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Performance de uma pessoa escrita (parte 2)

Se você já leu esse artigo da EOnline, já sabe que a artista Tatiana Schunck realizou a Performance de uma pessoa escrita durante a Festa Brasileira 2014. Carregando uma máquina de escrever, Tatiana circulou pelos espaços do Sesc Itaquera colhendo depoimentos de pessoas que topavam o desafio de se definir em apenas uma frase: "Quem é você?". A seguir você confere o resultado da segunda e última performance, realizada no dia 24 de agosto de 2014.

QUEM É VOCÊ?
por Tatiana Schunck com a participação do público do Sesc Itaquera - 24 de agosto de 2014


“Quando é agora”, expressão que ouvi ao perguntar Quem é você? dita por um senhor que ri enquanto tenta se explicar... Eu sou... Risos. Eu sou... Risos. E, por fim, me diz: quando é agora eu não consigo me dizer ainda. Depois me deixa só, segue andando e, ainda sorrindo, quando olha para trás. Eu escuto seu pequeno riso rindo de si próprio porque parece não se levar tão a sério a ponto de se responder quem se é.
O dia 24 de agosto foi um dia bem quente, iluminado por sol e repleto de gente no Sesc Itaquera, o belo Sesc Itaquera. Os espaços de convivência do Sesc pareciam um lugar comunidade, onde se vive junto. Pequenos grupos espalhados pelos cantos, muitas famílias, muitos diferentes, mas que habitam o mesmo lugar. Digo isso, porque hoje grande parte das conversas se deu em grupos, onde um falou do outro e vice versa...

Um pequeno grupo de amigos, a Andressa, o Alexander, a Tatiana, o Fernando – foram os primeiros a responder a pergunta que não quer calar: quem é você? A Andressa disse ser pessoa em desconstrução, em obras, em reforma, que segue um novo caminho, este de novidades e de antiguidades. Além da simpatia enorme com que fala sobre si, carregava nos braços a sua cria. O Alexander disse que é pessoa em constante processo de melhoramento como ser humano, procurando sempre ser feliz (ai, de novo a felicidade! Leia a parte 1 deste texto), cuidando da sua própria felicidade e de seus semelhantes. A Tatiana disse ser pessoa em constante mutação e que muda de opinião como o vento muda de direção. O Fernando, em sua breve explanação, conta que acordou e foi para o Sesc e escreveu na máquina de escrever sobre seu teste em escrever na máquina de escrever, pode? Aliás, todos estes acima, escreveram suas frases com suas próprias mãos corajosas na máquina de escrever. Essa máquina é mesmo um objeto de vincular pessoas!

A Nancy se aproximou desse pequeno grupo, muito sorridente e também escreve que é pessoa alegre, extrovertida e sempre de bem com a vida? No final da frase, escapou esse ponto de interrogação, ato falho ou um errinho qualquer?...?  Só Nancy para responder...

Daí, continuamos as conversas com os Silva, os Santos, os Souza – os sobrenomes que completam os nomes, quase todos a seguir... A Lúcia disse que é uma pessoa simples, que trabalha direito e que traz os meninos aqui senão ficam o dia todo em casa. Ela e seu filho Caíque me contam sobre a vida de meninos e vídeo games. A Lúcia trouxe a molecada: o Caíque (o filho que gosta de jogar vídeo game, e bastante. E gosta de ver televisão), o Erick (amigo do filho que gosta de jogar vídeo game dia e noite, noite e dia) e o Josivaldo (amigo do filho que é brincalhão, gosta de ficar na rua, de jogar bola, de esconde esconde, chutar latas...).  A mãe disse que os traz aqui para viverem outras experiências, para conhecer outras pessoas, para conversar, para sair da rotina. Nós conversamos sobre conversar com o outro, os meninos falaram muito, mas cada um falou só do outro e não de si. Os meninos me ensinaram a bater cartas, enquanto a máquina ficou numa mesa e Isabela se aproximou e iniciou sua pesquisa sobre o tal objeto... Ela escreve seu nome e diz que gosta de andar de bicicleta, de se enfiar no meio do mato para ver o que tem dentro e que às vezes sobe em árvore. Ô vontade de ir junto... Seu pai, o Davi, me pergunta quantas folhas eu tenho para ele se contar. Diz-me que é pai de cinco filhas, que foi pai pela primeira vez aos dezesseis anos e que faz aniversário no mesmo dia que a mãe, dia 31 de dezembro. E só, que é difícil contar da gente, que contar da gente é... Rimos juntos, eu, o pai, as filhas, a avó...

Depois ainda num outro canto da casa Sesc, pois assim muitos disseram: o Sesc é minha casa; a Carolina diz que é mais fácil alguém falar dela. Pois não. O Gabriel, seu filho, de prontidão inicia sua opinião acerca da mãe... E depois da tia também. Eita menino esclarecido! Ele disse que a mãe é manipuladora, mas também muito legal, que é uma pessoa envolvida e comprometida. A tia, Ana Cristina, diz Gabriel, é pessoa que não mede esforços em fazer alguém feliz, briga quando tem que brigar e se esforça em manter a família junto. E quem vai falar do Gabriel? Pois não, ele mesmo! Com pureza no olhar ele diz: sou uma pessoa que tenta sempre dar o melhor de si, quase nunca consegue, mas tenta. Uma pessoa que tem opinião. O Leandro se aproxima e nos conta que é uma pessoa que gosta de gente. A gente percebeu! Mais um pequeno grupo de conhecidos e desconhecidos formado para a resposta eu sou... Pergunta para ele(a)?

Ainda tem o Carlos Silva, a Bernadete Souza, a Josefa da Silva, o Leo dos Santos, a Cintia Souza, o Oswaldo... Vai saber se é Silva, Souza ou Santos... Todos brasileiros diferentes, mas com semelhanças datáveis de documentação de uma população que se chama Souza, Silva, Santos e mais outros tantos... O Alberto diz: somos todos uma só família? Será que somos? Pelos menos ali, naquele instante de vínculo humano de conversação?

O Reginaldo, educador, disse ser pessoa de bem com a vida, que gosta da natureza, que gosta das coisas organizadas, que tem orgulho de ser brasileiro – me apresenta a mãe Olívia, uma pessoa doce, leve, sensível e que tive que abraçar ao final! Quase a levei para a minha casa. Mas a nora, a Odete, pessoa arretada de extrovertida, alegre, disse que não, que não podia levar a Olívia! E também a neta, a Priscila, que toca bateria como resgate de si. Que vontade de ouvir!  Depois ainda conheci os filhos da Graça, o Edemar e a Elizabeth. Edemar é trabalhador, disse que tenta levar uma vida mais saudável e busca mais tempo para si. A Elisabeth conta que fala muito bem dos outros, que é geniosa, que busca o equilíbrio, pois é intensa nas coisas. Eles contaram sobre a mãe, a Graça. Disseram que é pessoa responsável, mas resistente a mudanças, pessoa franca. A Graça conta de si em sorrisos com as falas dos filhos. É uma graça...

Famílias inteiras contaram quem os eram, um filho falou da mãe, a mãe do filho, a neta da avó, a nora da sogra, o pai do filho, a enteada da madrasta, o pai das filhas, a filha da mãe... Difícil falar sobre mim, posso falar da minha mãe? A comunidade se ocupa em narrar quem se é para continuar existindo histórias a contar, para lembrar, para resgatar existências apartadas, para se conhecer. A mãe pergunta ao filho: eu sou assim? Tem certeza? O filho confirma: sim. A mãe diz: ah é? É! E esse ouvir de si pelo próximo nos conta algo diferente sobre quem somos? Sobre aquilo que pensamos que somos? Nos revela pistas sobre nós mesmos? Aproximamo-nos, nós os leitores, de quem são essas pessoas? De quem elas pensam que são? Ou de quem elas realmente são? Como saber? Tem diferença? O que escolho para contar sobre mim? O que meu irmão escolheria para contar de mim? Seria a mesma faceta? Por enquanto, fiquemos com as histórias do Toninho contando seu pai Antonio, com a Marcia contada pela filha Soraia, com a Bruna contando seu irmão Marcos, com o Marcos negociando-se com Bruna, não sou assim... É. Não sou não... É sim. Sou... Não sou... Assim vivemos, sou, não sou, acho que sou, poderia ser, devia fazer... Somos os Souzas e Silvas e Santos, mais também os do Carmo, Almeida, Andrade, de Cássia, Armando, Silveira, Braga, Siqueira, Nunes, Zillig, Clemente, Laham, Apolo, Junior, Borges, Flores, Alves, Azevedo, Barbosa, Belizário, Nobel, Toledo, Piza, Amaral, Borba, Carvalho, Coelho, Costa, Gomes, e tantos, mais tantos outros, miscigenados... Afinal, quem somos nós? Nós quem, cara pálida?

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