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Cartofilia, colecionismo de afeto

Ilustração: Thiago Lopes
Ilustração: Thiago Lopes

* Por Gaía Passarelli

 

Você sabe o que é cartofilia? É o nome que se dá ao colecionismo de cartões-postais. Depois da numismática (estudo e coleção de moedas e cédulas) e da filatelia (selos), o colecionismo de cartões-postais é o mais popular do mundo.

Tudo bem que talvez o termo não seja aplicável à pilha de postais de viagem que você guarda em uma gaveta, em casa. Não tem problema. Assim como acontece com moedas e selos, uma coleção de postais, de qualquer tamanho, tem (ou terá, no futuro) seu valor histórico como registro de um lugar e período. Mas, diferente dos seus colegas, os cartões-postais têm um, digamos, valor agregado único: são relatos afetivos.

Há várias formas de colecionar postais. Um entusiasta pode vasculhar caixas de papelão cheias de pedaços de cartolina impressos em busca de exemplares de determinados períodos, locais ou estéticas. O universo dos postais é vasto e aprendi recentemente que há nichos históricos, como Era de Ouro, período da borda branca ou fotocromático, sempre relacionados a inovações da indústria. Isso torna os postais um assunto e tanto para quem leva colecionismo a sério. Gostei de pensar que, ao contrário do que eu faço, há gente que analisa os retângulos de papel com cuidado, pensando em detalhes como carimbo postal, remetente, endereço de destino e mensagem.

Digo isso porque nem sempre o mais importante para colecionistas é a foto. É a imagem da frente que determina a época e a categoria do postal, sim. Mas é a mensagem escrita no verso que faz de cada cartão-postal um recorte específico, pontual e momentâneo. A gente não pensa nisso quando manda ou compra um postal hoje, mas já houve uma época em que postais eram enviados em datas específicas (feriados, aniversários), comemorações (feiras internacionais, lançamentos de produtos) e até tragédias, como inundações ou terremotos.

Há também a categoria de postais com imagens “exóticas”. Moda na Europa no século XIX, mostravam lugares como Marrocos, Egito e Índia pela ótica do colonizador. São, portanto, romantizados e pouco confiáveis como documentos históricos, mas mostram como viviam as pessoas ou como eram os lugares. Por isso mesmo, coleções de postais como a do Smithsonian Museum, nos EUA, são utilizadas por pesquisadores.

O envio de postais mudou muito. Hoje, o cartão postal é principalmente um suvenir de viagem barato e prático. Mas nem por isso é menos importante. A minha coleção de cerca de duas centenas de cartões conta a história de lugares que visitei, porque há anos tenho o hábito de mandar postais para casa, no meu nome ou do meu filho, e de pessoas que conheci, porque vivo pedindo para amigos me mandarem essa lembrança de onde passaram.

Esse pedido normalmente é recebido com simpatia, porque postais são fáceis de achar, divertidos de escolher e baratos para enviar. Tem quem trapaceie e entregue aqui no Brasil, em mãos. E tudo bem: o importante é que a pessoa pensou um pouco em mim durante a viagem. Porque é essa a graça do cartão-postal, há mais de cem anos uma forma simples de dizer “pensei em você”.

 

*Gaía Passarelli, 42 anos, tem longa careira no jornalismo cultural brasileiro, foi apresentadora de televisão e hoje escreve sobre viagens e comportamento para publicações. Fez parte do elenco de VJs da MTV Brasil 2010 e 2013 e também colaborou com alguns dos principais veículos de cultura do Brasil, como Ilustrada, Rolling Stone e Bizz. Seu livro de crônicas de viagem "Mas Você Vai Sozinha?” foi lançado nacionalmente pela Globo Livros, em 2016, e se encontra na terceira tiragem.

 

No mês de outubro, quando se comemora os 70 anos de atividades de Turismo Social, o Sesc São Paulo convida o público a conhecer melhor e refletir sobre a história e importância do cartão-postal por meio do Festival de Turismo Paisagens Postais, que acontece no período de 27 de outubro a 11 de novembro de 2018 nas unidades do Sesc em todo o Estado.

Aqui na EOnline apresentamos algumas histórias sobre este objeto tão marcante no universo das viagens – e que, seja como registro histórico, manifestação de afeto ou item de colecionismo, atravessa o tempo e se reinventa de acordo com o contexto histórico e social em que está inserido, a localidade onde é produzido e o propósito que orienta sua confecção.

Boa leitura e boa viagem!

Saiba mais em sescsp.org.br/paisagenspostais

 

 

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