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Rosamaria Ivone Luxemburgo – Uma fenda aberta pela realidade no espaço temporário da ficção

Cena do espetáculo “Rosamaria Ivone Luxemburgo” do Coletivo núcleozonaautônoma.
Cena do espetáculo “Rosamaria Ivone Luxemburgo” do Coletivo núcleozonaautônoma.

Apreciação Crítica do Espetáculo “Rosamaria Ivone Luxemburgo: O Monólogo Interior da Mulher de um Operário
do Coletivo núcleozonaautônomaMostra de Teatro Político no ABC: identidade e resistência. Apresentação no teatro do Sesc Santo André – 15 de abril de 2018. 

Amo as mulheres desde a sua pele que é a minha:
a que se rebela e luta com a palavra e a voz desembainhadas,
a que se levanta de noite para ver se o filho chora,
a que luta inflamada nas montanhas,
a que trabalha mal-paga na cidade.
Vamos e que ninguém fique no caminho,
para que este amor tenha a força dos terremotos, dos ciclones, dos furacões
e tudo que nos aprisionava exploda convertido em lixo.

Gioconda Belli (poetiza nicaraguense e militante sandinista)

“A TAZ (Zona Autônoma Temporária) é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la. […] a TAZ é um microcosmos daquele 'sonho anarquista' de uma cultura de liberdade.” A tática da invisibilidade confunde o Estado opressor, já que uma TAZ se apresenta e se dissolve antes mesmo que o inimigo chegue até ela ou que ela possa ser definida “pelos termos do Espetáculo.”. Assim se dá também no campo da identidade: afinal, quem é ou quantos são os “sub-comandantes Marcos” e os “Hakim Bey”? A valorização do levante, que não espera de braços cruzados o sucesso da Revolução e a aposta na multiplicação de espaços de liberdade e desobediência civil como forma de desestruturar o sistema, é outra característica das zonas autônomas temporárias.

Sem dúvida, o que o NÚCLEOZONAAUTÔNOMA traz em sua nova intervenção cênica, corresponde aos princípios de rebeldia e resistência das ideias e propostas de inspiração autonomista apresentadas no livro de Hakin Bey: TAZ - Zona Autônoma Temporária (Conrad Editora, 2004). Ao mesmo tempo, ao colocar em cena, e no título do trabalho, uma das figuras do marxismo revolucionário mais importantes do século XX – Rosa Luxemburgo – o grupo parece não abrir mão de uma pespectiva revolucionária (mesmo que revista de forma crítica).

Rosa não era somente mais uma militante comunista. Em primeiro lugar, ela era mulher, em um ambiente e época totalmente dominado por homens (se hoje as mulheres tem pouco espaço de representação no mundo da política, imagine no início do século passado!). Seus escritos, de uma genialidade e lucidez política impressionantes, e seus discursos contundentes desafiaram a ordem operante da estrutura do Partido. Foi Rosa uma das primeiras vozes a se levantar contra o revisionismo teórico e uma política reformista e oportunista da Social Democracia alemã, em especial quando esta decidiu apoiar o governo alemão na Primeira Guerra Mundial. Dentre seus princípios políticos estava a crença irremediável no poder das massas organizadas na luta contra o capitalismo e o imperialismo. Defendia como tática de luta contra a classe dominante, sair da defensiva e atacar sempre. Seu pensamento e seu modo de fazer política eram dinâmicos e não se deixavam “acorrentar'” mesmo nos momentos de maior dificuldade. Ao trazer a memória desta grande mulher comunista – seus textos, cartas, suas ideias e a uma foto de seu rosto que toma o fundo do palco nas cenas finais do trabalho -, o NÚCLEO nos coloca como reflexão a complexa relação entre patriarcado e capitalismo.

É importante frisar, no entanto, que estas são duas tradições de esquerda bem diferentes: o anarquismo da TAZ e o marxismo de Rosa Luxemburgo. E as duas se misturam no trabalho do grupo de maneira que os limites entre uma e outra não ficam claros para o público. O que não acontece quando a narrativa centra-se na discussão do lugar social destinado às mulheres.

Nos primeiros minutos, enquanto a(o)s artistas executam um cânone musical, onde repetem infinitamente as palavras que compõe o título da peça: “o monólogo é interior, mas a mulher é o do operário”, o ator Marcio Castro entra em cena vestido como mulher, com as roupas da personagem Sra Nicolau, do trabalho cênico anterior da Companhia: Trotski – Peça para televisores e não televisores. Nesta primeira fala já fica claro o enunciado do trabalho e a posição do grupo diante temática que será tratada: “Eu sou a Sra. Nicolau. Já começo com nome de homem, já começo errado. O trabalho diz que a mulher tem dono. Que a mulher está a serviço seja do homem ou da arte. Hoje, a arte mercado, ou mesmo a arte panfleto está contaminada assim como tudo pelo patriarcado. […] Qual era o nome das mulheres durante as greves dos operários do ABC? Onde estão as mulheres? Vocês as veem? Onde estão as mulheres no meio daquele mar de pau?”. Em seguida a atriz Talita Araújo abre o debate e coloca em dúvida, inclusive, este texto inicial, numa postura dialética e questionadora em relação ao próprio trabalho. “Errado também este monólogo. Pode-se dizer que historicamente o feminismo branco nada mais tem feito que isso, em desbravar em monólogo sobre sua própria condição sem se preocupar em olhar para os lados, onde outras lutavam em franca desvantagem. […] Já que nosso ponto de partida é o de um feminismo interseccional melhor seria falar em diálogo”, afirma a atriz.

Em diversos momentos os esteriótipos de gênero são expostos e questionados. Em algumas cenas cabe ao ator, em chave invertida, criar uma imagem que habitualmente é lida como “feminina”: a cena em que se banha nú, executando gestos sensuais e “delicados” em uma bacia, por exemplo. Ações que exigem força fisica e destreza no manejo de certos instrumentos de trabalho, consideradas funções masculinas, são executadas pela atriz: como a quebra de uma barra de concreto por uma picareta enquanto a voz de Sra Nicolau entra em off para revelar quem ela realmente é: “O meu nome é Ludmilla. Minha mãe se inspirou numa ginasta russa da extinta União Soviética. Agora eu não sou mais a sombra de um homem porque eu nunca fui.”

A violência contra as mulheres aparece em cenas e imagens bastante diretas (talvez com uma obviedade necessária aos nossos tempos?), como no quadro em que a mulher é acorrentada a utensílios domésticos e agredida pelo “marido” enquanto executa as “tarefas do lar”, ou quando Talita é lançada ao chão e tem o corpo coberto por pedrinhas de brita pelo ator e pelo músico (as figuras masculinas) para depois se desvincilhar das pedras com a ajuda de outras mulheres da equipe, ou ainda, nas vezes em que a figura masculina tenta impedir a atriz de executar algumas funções.

Pode-se dizer que este trabalho cênico corresponde a determinadas características do teatro épico-documental. A dramaturgia utiliza-se de textos documentais: depoimentos pessoais da(o)sartistas que revelam as histórias de suas mães e as suas relações com estas figuras, trechos de romances, cartas escritas por Rosa Luxemburgo, instruções para donas de casa brasileiras na época da carestia, manuais de comportamento para professoras norteamericas do início do século XX, textos de Angela Davis e Joan Scott, trechos da peça anterior do grupo, um trecho do livro de Christa Wolf sobre o mito de Cassandra etc. O foco do trabalho não está na relação entre as personagens (nem mesmo existem personagens compostas no sentido tradicional) ou na subjetividade dos artistas mas sim na ideia a ser desenvolvida. Os objetos utilizados em cena trazem consigo o “peso da história” fazendo referência ao trabalho doméstico exercido pelas mulheres, ao mundo do trabalho e da luta operária. Cenário e luz não ilustrativos estão à serviço da cena e da temática. A música contribui na construção dramatúrgica e coloca-se como discurso, com a mesma força das palavras proferidas pela atriz e pelo ator. A encenação permite a quebra poética, deixando que a realidade irrompa formalmente, quando, por exemplo, todas as luzes se acendem para que a(o)s artistas perguntem diretamente ao público sobre a necessidade (ou não) de uma intervenção militar. Rosa Maria e Ivone, que dividem o título da peça com a Sra Luxemburgo e a Sra Nicolau (a mulher de um operário), aparecem em cena através de seus filhos. Ator e atriz trazem em seus testemunhos pessoais as histórias das mulheres que a(o)s circundam em profunda conexão com os demais materiais da dramaturgia. Neste caso o depoimento individual (estratégia recorrente do teatro documental contemporâneo) funciona como um fragmento do real que se abre para a experiência histórica coletiva.

A todo momento, o grupo foge das propostas tradicionais de organização cênica. O trabalho pode ser visto como um ensaio, um laboratório que recusa a forma espetacular da peça “bem acabada”; uma sequência de quadros, onde as imagens, o desenho sonoro e a iluminação são montados e desmontados pela(o)s performers na frente do público, longe de qualquer efeito de ilusão. Neste sentido, enquanto encenação, RosaMaria Ivone Luxembrugo funciona como uma espécie de TAZ, que se constrói e destrói a todo momento aos olhos do público. Músico (Luiz Eduardo Galvão), musicista/DJ (Rayra Costa), ator/dramaturgo (Marcio Castro), atriz/dramaturga (Talita Araújo), diretora e diretor de arte (Lídia Moura e Julio Dojcsar) montam o roteiro cênico conjuntamente formando uma partitura propositadamente dissonante aos olhos e ouvidos acostumados com os produtos da indústria cultural.

Neste sentido tem-se a impressão de uma certa inadequação do trabalho ao espaço teatral. É como se o clima “rock de garagem” underground da montagem precisasse de um local também alternativo, menos “arrumado”, em que atuantes e público pudessem estar mais próximos e misturados.

Um questionamento a respeito do lugar de fala de grupos oprimidos parece se colocar em determinados momentos mas ganha outra dimensão quando o grupo se posiciona politicamente. O histórico da companhia e de seus componentes (integrantes da classe trabalhadora do ABC Paulista), as opções documentais, a pesquisa musical fiel à rebeldia do punk-rock experimental paulistano antimercantil, o ambiente cenográfico que nos lembra uma oficina de metalurgia, a iluminação sóbria, os figurinos despojados (roupas de ensaio, chinelos de dedo), o trabalho de “não interpretação” dos atores e o fato de colocarem-se em risco expondo suas posições e fragilidades, lhes dá o suporte necessário para que o trabalho apresente as diversas formas de opressão sofridas pelas mulheres (também diversas entre si) numa perspectiva feminista, onde gênero, classe e raça se relacionam e interagem conjuntamente no combate anticapitalista.

A problemática de como a esquerda se relaciona com o feminismo ou como as Revoluções Comunistas trataram as mulheres, não fica de fora do debate. Na cena em que Marcio está sentado segurando uma pintura com a imagem de uma mulher russa (a Sra Nicolau?), Talita, com o rosto tampado por um véu vermelho fala como a Sra Nicolau: “De onde eu vim, os meninos roubavam pra viver, as meninas se tornavam putas pra comer. Tudo isso acontece por conta do comunismo? As mulheres cubanas que se prostituem para complementar a renda e dar de comer aos seus filhos, fazem porque querem, fazem porque o país é comunista, ou porque tem embargo do capital norte americano? Mas então porque as mulheres se prostituem também no capitalismo? Eu fui assim, adotada, vendida. Porque mesmo num Estado comunista, a mãe tira da boca pra alimentar o filho.”

Nossa época exige novas formas, novos olhares estéticos sobre o mundo que possam resignificar o conceito de humanidade. RosaMaria Luxemburgo: o monólogo interior da mulher de um operário nos lança o apelo para embarcar em uma experiência teatral coletiva e “liberar uma área” no campo na imaginação poética e política. Assim como na Àgora grega ou no Teatro Tribunal de Erwin Piscator, o palco é encarado pelo grupo como o local do debate público, local em que se tratam os assuntos da pólis. Fiéis à herança de Heleny Guariba e das lutas de trabalhadores e trabalhadoras do ABC no período da ditadura civil-militar brasileira, o NÚCLEOZONAAUTÔNOMA se coloca em risco e tenta responder aos perigos de seu tempo.

Por Fernanda Azevedo
Atriz e pesquisadora teatral, integrante da Kiwi Companhia de Teatro.

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