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Grupo Berlin Counterpoint - Foto: Divulgação
Grupo Berlin Counterpoint - Foto: Divulgação

*Por José Calixto

 

Costuma-se dizer que a música é uma linguagem universal. No entanto, há grande dificuldade em definir exatamente qual conteúdo a música comunica, especialmente quando se trata da música instrumental. É possível encontrar essa polêmica em praticamente toda a história da filosofia musical. Com sua linguagem sem palavras, a música instrumental nos leva a um reino distante da clareza de nossa linguagem usual. Não deixa de ser surpreendente que mesmo em meio a tal penumbra, a mera escuta atenta das formas musicais em movimento nos proporciona uma intensa experiência estética que certamente fala muito ao ouvinte.

Foi um pouco desta experiência profunda que pudemos conferir no concerto do grupo Berlin Counterpoint no Festival Sesc de Música de Câmara. Nesta formação o grupo contava com seis instrumentistas de diferentes nacionalidades mas soube falar a mesma a língua durante todo o concerto. Num entrosamento perfeito, advindo da genialidade particular de cada um dos músicos, esse grupo cosmopolita nos presenteou com um concerto de muita inspiração. O repertório partiu de Paul Juon, com uma intrigante peça com uma especial Fantasia no centro da obra. Na sequência foi a vez do classicismo de Mozart ser executado de maneira cristalina e sentimental.

Uma das facetas mais elogiáveis do Festival é certamente a encomenda de novas obras. Assim tivemos a oportunidade de conferir a estreia de Allegro Scorrevole de Leonardo Martinelli (1978). Marcante professor, crítico e compositor, Leonardo tem se consolidado como uma das figuras mais atuantes no mundo da música de concerto de São Paulo e do Brasil. Sua peça parte de um motivo de notas repetidas que se entrelaçam conforme passam pelos timbres dos instrumentos do grupo. Do início ao fim da obra essa textura quase minimalista se mantém, e sobre ela vão despontando solos melodiosos de cada um dos instrumentistas. A tensão harmônica que enerva a peça certamente moveu a plateia que efusivamente aplaudiu ao final. Talvez o público tenha reconhecido algo de seu sotaque naquela linguagem moderna. A ótima recepção do público só mostra que a música atual tem muita força e, mesmo em idiomas menos conhecidos, fala a todo tipo de ouvinte.

Ao final do concerto, uma belíssima interpretação do sexteto de Francis Poulenc, que condensa o uso de idiomas modernos com materiais tradicionais e nos proporcionou o olor de aromas desconhecidos com o colorido dos timbres tipicamente franceses.

É impossível traduzir exatamente o idioma da musica para o reino das palavras, conforme nos falou o flautista Aaron Dan. A linguagem musical, mesmo se universal, é uma linguagem não-linguística. Abstrata nos sentidos e arquitetônica nas formas, a música instrumental é uma força, energia, um gesto que nos toca, nos comove e faz pensar. A música é comunicação apenas de maneira cifrada, e quando é maravilhosamente executada - como foi neste especial concerto – nos lembramos de que as coisas mais profundas da vida não cabem em palavras: para isso existe a música.

*José Calixto é músico, compositor e educador. É mestre em Filosofia na FFLCH-USP e Doutorando em Música na ECA-USP.

 

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