrejas era de inclinações militarescas e por muito tempo toquei por tocar. Não sentia prazer naquilo. Só depois de muitos anos fui introduzido ao universo da música instrumental e do jazz. Esse foi um passo decisivo para perceber certas possibilidades poéticas. Mas, confesso que não compreendo de que modo a música se faz presente no meu processo criativo, embora não tenha dúvidas de que está lá.

EOnline: Wanessa de Barros, autora do prelúdio de sua obra, coloca que “morte e vida e amor e susto” estão presentes em seus poemas. Como foi o processo de criação e inspiração dessa obra?
L.O.: A Wanessa é uma poeta mineira incrível e tem uma percepção artística muito apurada. Eu não encontraria melhor forma de sintetizar as nuances que animam os poemas do livro. A morte é um grande mistério que tem historicamente inspirado investigações de todo tipo. A vida, contudo, não é menos misteriosa. Ainda não sabemos dizer o que é a vida. Porque as coisas são reais e, diferente do que desejaria uma análise objetiva e livre de paradoxos, de viés. Tudo um grande susto. E é neste sentido que aparecem também questionamentos sobre os limites entre natureza e cultura. E, claro, está presente o desejo. O corpo. Amor. Sexo. Enfim. O processo de criação foi a tentativa de organizar em versos essas inquietações e vivências.

EOnline: Qual a influência de Araraquara, ou de outras cidades, na sua produção?
L.O.: Eu cheguei em Araraquara em 2011 e fiquei por quatro anos, menos alguns meses. Mudei-me recentemente para São Carlos por conta dos estudos. Grande parte dos poemas foram escritos em Araraquara. A jabuticabeira do poema “precário” e o corpo canino ao qual me refiro em “devir”, são parte da casa onde morei nesse período, na esquina da Brasil com a Dezessete. Outros poemas são mais antigos, escritos em Americana, onde nasci e para onde voltei depois de viver por dez anos em São José dos Campos. Acredito que a cidade é, além de uma estrutura arquitetônica e um aglomerado humano, uma experiência pessoal, subjetiva. A cidade, como notará o leitor, é tema recorrente nos meus poemas.


 

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