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Hospitalidade e Hostilidade, uma conversa sobre refugiados

Professor Dr. Daniel Perez durante fala para aos técnicos do Sesc em São Paulo<br>Foto: Lúcio Érico
Professor Dr. Daniel Perez durante fala para aos técnicos do Sesc em São Paulo
Foto: Lúcio Érico

O refúgio é, hoje, um dos temas mais pautados pela mídia internacional. Episódios recentes, como o de Aylan Kurdi - o menino sírio-curdo encontrado morto na praia da Grécia - foram catalizadores para provocar repercussões políticas, principalmente na União Europeia, um dos destinos mais procurados pelos refugiados. Mas a situação não é algo novo. Em 1951, a Conferência de Plenipotenciários das Nações Unidas (realizada em Genebra, na Suíça) teve como pauta a redação do estatuto legal dos refugiados. A partir dele, pessoas que estão fora de seu país de origem e que não podem - ou não querem - regressar, por fundados temores de perseguição à sua raça, religião, nacionalidade, associação a grupo social ou opinião política, pode se tornar um refugiado. O resultado é a fuga para sobrevivência: abandonam amigos, família, posses e identidade, em busca de paz.

Segundo o último dado da Agência da ONU para Refugiados - ACNUR, em 2014 o Brasil tinha cerca de 7.289 refugiados e 8.302 pedidos de refúgio. A expectativa é de crescimento desses números, visto que o número de conflitos tem aumentado em todo o mundo. Para debater sobre o assunto, a EOnline conversou com Prof. Dr. Daniel Omar Perez, docente na Unicamp, filósofo e psicanalista que trabalha com a questão da hospitalidade e da relação com o estrangeiro.

EOnline - O que é, e por que ser, hospitaleiro? 

Perez - A hospitalidade é um modo de se relacionar com o outro, semelhante e diferente, ao mesmo tempo. Hospedamos a alguém que não é da nossa família, um estranho, mas ao mesmo tempo o tratamos como se fosse um de nós. A expressão como se fosse é importante. A experiência da hospitalidade nos coloca diante do familiar-estranho. Algo que sem dúvida pode ser agradável e, ao mesmo tempo, perturbador. O encontro com o outro pode nos colocar diante de uma abertura para a diferença real que pode ser muito desconfortável, uma vez que tentamos expurgar de nós mesmos aquilo que não controlamos, ou não toleramos, na nossa própria individualidade. Para isso, tentamos apagar muitos traços da nossa vida, ou reprimir desejos, criando uma ordem imposta ou autoimposta. Ao mesmo tempo, cada um de nós se reconhece como sendo eu ou nós diferentes do tu, eles ou vocês por um conjunto de traços e elementos de linguagem que consideramos naturais, bons, corretos ou verdadeiros. Como se os traços que constituem o outro não fossem nem naturais, nem bons, nem verdadeiros ou belos. Por exemplo, na língua ou no modo de falar, muitas vezes somos incapazes de ouvir nosso próprio sotaque e achamos esquisito o sotaque do outro. A mesma situação acontece com os cheiros. Os cheiros dos outros podem parecer, para nós, como desagradáveis quando, na verdade, se trata de um hábito. Estamos habituados ao som de um tipo de tonalidade na voz, a um conjunto de cheiros, a modos de fazer determinados movimentos corporais, e é nesse domínio que reconhecemos nossa própria identidade. O outro nos relembra, de várias formas, que essa ordem é artificial e que, apesar da nossa tentativa de eliminar o que nos perturba criando certa homogeneidade, as diferenças e o incontrolável insistem em aparecer.
A experiência de hospitalidade nos coloca de cara com aquilo que evitamos em nós mesmos. Por isso, muitas vezes, a primeira atitude pode a ser a rejeição do outro. A construção social do refugiado como um elemento perturbador, como uma caricatura, é um modo de evitar lidar com o que nos perturba em nós mesmos em cada caso. Projetamos, lançamos para o outro lado, aquilo que não sabemos como tratar.

EOnline – Como ser hospitaleiro, visto que há duas culturas diferentes, portanto, percepções distantes do que é ser bem recebido?

Perez - Certamente, receber alguém diferente não pode nos levar a criar uma imagem ingênua, a uma ilusão de harmonia perfeita da experiência da acolhida. Do mesmo modo que temos estranhamentos com nossas próprias atitudes, com nossos próprios desejos, da mesma maneira que às vezes podemos querer e não querer ao mesmo tempo duas coisas ou situações opostas ou não complementares, também no relacionamento com o outro encontramos essas dissonâncias. Isso porque o outro pode ser tão variante quanto nós.
Alguns traços identitários podem ter sido adquiridos quando criança, outros se reelaboram constantemente. Quando mudamos de geografia para cuidarmos de nós mesmos em outro lugar, mudam também os elementos com os quais nos identificamos. Preservamos alguns traços e readquirimos outros símbolos. Nossa identidade é um trabalho de artista que se faz constantemente. Somos uma obra de arte sobre a qual trabalhamos permanentemente. Não é apenas o estrangeiro que muda quando é acolhido num país diferente. Também mudam aqueles que estão afetados pela experiência de hospitalidade. Uma série de elementos afetivos permeará a experiência de acolhida onde o hóspede e o hospedado não serão mais os mesmos. Relações de amor ou de ódio podem ser produzidas nesse encontro.

EOnline - O século XX foi marcado por inúmeros confrontos e nunca, em outro período da humanidade, a população civil foi tão afetada. Em vista disso, por que as nações e suas sociedades estão cada vez menos hospitaleiras, quando muitas delas precisaram e precisam de ajuda?

Perez - De acordo com as pesquisas arqueológicas, nossa espécie se originou na região da Etiópia há menos de 200.000 anos. Há menos de 100.000 anos decidimos sair da África e migrar para novas geografias. Povoamos praticamente todos os cantos do planeta Terra. Somos migrantes desde o berço. Somos uma espécie de peregrinos. Acolher quem chegou depois tem sido uma experiência marcante. Temos registro disso desde a época das pinturas rupestres e dos nossos primeiros escritos narrativos. Nossa identidade é construída também com relação ao lugar onde habitamos, nossa morada. Isso parece ter incidência sobre o modo como tratamos o outro que não é daqui, quer dizer, quem chega depois.
No século XX, grandes massas da população mundial foram obrigadas a migrar por causa de guerras e catástrofes naturais. A causa dessas guerras não está em nenhuma essência humana e sim no modo em que lidamos com os nossos interesses, desejos e necessidades. Do mesmo modo que podemos procurar resolver as diferenças eliminando o outro, como no caso das guerras e dos extermínios, também podemos acolher a diferença sem que isso implique nenhum ideal de harmonia. Sermos mais ou menos hospitaleiros depende do modo como lidamos com nós mesmos, depende de quanto suportamos nossas próprias angústias, incertezas, desejos confusos e conflitos internos. Por isso, a relação com o outro é constitutiva da nossa própria identidade como indivíduos e comunidade. Às vezes não nos reconhecemos como migrantes, com descendentes de migrantes, como peregrinos que somos enquanto espécie e nos aferramos à nossa situação mais imediata, achando que qualquer perturbação pode ser um caos, qualquer diferença pode ser a origem do desastre. O desconhecido pode ser experimentado como medo, mas também como ponto de abertura para repensarmos nossa própria identidade. Tomamos o outro, o diferente, o estranho, como o candidato a culpável, porém, em vez disso, podemos lidar de forma criativa, como faz um artista com a matéria que vira obra de arte.

 

Para complementar a entrevista, leia o artigo "As condições de possibilidade da experiência de hospitalidade" do professor Perez. Ele aborda aspectos éticos, políticos e jurídicos, do refugiado sobre a perspectivas individuais e coletivas.

 

As condições de possibilidade da experiência de hospitalidade

por Daniel Omar Perez

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