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Quanta história cabe num símbolo?

Oficina Estampando Saberes - Adinkras, com o Coletivo Manifesto Crespo - Por Ronaldo Domingues
Oficina Estampando Saberes - Adinkras, com o Coletivo Manifesto Crespo - Por Ronaldo Domingues

Um punho cerrado no braço erguido em direção ao céu, o uso de turbantes coloridos ou do cabelo afro em seu estado natural, sem alisamento, nem interferências químicas, roupas com estampas coloridas e cheias de significados. A simbologia sempre esteve presente na história do continente africano, esse gigante formado por muitos povos, com uma rica tradição, muitas vezes ofuscada pelo ocidente.

Assim como Sankofa, uma ave que diz "Volte e pegue o que importa", Jully Gabriel, Nina Vieira e Patricia Mattiz, do coletivo Manifesto Crespo, mergulharam na história dos povos Akan e trouxeram o conhecimento dos símbolos Adinkra para a oficina Estampando saberes realizada no Sesc Campo Limpo, numa bela tarde de troca de experiências.

Mais do que uma oficina de estampas, a ação estava cheia de significados. A atividade fez parte da Semana da Liberdade Negra e proporcionou o encontro de gerações, a valorização das raízes históricas, das individualidades e da resistência, também levantando uma provocação sobre a liberdade. "A programação fala de Liberdade Negra. E a gente tá questionando também até que ponto essa liberdade existe", lembra Nina Vieira.

OS ADINKRAS E A CULTURA AKAN
Os povos Akan estão em Gana, Costa do Marfim e no Togo, países da África do Oeste. Os símbolos são um tipo de escritura pictográfica, utilizada amplamente no cotidiano dessa sociedade e que está presente nos tecidos, cerâmica, arquitetura e em objetos de bronze. Da mesma maneira que os documentos escritos materializam a história nas sociedades ocidentais, em muitas culturas africanas é a arte que traz o conhecimento do passado até o presente.
Os tecidos ocupam um lugar muito especial na cultura Akan. São utilizados não apenas como vestimenta, mas também como forma de expressão. Assim, os símbolos Adinkra são estampados nos tecidos, para transmitir mensagens, nessa rica tradição que existe desde o século XVII.
Cada símbolo está associado a um provérbio ou ditado específico, enraizado na experiência dos Akan. O conjunto desses símbolos, chamado Adinkra, forma um sistema de preservação e transmissão dos valores acumulados pelos Akan.
— Trecho extraído de texto do Coletivo Manifesto Crespo

VOLTE E PEGUE O QUE IMPORTA
Logo que chegou na oficina, o garoto Daniel se interessou por um símbolo em especial. Era SANKOFA. "Sankofa está muito presente na arquitetura e na história dos negros do Brasil. E que tem muito a ver com o que a gente tá fazendo aqui hoje. O Sankofa fala de voltar atrás 'Volte atrás e pegue o que importa'. É um pássaro que tá olhando pra trás. Voltando pra trás, pegando uma semente. Essa semente é algo do nosso passado que a gente quer levar pro futuro. Difundir esse conhecimento nesse formato de estar convivendo e multiplicando, pra que isso não se perca", conta Nina Vieira.

Com certeza o garoto vai levar para o futuro essa semente que foi plantada não só nele, mas em todos que participaram da oficina, multiplicando esse conhecimento para o mundo. "Toda a história que não foi contada passa a ser contada agora. Por todos os lugares que a sacola passar, alguém vai ver os símbolos e perguntar...E vocês vão multiplicar e dar continuidade na história", conclui Jully Gabriel.

ALGUNS SÍMBOLOS ADINKRA E SEUS SIGNIFICADOS

NEA ONNIM NÃO A SUA, OHU ( à esquerda, ao centro e à direita na imagem)
"Aquele que não sabe, pode saber pela aprendizagem". Símbolo da busca contínua pelo conhecimento, a educação ao longo da vida. O direito inalienável dos povos ao patrimônio cultural da humanidade, a democratização do conhecimento, culturas, comunicação e tecnologias. Busca do conhecimento privado e hegemônico e pelas mudanças do sistema de direitos de propriedade intelectual.

SANKOFA (acima, na imagem)
"Volte e pegue o que importa". Símbolo da importância de aprender com o passado. Quer dizer que é importante para todos voltar ao passado para aprender lições que a vida nos deu, a fim de usá-las com sabedoria no presente.

AYA ( segunda e quarta figuras, da esquerda para a direita na imagem)
"Eu não tenho medo de você". Traz a figura de uma samambaia, representa a força quando vencemos desafios. Esse desenho mostra uma semente que mesmo com todas as dificuldades, consegue gerar uma planta forte. Símbolo da resistência, independência, força e perseverança.

ESE NE TEKREMA (abaixo, na imagem)
"Os dentes e a língua". Símbolo da amizade e de cooperação. Os dentes e a língua desempenham papéis interdependentes na boca. Eles podem entrar em conflito, mas precisam trabalhar juntos. É um lembrete da necessidade de fazer amizades, de compartilhar, e também de que podemos melhorar e evoluir.

COLETIVO MANIFESTO CRESPO

"A VALORIZAÇÃO DA ESTÉTICA NEGRA É UM ATO DE DESCOLONIZAÇÃO CULTURAL."
LÉLIA GONZALEZ (01/02/1935 – 10/07/1994)

O coletivo Manifesto Crespo nasceu a partir de discussões sobre as diversas questões do universo da cultura afro-brasileira, suas produções artísticas e estéticas, buscando reconhecer seu valor e fortalecer a memória e a autoestima de mulheres negras, numa luta pelo resgate das nossas origens – uma vez que o Brasil conta com a maior população originária da diáspora africana. O foco central do trabalho gira em torno da discussão sobre como o cabelo crespo pode e deve ser encarado de uma forma criativa, fazendo com que se desmistifique a ideia de que existe cabelo ruim, acreditando também que o corpo negro e sua cultura são fonte de infinita criatividade e de beleza.

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