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A busca do íntimo e profundo em Fausto

DOCTOR FAUST, 1652 - Rembrandt-van-Rijn
DOCTOR FAUST, 1652 - Rembrandt-van-Rijn

Conhecida há mais de cinco séculos, a dupla Fausto e Mefistófeles, o homem e seu diabo realizador de desejos, são personagens de uma história que é chave para o entendimento do homem moderno. Espetáculo da Cia São Jorge de Variedade, que estreia em setembro no Sesc Pompeia, leva o texto original de Goethe aos palcos e revela a universalidade de seus temas


Fausto
Que sou eu, se não posso alcançar, afinal,
A coroa com louros da nossa humanidade,
A que todos almejam com tanta ansiedade?

Mefistófeles
Não és mais, meu senhor, do que és: um mortal!
Perucas podes ter, com louros aos milhões.
Alçar-te com teus pés nos mais altos tacões,
Serás sempre o que és: um pobre ser mortal!


A clássica expressão “vender a alma ao diabo” pode nos soar um tanto ridícula nos dias de hoje. Houve uma época, porém, em que se acreditava piamente na possibilidade e concretização do pacto, que prometia sucesso em vida ao custo da servidão eterna nos porões do inferno. A história do homem que, desiludido com a vida, propõe ao demônio que o fortaleça com energias satânicas é lendária, e foi reinterpretada ao longo dos tempos em inúmeras obras literárias, artísticas, cinematográficas e musicais. Dentre as mais famosas estão as compiladas pelo autor inglês Christopher Marlowe no século XVI, e pelo poeta alemão Johannes Wolfgang von Goethe, quase duzentos anos depois.

O consenso aponta que o mito é inspirado na figura de Johann Georg Faust, um intelectual e alquimista nascido em Knittlingen, na Alemanha. Este personagem, cuja própria existência é questionada, teve sua vida documentada em um livreto de forte teor religioso, datado de 1587, intitulado Historia von D. Johann Fausten. A publicação circulou pelo norte da Alemanha e encontrou o seu caminho para a Inglaterra, onde, em 1592, foi editada sob o título de A História da perdição e merecida morte de Doctor Faustus, tradução creditada a um determinado "PF, Gent[leman]", este texto serviu de base para  Christopher Marlowe que o transformou em uma peça mais ambiciosa e menos moralista, que por sua vez guiou a versão de Goethe.

Para entender o mito de Fausto é preciso viajar no tempo até a transição entre a era medieval e o Renascimento, tempos de profundas mudanças no pensamento e de florescimento das ciências e artes. Há séculos dominado pela igreja católica e pela Inquisição, que condenava figuras perigosas intelectualmente à fogueira, sob a acusação de ter levado a cabo o tal pacto, o homem moderno confiava na rápida ascensão mercantil e no fluxo de conhecimento para guiá-lo pela nova era. É neste cenário que a obra de Marlowe ganha força, distanciando o mito do cunho religioso maniqueísta original, aproximando-o do perfil humano cotidiano.

Já a versão de Goethe, publicada em pleno Romantismo alemão, segue a linha da concepção inglesa e é a obra simbólica da vida do autor. O texto, para além dos apólogos populares, sintetiza as experiências e os múltiplos flertes do poeta com as correntes literárias e artísticas da época, bem como com interesses científicos, místicos e metafísicos. Na trama central, a rendição de um indivíduo insatisfeito com a mesquinhez humana à procura de algo mais que a “bebida e carne terrena” e para tanto capaz de ignorar o sofrimento eterno a procura de significados para a existência, ou nas próprias palavras da personagem em busca do “was die Welt im Innersten zusammenhält” ou o que “existe no mundo de mais íntimo e profundo”.

A disputa entre Deus e o demônio, personificado pela figura enigmática de Mefistófeles, é o ponto de partida da narrativa. Fausto está fadado a representar toda a humanidade sujeita às regras de um jogo que desconhece; um intermediário entre o céu e o inferno que serve aos propósitos de uma aposta acerca de sua verdadeira natureza. Ele possui todas as qualidades e motivações, e é, de fato, a figura arquetípica do "homem comum", com virtudes e defeitos, forças e fraquezas ampliadas para o desenvolvimento moral da história.

No início do poema, desiludido e desmoralizado por sua incapacidade de descobrir verdadeiro sentido da vida, ele é assaltado por frustração: porque os modos tradicionais e convencionais de pensamento que ele tem dominado não podem ajudá-lo a discernir o propósito ou forma coerente por trás de todos os fenômenos da vida. Suas desventuras, em ambas as partes do poema, são motivadas pela necessidade de perceber, sem a ajuda da revelação, uma ordem racional de enquadrar o mundo em que vive. Fausto invoca o Espírito da Terra, mas não obtém qualquer ajuda de sua parte. Assim, quando Mefistófeles vem ter consigo, não hesita em negociar um pacto, que assina com o seu Sangue. Rendido, se vê obrigado a confrontar questões sobre Deus, o bem e o mal, sexualidade e mortalidade.

Para o filósofo alemão Walter Kauffmann, Goethe criou a visão definitiva de Fausto, o parâmetro que seria replicado futuramente em outras versões. Embora hoje em dia, muitos dos temas europeus clássicos possam ser de difícil entendimento para o leitor moderno, o trabalho continua a ser uma parábola ressonante sobre conhecimento, religião, paixão e sedução, independência e amor, bem como outros assuntos. Em termos poéticos, Goethe coloca a ciência e o poder no contexto de uma metafísica de interesse moral.

Universal e atemporal

Ao longo dos séculos, a lenda de Fausto, e mesmo a versão de Goethe, ganhou inúmeras reinterpretações em formatos artísticos diferentes. O romance Doktor Faustus (1947) de Thomas, o livro Fausto: uma tragédia subjetiva de Fernando Pessoa e Meu Fausto de Paul Valéry; as composições Eine Faust-Ouvertüre (1840) de Wagner, a famosa ópera Fausto (1859) de Gounod, Cenas de Fausto de Goethe de Robert Schumann e A Danação de Fausto de Hector Berlioz e os longas Faust et Marguerite (1897) de Georges Méliès e Faust de F.W. Murnau.

Todas estas rendições, espalhadas por épocas e linguagens diferentes, colaboram para mostrar o aspecto atemporal e universal do mito. A procura pela essência da vida (ou mesmo por recompensas mundanas) pode mudar de foco, mas segue no cerne de nossos constantes questionamentos. A fim de compartilhar sua experiência, a paulistana Cia São Jorge de Variedades, estreia no Sesc Pompeia em 25 de setembro, Fausto, um espetáculo baseado no texto de Goethe.

Seguindo o original, mas tendo em vista suas repercussões e implicações no contemporâneo, a montagem idealizada pelo trio Georgette Fadel, Claudia Schapira e Alexandre Krug não é uma leitura específica ou atualizada da obra, mas sim a materialização viva, presente diante do público, da mesma, para ser mais uma vez testemunhada, purgada e profundamente compreendida. “Em um momento muito especial de comemoração de 15 anos de trabalho, a São Jorge recebe dessa obra gigante autorização para um salto de compreensão e de expressão da condição humana atual. Diante de sua limitada visão, mas ainda assim, visão, a Cia olha com um pouco mais de abrangência para o mundo e o que temos visto, sentido e pensado” explica Georgette Fadel, dramaturga responsável pela adaptação.

o que? Fausto
Quando? De 25 de Outubro a 9 de novembro
Onde? Teatro

Dica:

Fausto é uma obra de domínio público, a tradução em português está disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br
 

 

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