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Um artista singular repleto de pluralidades

Foto: Acervo Palestrante.
Foto: Acervo Palestrante.

Com uma câmera (ou uma caneta, ou um microfone, ou um livro , ou um notebook, ou qualquer outro objeto que permita expor sua criatividade) na mão e muitas ideias na cabeça, Donny Correia tornou-se um dos nomes mais atuantes da cena cultural de São Paulo.

Às vésperas do curso que ele irá ministrar no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo, batemos um papo sobre sua trajetória , sobre seu processo criativo e sobre o conteúdo da atividade, que começa no próximo dia 10 de outubro.
Confira:

Como o cinema entrou na sua vida? O que veio antes: O Cinema ou a poesia?
Por causa do meu pai, eu sempre tive contato com vários tipos de produção de arte. Meu pai era engenheiro de formação, mas era um colecionador de discos e foi radialista por um período. Cresci ouvindo e lendo coisas sobre música, cinema, política etc. Desde que me lembro, antes mesmo de ser alfabetizado, eu ficava olhando fotos e desenhos em revistas e jornais e criava narrativas na minha cabeça, como se fossem "stills" de algum filme. Já no começo da adolescência comecei a gravar filmes em VHS, para montar uma colação aos moldes da que meu pai tinha em sua discoteca. Nessa época eu já conhecia um pouco do cinema nacional e já havia descoberto o Expressionismo Alemão e o cinema de Hitchcock. Nos anos 1990 as TVs abertas tinham uma excelente programação para amantes do cinema clássico. Foi nessa época que aumentei bastante meu conhecimento, só por gravar filmes brasileiros, clássicos europeus etc. Com 17 anos, cursei a primeira oficina técnica de produção e direção para cinema e de lá não parei mais.
Já a poesia é diferente. Sempre me dei melhor em redação e interpretação de texto no colégio. Como o cinema sempre foi uma brincadeira cara, meu plano B era ser escritor porque ao menos a parte grossa do trabalho dependeria somente de mim mesmo e não de uma equipe grande, nem sempre disponível para ajudar de graça ou investir junto. Quando eu tinha uns 19 anos, uma ex-namorada me presenteou com um livro de Augusto dos Anjos. A cada poema que eu lia, me convencia cada vez mais que era aquele o tipo de poema que eu gostaria de escrever! Aos pouco fui conciliando a poesia com o cinema. Quando comecei a trabalhar na Casa das Rosas, em 2005, mergulhei em definitivo na literatura e na poesia, mas nunca perdi o cinema de vista e continuo filmando quando possível.

Como funciona seu processo criativo? Como você constrói suas narrativas?
Não tenho um método muito fixo de criar. Normalmente, quando escrevo poemas costumo priorizar a experiência da forma do texto. Como li muita poesia concreta, visual e experimental, me influenciei bastante pelo jogo "verbivocovisual" presente nas vanguardas. Por outro lado, sendo admirador de Augusto dos Anjos, procuro adequar o conteúdo a essa forma. Geralmente escrevo quando consigo formar uma ideia mais ou menos clara a respeito de algo que me incomoda. Por ler filosofia, psicanálise etc, meus poemas costumam propor uma reflexão do que é o ser e o estar no mundo.
Agora, quando escrevo algum roteiro, normalmente é porque sinto que há algo de importante a dizer de imediato e que funcione somente por meio de imagens. Gosto de trabalhar com poucos personagens, dois, no máximo três, e poucas locações. Primeiro porque me agrada a ideia de desenvolver o conflito de maneira bastante claustrofóbica e analítica, como nos filmes de Bergman ou de Walter Hugo Khouri. Depois, por questões de orçamento e limitação de tempo da equipe e dos atores. Meus dois curtas melhor acabados, "Totem", de 2010, e "In carcere et vinculis", de 2013 seguem estas linhas. Já o videoclipes que dirigi são mais enxutos ainda e neles consigo experimentar muito mais em termos de narrativa e efeitos.

Você se considera um cineasta “Experimental”? Quais suas influências?
Não sei se sou experimental, mas minha influências são bastante e claro que isso acaba passando para meus trabalhos. Admiro muito Bergman, Khouri, antonioni, Fritz Lang, Murnau, Glauber Rocha, David Lynch, Lars von Triers, e muitos outros nessa linha que quebra a tradição do cinema narrativo. Todos eles são autores, no sentido estrito do termo.
Gosto da ideia de deixar o espectador um pouco à deriva quando vê um filme, porque isso faz com que sua atenção redobre e a estética do filme pode ser absorvida em sua integridade. Por isso, quando filmo, procuro sempre trazer algum elemento que possa ser, numa primeira vista, estranho ao que está acontecendo na tela, mas que depois irá se amarrar perfeitamente na trama.
     
E o que o público pode esperar do curso que você vai ministrar?
Quem tomar contato com este curso conhecerá filmes raríssimo do cinema dadaísta, nos anos 1920, entenderá as motivações psicossociais do expressionismo e do surrealismo, verá as relações entre pinturas e filmes e terá uma boa dimensão a respeito do cinema brasileiro em seus primeiros 30 anos, algo que nunca foi explorado com a devida atenção.

 

Donny Correia é mestre e doutor em Estética e História da Arte pela USP.
É crítico de cinema e pesquisa as relações dele com a evolução das vanguardas históricas na arte. Também é escritor e poeta, tendo publicado, entre outros, Corpocárcere (2013) e Zero nas veias (2015). Em 2013, tornou-se o primeiro brasileiro a ter um poema selecionado pela NASA para ser enviado a Marte a bordo da sonda MAVEN. Publica ensaios e resenhas em periódicos como O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Psicologia em foco (PUC-PR). Também atua como professor de História e Linguagem do Cinema em instituições diversas como FMU, Academia Internacional de Cinema e Sesc. Sua obra mais recente é uma compilação das críticas cinematográficas do poeta modernista Guilherme de Almeida, publicado em 2016 pela editora Unesp: Cinematographos de Guilherme de Almeida - antologia da crítica cinematográfica 

Entre os dias 10/10 e 31/10 ele estará no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo, ministrando o curso Cinema e artes plásticas: o espelho da modernidade.
O curso irá refletir sobre a confluência do cinema com o Impressionismo, no final do século XIX, até o final da década de 1930.
As inscrições já estão abertas e podem ser feitas através do site do Centro de Pesquisa e Formação e nas unidades do Sesc em São Paulo.

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