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Onde habita a poesia?

'Sarau de Todo Canto' no Sesc Campo Limpo, durante a FELIZS 2017.<br>Foto: Tiago Lima
'Sarau de Todo Canto' no Sesc Campo Limpo, durante a FELIZS 2017.
Foto: Tiago Lima

A literatura periférica contraria estereótipos, supera expectativas e transforma vidas. De 11 a 23 de setembro de 2017, aconteceu a 3ª edição da FELIZS (Feira Literária da Zona Sul), com abertura no CIEJA (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos), encerramento na praça do Campo Limpo, e passagem pelo Sesc Campo Limpo durante cinco dias de evento. Proveniente de um sonho, a feira cultiva mais do que um evento literário, ela reúne e canaliza todo o trabalho cultural, desmonta muros e alcança pessoas, trazendo a efervescência que acontece “dá ponte pra cá”. Grandes nomes da literatura contemporânea como Marcia Tiburi e Conceição Evaristo, além de poetas de diversas regiões do Brasil, marcaram presença nas atividades no Sesc Campo Limpo.

Criada pelo coletivo Sarau do Binho há três anos, a feira já reuniu e propiciou o encontro de centenas de artistas, realizando oficinas, atividades artísticas para as diferentes gerações, além de abordar temas importantes como a saúde da mulher negra. Neste ano, a temática foi "Onde habita a poesia?", passando por mais de 20 lugares, sendo Renato Palmares o homenageado da edição.

 

"A FELIZS é um olhar para a gente mesmo"
Binho Padial, um dos organizadores da feira.

 

As diferentes palestras contaram com nomes de grande importância para a região, como Padre Jaime Crowe, que tem uma história de luta no bairro do Jardim Ângela, ao lado de Pedro Pontual; debatendo sobre território, movimentos sociais e educação popular, a professora Rosa Iavelberg, pesquisadora e arte-educadora das linguagens artísticas; e o professor Leno Ricardo Vidal, que atua na EMEF José de Alcântara.

Além das palestras, artistas de diversas regiões do Brasil, inclusive da zona sul de São Paulo, se apresentaram no ‘Sarau de Todo Canto’, recitando e conversando sobre suas diferentes trajetórias na literatura. Nomes como Luz Ribeiro, Nelson Maca e Rodrigo Ciríaco participaram, encerrando de maneira brilhante a passagem da Feira Literária pelo Sesc.

EMANCIPAÇÃO DO PENSAMENTO LITERÁRIO

Numa conversa com Binho Padial sobre "Literatura em tempos de intolerância", Márcia Tiburi, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, doutora em Filosofia e escritora, fez um parâmetro do cenário político sob o ponto de vista literário. Ressaltou o atual momento em que a arte sofre com censura e com a disseminação dos discursos de ódio. “A gente vive terceirizando a nossa visão, a nossa linguagem, a nossa perspectiva e comprando essas visões de mundo prontas. E essa condição na qual a gente está sendo lançado, ela não é uma coisa que a gente deseja nem que a gente inventou. Isso tá acontecendo porque estamos sendo levados inconscientemente e ingenuamente a esse tipo de situação”, Marcia Tiburi sobre o papel da comunicação. 

Um papo com Conceição Evaristo 

Antes de se apresentar para uma grande plateia ávida para ouvir suas Escrevivências ao lado de Marciano Ventura, Conceição Evaristo, escritora mestra em Literatura Brasileira (PUC - Rio) e Doutora pela UFF, bateu um papo provocativo e construtivo com a Eonline. Falou da sua trajetória na literatura, a importância da FELIZS e a vivência enquanto mulher negra numa sociedade em que o patriarcado, o machismo e o racismo ainda dominam.

EOnline: Para você qual importância da Feira Literária (FELIZS) na periferia da zona sul?
Conceição Evaristo: A gente tem que partir do pressuposto que vários lugares, principalmente os lugares que têm uma população mais pobre, normalmente são estigmatizados. Esses bairros têm sua autonomia, têm seus produtos culturais e têm suas criações. Então, uma feira do livro é um momento que chama atenção dessa população a encarar a leitura, a escrita e os livros como um direito. Uma feira literária na periferia além de você estar democratizando a leitura, você está criando um público leitor. E pensar a leitura como um direito de todos.

EOnline: Você tem sido uma grande referência literária contemporânea, principalmente para as mulheres negras. Como isso tem empoderado as escritoras negras, especialmente as periféricas? 
Conceição Evaristo: Eu acho que a possibilidade aquece, a minha imagem aquece e pode fomentar desejos, fomentar exemplos, fomentar certezas que esse é o nosso lugar. Eu tô chegando pra dar visibilidade, para abrir determinados caminhos, mas eu não sou uma figura midiática...por acaso está acontecendo isso [sobre a visibilidade na mídia]. E o que eu quero é justamente que a minha figura sirva de curiosidade, sirva para pensar que se tem uma mulher negra escrevendo, tem outras mulheres negras escrevendo. E que esse momento sirva de incentivo para as mais novas.

EOnline: Você conhece as escritoras negras periféricas de São Paulo?
Conceição Evaristo: Conheço. Inclusive eu vi a campanha da menina que foi pra França [referindo-se a campanha de Luz Ribeiro no Slam de Poesia Mundial, que ocorre em Paris], Mel Duarte conheço também. A Jenniffer, como conheço a Elizandra daqui também. Algumas eu conheço, já li. Aliás, o meu projeto pra escritas futuras é trabalhar com os textos dessa geração nova, ler esses textos, escrever um ensaio sobre esses textos, mas o tempo não me permitiu ainda.

EOnline: Sobre o termo ‘’Escrevivências”...
Conceição Evaristo: Eu venho trabalhando com esse texto desde 95, na minha dissertação de mestrado "Escrever, escrever-se vendo", trabalhando com a ideia. Se eu criei um conceito, esse conceito nasce de imagem histórica, tanto é que eu estou dizendo assim: a Escrevivência não nasceu para adormecer os da casa grande, mas para acordar os injustos. Quando eu escrevo isso, eu estou pensando nas funções que as mulheres negras escravizadas tiveram dentro da casa grande. Elas tinham que contar histórias pra prole colonizadora. As nossas ancestrais quando faziam isso, faziam obrigadas. Nós não temos nenhuma obrigação com a casa grande. É uma escrita que nasce profundamente marcada pela condição de mulheres negras, tudo que eu produzo está atravessado pela minha condição de mulher negra. Tanto o texto literário quanto o texto ensaístico. Isso não quer dizer que tudo que eu escrevo eu tenha vivido, vivencia pessoal, mas quando não é uma experiência pessoal está atravessado pela trajetória do coletivo.
 

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